Aparente conflito entre Michelle e Flávio é método de mobilização do bolsonarismo

[RESUMO] A divulgação do vídeo de Michelle Bolsonaro com críticas a Flávio não deve ser interpretada como gesto de desunião familiar ou erro de comunicação, sustenta a autora, mas como expressão de um método de mobilização de eleitores em que até a exposição de fissuras familiares tem espaço.
A polêmica envolvendo Michelle Bolsonaro e o pré-candidato do PL (Partido Liberal) à Presidência, Flávio Bolsonaro, vem repercutindo nas últimas semanas. O debate, vamos chamar assim, incluiu o vídeo divulgado pela ex-primeira-dama e ex-presidente do PL Mulher, que teve desdobramentos sobre a relação do bolsonarismo com as mulheres, e a declaração misógina do influenciador Paulo Figueiredo.
Paralelamente aos conflitos inerentes ao jogo político e àqueles específicos do clã Bolsonaro, a peça de marketing político mais comentada dos últimos tempos, produzida e difundida por Michelle, deveria nos alertar sobre as lentes que estamos usando para ler os novos tempos da política brasileira.
A extrema direita no Brasil criou um novo tipo de organização política: uma nova forma de articular forças, mobilizar eleitores e comunicar os seus valores. Precisamos olhar para essas mudanças para conseguirmos adotar novas lentes de leitura.
A partir das lentes que estamos habituados a usar, algumas afirmações aparentemente pertinentes foram feitas.
1. “A candidatura de Flávio tem muito a perder com o pronunciamento de Michelle.”
Entre outras motivações que envolvem conflitos familiares, o vídeo foi produzido também porque a pré-candidatura de Flávio começou a expor fragilidades políticas relevantes —corrupção, relações escusas e perda de autoridade moral— e a perder bases importantes, como segmentos do eleitorado evangélico e feminino. Ou seja, não pensando necessariamente apenas em curtíssimo prazo ou exclusivamente na campanha do senador.
Para quem ainda hesita em acreditar que Flávio será ainda mais atingido pelo “furacão Vorcaro”, o vídeo de Michelle indica que, no próprio núcleo, esse risco já é dado como certo e a campanha precisa reagir a isso.
Ao mesmo tempo, ao indicar um afastamento do enteado, o que depois ficou indicado como uma escalada de desavenças e conflitos de gênero entre aliadas mulheres e aliados homens do campo bolsonarista, Michelle também tentou conter danos, caso mais evidências sobre o caso Master a atinjam ou suas aliadas e sua família.
Isso, dependendo do que realmente vier à tona, pode, em um primeiro momento, conter o nariz torcido já refletido nas pesquisas recentes em relação a Flávio, enquanto isso ainda for possível, e impedir que o desgaste contamine o restante do clã a médio prazo.
A pesquisa Atlas/Bloomberg publicada na última semana registra a tendência de queda nas intenções de voto na candidatura bolsonarista, mas já dá indícios sobre o impacto positivo no recall da imagem de Flávio enquanto candidato e no apoio ao seu nome como única alternativa do clã Bolsonaro.
Para eleitores de Jair Bolsonaro que assistiram ao vídeo, a Atlas perguntou: “Entre Michelle e Flávio, com quem concorda mais?” Quarenta e três por cento disseram concordar com Flávio Bolsonaro, 33,6% com ambos em parte e 17,3% com Michelle. Ao mesmo tempo, reagindo à pergunta sobre “qual a importância do apoio e da participação ativa de Michelle na campanha de Flávio à Presidência?”, 55,4% afirmaram ser muito importante ou importante.
Em síntese, Michelle tem um papel relevante na campanha do campo bolsonarista, Flávio mantém a sua importância e estamos, o Brasil inteiro, falando ininterruptamente sobre eles e sobre qualquer novo passo dado por ambos desde que o vídeo foi lançado.
2. “Como dirigente partidária, Michelle está se mostrando desleal ao partido ao criticar o seu candidato.”
O vídeo é uma peça bem-pensada e construída de propaganda do próprio PL, que busca difundir a ideia de que está comprometido com a reconstrução política do país, com a “missão de conter a esquerda” e com o compromisso de ampliar a sua base feminina, dando visibilidade e viabilidade político-eleitoral a candidaturas de mulheres ao redor do Brasil.
O partido e o seu presidente não apenas celebram o desempenho de Michelle como agradecem pela repercussão orgânica e viral da sua nova peça publicitária, mesmo que, devido a conflitos entre a família e reações machistas contra o seu posicionamento, a ex-primeira-dama tenha optado por sair do seu cargo partidário nesse momento. A publicidade está feita.
Com isso, o pronunciamento faz não só com que uma propaganda eleitoral gratuita do PL caia na boca de todos e todas pelo país e nas redes digitais como reativa e mobiliza as mulheres, uma parcela do eleitorado crucial para as urnas e para a mediação da comunicação política no país hoje, algo que a própria candidatura de Flávio vinha tendo dificuldades de fazer. Não é desobediência, mas método.
