Virada de Lula começou em Niterói (RJ): estudantes da UFF relembram primeiro protesto de rua do segundo turno

A indignação com o resultado do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026, em que Flávio Bolsonaro (PL) terminou vitorioso na disputa contra Luiz Inácio Lula da Silva, rapidamente se transformou em mobilização entre estudantes da Universidade Federal Fluminense (UFF), no campus Niterói, na região metropolitana do Rio de Janeiro. Por grupos de WhatsApp, alunos começaram a se organizar ainda na noite da apuração, em busca de uma resposta ao resultado e de uma forma de manter viva a esperança de reverter o cenário no segundo turno.
“Logo que acabou a apuração, a gente viu que precisava fazer algo pra não deixar o sentimento de desesperança chegar, o sentimento de entreguismo chegar no nosso lado”, disse Luísa Valentina ao Brasil de Fato. A estudante de Direito e diretora do Centro Acadêmico contou que os estudantes estavam chocados com a diferença de votos e viram uma oportunidade na quantidade de votos nulos e de eleitores que não compareceram às urnas.
Na manhã de 5 de outubro, às 10h, a primeira arte de divulgação de um ato já estava pronta. Produzida em conjunto com integrantes da atlética do curso de Direito, a iniciativa convocava os estudantes para uma manifestação naquele fim de tarde. A repercussão foi imediata: centros acadêmicos e atléticas de outros cursos entraram em contato para participar da organização.
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O que começou como uma articulação entre estudantes de Direito ganhou proporções inesperadas. Às 18h, a concentração na faculdade já reunia tanta gente que as falas previstas não podiam ser ouvidas por todos. A multidão ocupou as ruas, passou pela reitoria e seguiu em direção a Icaraí. Moradores desceram dos prédios para se juntar ao protesto, que, segundo Valentina, reuniu cerca de três mil pessoas.
A mobilização cresceu nas semanas seguintes, com novos atos e a participação de diferentes setores da sociedade. Entre os presentes estiveram o ministro da Educação, Leonardo Barchini, e Cristiane Gomes da Silva, mãe de Ana Clara, assassinada por policial defendido por Flávio Bolsonaro. A sequência de manifestações fortaleceu a articulação estudantil e ampliou a campanha pela reversão do resultado eleitoral.
Para Isabella Cardoso, estudante de Serviço Social da UFF e integrante do Movimento Kizomba, a reação imediata leva em conta a experiência vivida pela universidade durante o primeiro mandato de Jair Bolsonaro. Ela lembra que a instituição esteve entre as primeiras federais que sofreram cortes pelo então presidente, por motivo de “balbúrdia”, ainda nos primeiros meses de mandato.
Os ataques tiveram impacto concreto sobre a comunidade acadêmica e fizeram os estudantes sentirem na pele a hostilidade do governo em relação à educação pública. A estudante destaca que os cortes orçamentários comprometeram o funcionamento da universidade e chegaram a ameaçar o pagamento de bolsas de pesquisa, fundamentais para a permanência de muitos estudantes negros e periféricos. A situação, segundo ela, alimentou o medo de que os mesmos problemas voltassem a acontecer.
“Foi um período de trevas. E a gente não queria que isso acontecesse, então, falamos, vamos se organizar para ontem, vamos pra rua”, recorda.
A resistência à presença de Bolsonaro na universidade, porém, é mais antiga. Em 2011, ele foi convidado para uma mesa-redonda na Faculdade de Direito com o tema “homoafetividade”. Na ocasião, ele recebeu de dois vereadores da cidade duas moções de repúdio aprovadas na Câmara municipal contra suas falas homofóbicas que foram ao ar no programa televisivo CQC. Na ocasião, ele rasgou as moções e saiu do local sob vaias.
Para Cardoso, a mobilização atual não é um movimento isolado, mas parte de uma luta contínua em defesa da educação pública. “A luta retornou, na verdade. Essa vitória foi em favor da educação, porque a nossa luta em prol da educação é todo dia”, resume. E para comemorar a vitória deste segundo turno, um novo ato está marcado para às 19h na Faculdade Direito.



