Política

Esther Solano afirma que haverá bolsonarismo sem a figura de Bolsonaro

O crescimento do bolsonarismo não pode ser explicado apenas pelo antipetismo ou pela insatisfação com a política tradicional, segundo a cientista política Esther Solano. Para ela, a ascensão da direita nos últimos anos foi impulsionada por mudanças mais profundas nas percepções e nos valores de grupos que historicamente estavam mais próximos da esquerda, como jovens, mulheres e trabalhadores de baixa renda.

Entrevistada pelo economista Marcos Lisboa para o videocast Desenquadrando, Solano diz que a extrema direita conseguiu interpretar transformações sociais que já estavam em curso antes da eleição de Jair Bolsonaro (PL).

Desenquadrando é um especial com entrevistas sobre temas que impactam a sociedade brasileira. O programa está disponível no canal da TV Folha no YouTube.

No quinto episódio, Solano fala sobre bolsonarismo, comportamento eleitoral, evangélicos e os desafios enfrentados pelo governo Lula (PT).

Segundo a pesquisadora, o avanço da direita ocorreu em duas camadas. A primeira foi marcada por fatores conjunturais, como o antipetismo, a Operação Lava Jato e o sentimento de frustração com a política.

A segunda, que ela considera mais importante, envolveu mudanças nas subjetividades de grupos sociais identificados com pautas progressistas. “Quando a extrema direita chega ao poder, é porque ela simboliza um movimento de placa tectônica que já aconteceu por baixo há muito tempo”, diz Solano.

A pesquisadora afirma que, entre as mulheres, a direita passou a disputar símbolos associados ao feminismo. Ela cita o caso da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que, segundo sua análise, procura combinar a imagem de mulher atuante na esfera pública com valores religiosos e familiares.

Já entre os jovens, Solano aponta o papel das redes sociais e da comunicação digital na construção de uma política mais performática. Ela também aponta o endividamento como um dos principais fatores de insatisfação identificados.

Ao comentar a disputa para 2026, a pesquisadora diz que acompanha em pesquisas qualitativas o comportamento do chamado eleitor pendular. O grupo ainda oscila entre nomes da direita e da esquerda.

De acordo com Solano, antes de recentes controvérsias envolvendo Flávio Bolsonaro (PL), parte desses eleitores enxergava o senador como uma versão mais moderada do bolsonarismo.

Segundo ela, o pai era visto por esse eleitorado como autêntico e bruto, enquanto o senador e pré-candidato a presidente é “o cínico, um jogador”.

“Haverá um certo bolsonarismo sem a figura do Jair Bolsonaro, como a gente vê agora. Essa disputa pelo legado do bolsonarismo enquanto campo de disputa política, enquanto quais nomes levarão esse legado.”

Na entrevista, Solano também analisa a relação entre bolsonarismo e evangélicos. Segundo ela, houve um processo de “bolsonarização” de parte do universo evangélico, especialmente entre segmentos pentecostais e neopentecostais.

A pesquisadora destaca a influência da teologia da prosperidade, da valorização do empreendedorismo e da ideia de que os evangélicos passaram a se enxergar como um grupo com protagonismo político próprio. Ao mesmo tempo, ela destaca que pesquisas qualitativas realizadas durante a última eleição identificaram sinais de desgaste com a presença excessiva da política dentro das igrejas.

Folha de São Paulo

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