‘Dieta carnívora’, que atrai grupos da machosfera nas redes sociais, não possui evidência científica

Na contramão de dietas restritivas com foco em emagrecimento feminino, protocolos alimentares para ganho muscular conquistam espaço entre homens. A busca por “dieta carnívora” ganhou fôlego em 2024 e atingiu o seu pico no início de 2026, bem como o termo “dieta da selva“, de acordo com dados do Google Trends.
Ambas propõem o consumo primordial de alimentos de origem animal, abrindo mão total ou parcialmente dos vegetais. A ingestão de produtos ultraprocessados é vedada na dieta da selva.
Mas, embora apelem à alimentação natural, esses e outros métodos frequentemente se associam ao discurso de resgate de uma suposta masculinidade ancestral. Em suas teorias, perfis de adeptos nas redes sociais traçam relação entre o elevado consumo de proteína, um corpo musculoso, o aumento de testosterona e uma ideia de homem predatório.
De acordo com a nutricionista Sophie Deram, no entanto, não há base científica que endosse essa relação. A especialista ressalta que o consumo de proteína não gera massa muscular se não houver prática de exercícios físicos. O excesso do macronutriente consumido é excretado pelo corpo; o consumo de gordura associado também aumenta os riscos de alteração metabólica e problemas cardiovasculares.
Nesse contexto, a obsessão por proteína pode influenciar na popularidade dessas dietas: enquanto a OMS (Organização Mundial da Saúde) aconselha a ingestão de até 15% de proteína ao dia, brasileiros ingerem cerca de 18%, diz Sophie. Para ela, a nutrição é mero acessório nesses cardápios.
Ainda assim, a ideia de que seguir uma dieta resultará em transformação corporal e comportamental pode atrair jovens em busca de soluções para inseguranças e problemas de socialização, diz o psicólogo Lucas Mascarim.
Ex-integrante da coordenação do Gemas (Grupo de Ensino e Pesquisas em Masculinidades) da USP, Mascarim diz que, entre as ideias associadas a grupos masculinistas como os red pill, está a de que as mulheres emasculam os homens e controlam o mundo, nutrindo um ressentimento de gênero.
“Isso gera teorias de gênero sem fundamentos. Se a ideia de masculinidade associada à predação sugere que homens têm direito a determinadas coisas, logo, ao comer mais carne, desenvolver músculos, entre outros aspectos, espera-se o acesso a esses ‘direitos’. Isso incentiva a violência, que surge como meio de garantir aquilo. Beira uma meritocracia de gênero.”
Nesses contextos, a tentativa de ridicularizar homens que não atendem aos estereótipos masculinistas surge em termos como “soy boy” (ou “sojado”), independentemente de eles comerem carne ou não. A pretensa ofensa está na ideia de que a soja implicaria na alteração hormonal de quem a consome, causando uma suposta feminização. Não há evidências.
De acordo com o psicólogo Lucas Mascarim a figura masculina evocada por esses grupos, no entanto, foi criada pelas sociedades ao longo do tempo e reforçada por aspectos sociais e econômicos.
Do ponto de vista da nutrição, diz Sophie Deram, a própria evolução humana não se deu pelo consumo de carne em si, mas pelo descobrimento do fogo e de técnicas culinárias. Sophie explica que o processo de pré-digestão resultante do cozimento é importante para o corpo acessar os nutrientes dos alimentos de forma mais eficiente e gastar menos energia.
Assim, ela refuta a relação entre desenvolvimento e dimensão corporal. “Há grandes primatas que não se desenvolveram como nós porque passam o dia comendo folhas para tentar manter aquele corpo, o que torna impossível aprimorar outras habilidades”.
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Informação
Folha de São Paulo



