Maior apreensão de canetas emagrecedoras encontra 5.850 produtos em van na Ponte da Amizade

A Receita Federal registrou, nesta sexta-feira (10), a maior apreensão de canetas emagrecedoras já feita na aduana internacional da Ponte da Amizade, em Foz do Iguaçu (PR).
Uma van com placas do Paraguai, conduzida por um motorista paraguaio e com quatro passageiros, três deles brasileiros, foi flagrada no final da tarde com 5.850 canetas e ampolas de medicamentos para emagrecimento quando tentava cruzar a ponte, na fronteira entre os dois países.
As canetas emagrecedoras estavam escondidas no capô do veículo, em condições totalmente inadequadas de transporte e próximas a fontes de calor. A tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, precisa ser mantida em refrigeração para ter eficácia.
Segundo a Receita Federal, os servidores do órgão abordaram a van e, aparentemente, todos os passageiros transportavam mercadorias compatíveis com a cota de viajante, de US$ 500 (R$ 2.555, ao câmbio desta sexta).
Quando, porém, os agentes de repressão ao contrabando pediram ao motorista para abrir o capô do veículo, ele teria simulado atender a ordem e fugiu em direção ao Paraguai.
O compartimento foi, então, aberto e os servidores que atuam na alfândega encontraram as 5.850 ampolas de medicamentos para emagrecimento ocultas sob o capô. Além da tirzepatida, havia também retatrutida, medicamento ainda em caráter experimental e que oficialmente não existe no mercado em nenhum país do mundo —mas já é encontrado em várias marcas no Paraguai.
Até então, a maior apreensão já registrada na região da tríplice fronteira tinha ocorrido em 29 de abril de 2024, quando 4.598 canetas emagrecedoras foram encontradas numa fiscalização na BR-277, rodovia que liga a fronteira à capital do Paraná, Curitiba.
Com isso, as apreensões neste ano já somam 115.647 canetas e ampolas, ante as 7.479 de 2025, o que representa um crescimento de 1.446,3% em comparação com o ano passado.
No último dia 3, um casal e uma criança já tinham sido flagrados com 2.707 canetas e ampolas de tirzepatida de 15 mg e retatrutida e, também nesta sexta, um fundo falso no filtro de ar de uma moto do Paraguai abrigava 52 caixas de ampolas de TG, uma das marcas do “Mounjaro paraguaio”.
A apreensão na van somou cerca de R$ 735 mil em medicamentos, conforme a Receita Federal, que apontou uma série de problemas. O primeiro é a irregularidade na importação, já que a entrada no Brasil de todas as marcas de tirzepatida provenientes do Paraguai é proibida pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).
As canetas emagrecedoras paraguaias, porém, se espalharam pelo país devido ao preço, à facilidade de compra e à fiscalização deficiente na fronteira.
O tratamento mensal de Mounjaro de 15 mg (com quatro canetas, para aplicações semanais) custa a partir de R$ 3.499 no Brasil. Para quem compra nas farmácias de Ciudad del Este, no entanto, a versão paraguaia do medicamento custa em média R$ 430, sem a necessidade de apresentação de receita médica.
Além do ingresso ilegal do produto no país, a Receita afirmou que as canetas eram transportadas em condições incompatíveis com as recomendações da fabricante, que exigem armazenamento refrigerado. Sem isso, qualidade, eficácia e segurança ficam comprometidos.
Os passageiros foram ouvidos e liberados, enquanto as unidades de tirzepatida e o veículo foram encaminhados à alfândega da Receita Federal em Foz do Iguaçu para apreensão (da van) e armazenamento para posterior destruição (das canetas).
Fabricante do Mounjaro, a farmacêutica Eli Lilly afirma que o medicamento que produz exige controle de temperatura em toda a cadeia, com condições rigorosas de armazenamento, transporte e manuseio.
“Quando produtos que alegam conter tirzepatida circulam fora dos canais autorizados e da cadeia de distribuição regulada, não há garantia de que esses requisitos foram cumpridos. Isso expõe os pacientes ao risco de receber um produto contaminado ou ineficaz”, diz a empresa.
As canetas emagrecedoras são medicamentos agonistas de GLP-1, hormônio produzido naturalmente pelo corpo humano que atua no controle dos níveis de glicose no sangue e nos mecanismos de saciedade.
Entidades médicas apontam riscos à saúde com o uso de medicamentos que não têm aval da Anvisa. Há duas apresentações do medicamento no Paraguai: em canetas e em ampolas, que ocupam menos espaço e por isso têm a preferência de pequenos e grandes contrabandistas para ingresso no Brasil.
Informação
Folha de São Paulo



