Relação Brasil-EUA, hoje sob turbulência, já teve cordialidade e diplomatas encrenqueiros

Com as relações do Brasil com os Estados Unidos atravessando uma turbulência medíocre, com personagens de segunda, chega a ser um bálsamo ir ao livro “A Monarquia e a República: Aspectos das Relações entre Brasil e Estados Unidos durante o Império”, do diplomata Marcelo Rafaelli. Foi editado pela Fundação Alexandre de Gusmão, cuja livraria eletrônica oferece tesouros gratuitos.
Rafaelli consultou quatro arquivos e bibliotecas brasileiras, dois americanos e mais dois ingleses. Foram milhares de despachos que retratam diplomatas profissionais defendendo os interesses de seus países, explicando e até mesmo enrolando-se. (Dois ministros americanos mataram-se.)
Tempos curiosos. Os Estados Unidos combatiam o contrabando de negros e vendiam barcos aos traficantes. O Brasil declarava-se neutro diante da Guerra da Secessão (1861-1865), mas dava boa vida aos rebeldes. Em 1864, um navio da União sequestrou um vapor rebelde na baía de Salvador. (Como registrou o ministro americano James Webb em 1861, “os grandes proprietários de escravos que governam o país, cujas simpatias estão todas com nossos rebeldes”.)
Em 1826, os americanos já tinham um olho gordo na Amazônia, mas dom Pedro 2º só abriu o rio à navegação 40 anos depois, num hábil exercício de enrolação na defesa da soberania nacional.
Os americanos tiveram no Rio muitos diplomatas encrenqueiros. O primeiro, Condy Raguet, já em 1826. O mais virulento foi Henry Wise, que chegou em 1844 e foi mandado embora por dom Pedro. Na Guerra Civil, ele chegou a general das tropas do Sul e perdeu suas terras.
Wise prenunciava os Estados Unidos do século 21 e em 1846 escreveu: “A verdade, repito, é que este povo precisa de uma lição, e, se necessário, uma lição severa, para fazê-los respeitar os direitos e a liberdade pessoal dos estrangeiros residentes neste país. Eles estão completamente mimados pela indulgência até agora [recebida], e em particular por aquela do governo britânico. […] Numa palavra, deve-se fazer este povo respeitar-nos. Eles são ignorantes, insolentes e possuidores de um falso senso de dignidade”.
A percepção dos diplomatas americanos deixou a desejar. Em 1826, Raguet duvidava de nova nação, em 1889 o representante americano achava que, enquanto dom Pedro vivesse, o regime não sofreria sobressaltos, e em 1930, depois da eleição de Júlio Prestes, o embaixador tirou férias.
Marcelo Rafaelli concluiu com uma afirmação que vale para o Itamaraty, mas caducou para a Casa Branca e para uma banda teatral da política brasileira: “A única monarquia duradoura do continente americano e aquela que se tornara uma das duas mais poderosas, ricas e influentes repúblicas do mundo (a outra sendo a França) tinham mantido, durante 65 anos, relações que –excetuados uns poucos casos de desentendimento, devidos mais a problemas de personalidade do que a divergências de fundo– foram marcadas por cordialidade e mútuo respeito”.
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Folha de São Paulo



