Economia

Avanço de 4,8% na massa salarial pressiona BC com juros maiores por mais tempo

A notícia é boa para o trabalhador. A taxa de desemprego está em 5,6%, o melhor resultado para o trimestre encerrado em maio em 14 anos, de acordo com a Pnad, divulgada nesta sexta-feira (26). A população ocupada teve alta (0,5%), na comparação mensal, e a massa de rendimento real habitual avançou 4,8% no ano.

Mas, para a política monetária, os dados ainda mantêm o sinal de alerta. Esse quadro de mercado de trabalho forte tem um efeito colateral para o bolso do brasileiro. Com mais dinheiro na conta, a tendência é que isso aumente o consumo e pressione a inflação, o que leva a juros mais altos por mais tempo.

Apesar do quadro anual positivo, há “ventos de arrefecimento”, na avaliação da XP. A análise dos dados mensais aponta para uma leve desaceleração na criação de vagas, segundo a gestora, e “perda de fôlego”, pelo segundo mês consecutivo, nos rendimentos reais do trabalho.

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O Goldman Sachs também destaca essa tendência nos dados. “O mercado de trabalho permanece aquecido, mas já surgem sinais iniciais de desaceleração na criação de vagas e no crescimento dos salários reais”, diz o banco americano.

O número é bom para quem trabalha, mas coloca o Banco Central em uma posição delicada”, avalia João Debom, sócio da Alude Capital. “Mercado de trabalho aquecido significa consumo firme, e consumo firme significa inflação de serviços resistente. É exatamente esse o fator que limita o espaço para novos cortes da Selic. O juro vai cair, mas o ritmo será lento.”

Vitor Kayo, economista sênior da Nomad, também destaca o impacto dos dados na política de juros. “Mais gente empregada ganhando salários reais maiores sustenta o consumo das famílias”, diz. “O mercado de trabalho não dá sinais de arrefecimento. Com desemprego na mínima histórica, renda em alta e massa salarial em recorde, o consumo segue aquecido, e os estímulos fiscais e creditícios em ano eleitoral não deixam esse quadro mudar tão cedo”, avalia. Kayo afirma que, para o Banco Central, o mercado de trabalho segue sendo “um dos principais calcanhares de Aquiles no combate à inflação”. “E os dados de hoje não facilitam a vida de quem busca trazer a inflação de volta à meta”, avalia.

Indicador/Período Mar-abr-mai 2026 Dez-jan-fev 2026 Mar-abr-mai 2025
Taxa de desocupação 5,60% 5,80% 6,20%
Taxa de subutilização 13,30% 14,10% 14,90%
Rendimento real habitual R$ 3.726 R$ 3.756 R$ 3.583
Variação do rendimento habitual em relação a: Estabilidade 4,00%
Fonte: Pnad/IBGE

Ocupação e renda aquecidos

Claudia Moreno, economista do C6 Bank, destaca que, embora a Pnad tenha mostrado uma leve queda na renda média em termos reais nos últimos meses, os rendimentos ainda registram forte alta na comparação anual. “A renda real média habitual subiu 4% frente a maio de 2025, e a massa de renda habitual – equivalente à soma dos ganhos de todos os trabalhadores – saltou 4,8% no mesmo período”, aponta. 

“O que os dados da Pnad sugerem é que, nos últimos meses, a taxa de desemprego ficou praticamente estável em um nível historicamente baixo para os padrões do país. Mesmo que a desaceleração da economia possa afetar o ritmo de criação de vagas ao longo de 2026, o mercado de trabalho deve continuar aquecido”, avalia.

Leve desaceleração

O Goldman Sachs cita os dados que indicam leve moderação na ocupação. Em relatório, o banco destaca que a renda real média dos trabalhadores ocupados desacelerou para 4,0% na comparação anual, mas caiu -0,9% na mensal com ajuste sazonal. A massa salarial real da economia expandiu 4,8% na comparação anual, mas recuou -0,8% na mensal com ajuste sazonal. A taxa de participação na força de trabalho manteve-se em 62,1% (com ajuste sazonal), abaixo dos 62,5% registrados anteriormente. 

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“De modo geral, as condições monetárias restritivas ainda não geraram um ponto de inflexão visível no mercado de trabalho, e o cenário de mercado aquecido continua exercendo pressões significativas de custos sobre a inflação, particularmente no setor de serviços” diz o Goldman Sachs.

As economistas Natalia Cotarelli e Marina Garrido, do Itaú, apontam em relatório que os salários reais efetivos registraram a primeira queda desde agosto do ano passado. “De modo geral, os dados sugerem que, embora o mercado de trabalho permaneça em níveis historicamente apertados, ele começa a apresentar sinais de arrefecimento. Para o futuro, esperamos que o mercado de trabalho se estabilize em vez de continuar melhorando — mas sem sofrer uma deterioração acentuada”, avaliam.

Para o Bradesco, os dados de maio mostram “perda de ímpeto”. O destaque da instituição foi para a queda mensal do rendimento, em 0,6%, a primeira queda mensal desde setembro de 2024. “Ainda que o mercado de trabalho continue sendo motor de robustez da atividade econômica, o sinal de maio é de perda de ímpeto. O aumento de atividade no segundo trimestre será menor que no segundo”, afirma o banco. 

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Leonardo Costa, economista do ASA, afirma que a piora observada até aqui é “bastante modesta e gradual”. A expectativa da gestora é de deterioração adicional ao longo do ano, de forma lenta e progressiva.

André Valério, economista sênior do Inter, afirma não haver sinal de aceleração no emprego e a expectativa da instituição é de moderação ao longo do ano.

Projeções

Para o Itaú, a projeção é que a taxa de desemprego feche o ano em 5,7%, mesmo patamar projetado pelo banco Inter.

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Para a XP, a taxa de desemprego deve ficar em torno de 5,5% até o fim de 2026, subindo para 6,2% até o fim de 2027 (estimativas com ajuste sazonal). A projeção de crescimento do PIB é de 2,0% para 2026, com viés de alta.

Rafael Perez, economista da Suno Research, estima que a taxa deve ficar em 5,3%. “Para este ano continuamos projetando um mercado de trabalho resiliente, que deverá permanecer como um dos principais vetores de sustentação da atividade econômica. Mesmo com uma desaceleração gradual esperada para os próximos trimestres, ainda enxergamos espaço para uma queda moderada da taxa de desemprego”, afirma.

Infomoney

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