Vinho espanhol ou argentino: qual o melhor? Sommelier responde


A grande final da Copa do Mundo de 2026 entre Espanha e Argentina acontece neste domingo (19), no MetLife Stadium, em Nova Jersey (EUA). Além da disputa pelo troféu da Fifa, os dois países compartilham outra característica marcante: o reconhecimento internacional pela produção de vinhos.
Dados da Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV) mostram que a Espanha segue como o terceiro maior produtor de vinho do mundo, com 28,7 milhões de hectolitros em 2025. A Argentina, por sua vez, produziu 10,8 milhões de hectolitros, mantendo a liderança entre os produtores da América do Sul.
Em área cultivada, a Espanha ocupa a primeira posição mundial, com 919 mil hectares de vinhedos. A Argentina soma 196 mil hectares, continuando com a maior área de vinhedos da América Latina.
Mas, afinal, qual é melhor: o vinho espanhol ou o argentino?
Embora a tradição vitivinícola argentina tenha sido introduzida pelos colonizadores espanhóis a partir do século XVI, enquanto a produção na Espanha remonta à civilização fenícia, os dois países desenvolveram identidades próprias ao longo dos séculos.
Hoje, ambos são reconhecidos pela qualidade e, principalmente, pela diversidade de seus vinhos, afirma Mario Telles Jr., presidente da Associação Brasileira de Sommeliers de São Paulo (ABS-SP).
“A Argentina é, classicamente, o país da Malbec, o país de uma uva. A Espanha, embora também tenha uma uva emblemática, que é a Tempranillo, se baseia menos na uva e mais nos cortes. Ou seja, eu diria que são estágios de evolução diferentes”
Segundo o especialista, essa diferença também aparece no estilo dos vinhos. Na Argentina, a vitivinicultura está fortemente ligada à altitude. “Os melhores vinhos ficam perto da Cordilheira dos Andes e também em Salta, outra importante região produtora, além de Mendoza. Você encontra vinhedos com até 3 mil metros de altitude, alguns dos mais altos do mundo”.
Na Espanha, por outro lado, o destaque está na diversidade entre as regiões produtoras. “Cada lugar produz uma coisa diferente, desde vinhos muito quentes e potentes até vinhos elegantes. Você encontra, por exemplo, a Ribera del Duero, terra do famoso Vega Sicilia, cujos vinhos lembram mais o estilo de Bordeaux. Há também as famosas cavas espanholas, que, para mim, são o modelo mais próximo do champanhe”.
Para Telles Jr., as diferenças são tão marcantes que não fazem sentido comparações diretas. “No fundo, quando você começa a comparar, realmente não há um termo de comparação”.
Uma tradição, estilos diferentes
Na avaliação do presidente da ABS-SP, os vinhos espanhóis costumam apresentar maior complexidade, enquanto os argentinos se destacam pela pureza.
“Os argentinos conseguiram pegar a uva Malbec, que na França produz, em sua grande maioria, vinhos mais rústicos, especialmente na região de Cahors, no sudoeste do país. Ao plantá-la em altitudes entre 900 e 1.000 metros, transformaram essa uva em uma completamente diferente: elegante, fina e floral. Ou seja, mudaram o caráter da Malbec. Foi um daqueles casos em que o aluno ficou melhor do que o professor”.
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Assim como a Argentina é reconhecida pela Malbec, a Espanha tem na Tempranillo sua principal variedade. “A Tempranillo tem a capacidade de se manifestar de várias formas. Na Rioja, por exemplo, ela resulta em um vinho mais elegante e fino, completamente diferente daquele produzido na Ribera del Duero. É a mesma uva, mas com expressões distintas.”
A questão do custo-benefício
Segundo Telles Jr., a proximidade geográfica faz com que os vinhos argentinos sejam, em geral, mais acessíveis ao consumidor brasileiro. “Todo vinho europeu exige uma exportação mais trabalhosa e, por isso, acaba custando mais”.
Ainda assim, ele pondera que preço não deve ser o único critério de avaliação. “Particularmente, acho que essa história de um vinho ser caro é relativa. Você pode degustar um vinho às cegas e perceber que ele é tão bom quanto um Bordeaux”.
Na avaliação do especialista, um rótulo aparentemente mais caro pode, na prática, representar um melhor custo-benefício. “Se ele custa um pouco mais do que aquilo a que estamos habituados, isso não significa que seja caro. Pelo contrário, ele pode ser barato, porque um vinho francês equivalente custaria quatro ou cinco vezes mais”, concluiu apontando que uma boa degustação não tem preço.
Globo Rural



