Os chineses na equação do agro brasileiro


A China tornou-se peça central na equação do agro brasileiro. Nas últimas duas décadas, o país consolidou-se como nosso principal parceiro comercial e destino para uma ampla gama de produtos da agropecuária nacional.
Essa relação trouxe ganhos expressivos, sustentou a renda no campo, fortaleceu cadeias produtivas e contribuiu para o superávit comercial. Mas, apesar dos ganhos, há fragilidades no grau de concentração e na assimetria dessa parceria.
Em alguns produtos, essa dependência é elevada. A China absorve parcela majoritária das exportações brasileiras de soja e mais da metade das vendas de carne bovina ao exterior. Exportamos commodities de grande escala, mas com baixo grau de processamento e limitada captura de valor tecnológico e industrial. Em contrapartida, importamos máquinas, insumos industriais, tecnologias digitais e bens de maior complexidade.
Nenhum país com a dimensão e as ambições da China aceita depender passivamente de poucos fornecedores. A China continuará sendo mercado de grande escala, mas buscará mais autonomia, fornecedores diversos e controle sobre cadeias críticas. Com as restrições chinesas de terra, água e demanda alimentar, a autossuficiência plena é improvável.
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O movimento mais provável será diversificar origens, reduzir riscos e dominar tecnologias que poderão redefinir a agricultura e o sistema alimentar nas próximas décadas. A China já trata alimentos e proteínas como áreas estratégicas, combinando visão de longo prazo, coordenação entre Estado, empresas e pesquisa, capital e domínio de cadeias tecnológicas.
Esse movimento envolve biologia avançada, proteínas alternativas, bioinsumos, ciência de dados, rastreabilidade e capacidade de influenciar padrões futuros de produção e comércio.
Estudos prospectivos indicam que ganhos de produtividade e novas fontes de proteína poderão reduzir a demanda chinesa por soja importada ainda nesta década. Não se antevê nisso um sinal de colapso do comércio, porém, para o Brasil, é um alerta de que a dependência de um único destino não é conforto permanente. Outro desafio é evitar que a reconhecida eficiência produtiva do agro conviva com a baixa captura de valor tecnológico e industrial.
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O agro brasileiro tem vantagens fortes, como agricultura tropical produtiva, múltiplas safras, biomassa abundante, bioenergia, produtores empreendedores, ciência reconhecida e escala continental.
Apesar disso, tais vantagens não garantem liderança futura por inércia. A competitividade brasileira dependerá de inovação, agregação de valor e diversificação de mercados.
As escolhas estratégicas da China antecipam mudanças que o Brasil precisa compreender. Quem compra grande parte da nossa produção prepara-se para controlar riscos, tecnologias e cadeias de valor. O Brasil precisa fazer o mesmo, ampliando mercados, reduzindo dependências, fortalecendo a indústria associada ao agro e ocupando espaços na fronteira da inovação tecnológica.
A questão estratégica não é apenas quanto venderemos à China, mas se o Brasil ocupará uma posição mais qualificada, autônoma e inovadora no sistema alimentar global
*Maurício Antônio Lopes é engenheiro agrônomo e pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa)
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