Parece difícil imaginar que uma peça de propaganda eleitoral gratuita, feita pelas melhores cabeças do marketing político de qualquer partido no país, conseguisse tamanha repercussão e apropriação imediata.
Hoje, a mobilização do voto não pode ser compreendida isoladamente do perfil mais amplo do eleitorado do Brasil, que se tornou mais feminino, mais escolarizado e mais idoso ao longo das últimas décadas.
Desde os anos 2000, o número de eleitoras supera o de eleitores. Em 2022, havia cerca de 8,5 milhões de mulheres a mais cadastradas para votar do que homens. Além disso, a abstenção, que vem crescendo nas últimas eleições, é menor entre as mulheres. Em termos estritamente numéricos, o voto feminino é, há algum tempo, estruturalmente definidor.
Se analisarmos também do ponto de vista do comportamento eleitoral, esse eleitorado feminino é, em média, mais progressista que o masculino. Isso se expressa tanto em pautas relacionadas à justiça social e ao cotidiano da vida dessas mulheres quanto na resistência a estilos políticos mais agressivos e autoritários. Também tem sido o voto fiel da balança em eleições passadas, especialmente entre o eleitorado indeciso ou mais suscetível a variações.
Estamos falando, portanto, de um contingente numeroso de eleitoras que não se alinha automaticamente a nenhuma força política e que se torna alvo estratégico de disputas de narrativa e de propostas concretas em campanhas eleitorais.
O PL e Michelle sabem disso. A ex-primeira-dama vem mobilizando essas eleitoras há muito tempo, bem antes de entrar para o PL, se concentrando em mulheres evangélicas junto com a sua amiga e aliada política Damares Alves, ex-ministra do governo Bolsonaro e hoje senadora.
Ao entrar no PL Mulher, Michelle passou a ampliar a mobilização feminina, não mais se restringindo às suas irmãs na fé evangélica. Ela estruturou o núcleo feminino do partido e aplicou as metodologias de mobilização até então adotadas em parceria com Damares em diálogo com mulheres conservadoras, religiosas ou não, Brasil afora.
Nesse cenário, o voto feminino é fundamental e terá muito impacto na eleição deste ano.
3. “Michelle está rompendo com os filhos de Bolsonaro e mostrando desunião familiar.”
Existem rompimentos, como ficou nítido após a divulgação do vídeo, mas a intenção principal era justamente mostrar uma “família de verdade”. A mensagem é de uma família da vida real e de retidão moral. Se Flávio errou ou erra, será repreendido.
Em pouco tempo, o senador veio a público dizer: estamos juntos. “Em nenhum momento, ofendi ou tive a intenção de ofender a Michelle. Se o fiz em algum momento, mais uma vez, peço desculpas. Tenho por ela respeito e reconhecimento pelo trabalho no PL Mulher.”
A extrema direita bolsonarista raramente se move sem antes alinhar as peças e tende tanto a crescer quanto a manter a atenção sobre si justamente em cenários de conflito e barulho. Com as nossas lentes anteriores, parece uma crise permanente que só pode gerar ônus. Para eles, é um método de mobilização de afetos e de eleitores.
À primeira vista, parece estranho imaginar a família tirando proveito da exposição de fissuras internas, mas essa lógica não só faz parte do seu modo de agir para se manter em evidência como serve para mobilizar afetos a partir da ideia de uma família de verdade, que discorda, mas se une em torno de uma “missão” maior —combater as forças de esquerda no país— e da fé.
Do ponto de vista da organização política, como propõe a recente tese do “partido digital bolsonarista”, de Marcos Nobre e outros pesquisadores do CCI/Cebrap (Centro para Imaginação Crítica), é essencial entender o bolsonarismo não apenas como lideranças carismáticas, máquina de desinformação ou corrente ideológica difusa, mas como uma forma específica de organização que opera dentro e fora das estruturas partidárias formais.
Trata-se de um arranjo relativamente coeso de líderes, parlamentares, influenciadores, produtores de conteúdo e bases mobilizadas capaz de coordenar disputas, produzir disciplina, expandir pautas e sustentar uma ação política continuada.
Essa nova morfologia política, como os formuladores do conceito propõem, não depende prioritariamente de diretórios ou burocracias partidárias tradicionais, mas se estrutura em cadeias de lealdade, circuitos permanentes de engajamento e infraestruturas de visibilidade.
O partido formal segue importante como acesso eleitoral e plataforma institucional, mas a mobilização cotidiana, a produção de pertencimento e boa parte da coordenação política passam a operar em outro plano: das plataformas digitais, da circulação de conteúdo, dos sinais de lealdade e da ativação permanente da base.
Nesse modelo, a coesão depende menos de ordens formais e mais de afinidades ideológicas, repertórios compartilhados e expectativas de comportamento no campo bolsonarista. Por isso, atores muito diferentes, como parlamentares de alta exposição e perfis menores no campo digital, podem atuar com graus variados de protagonismo, mas convergem em agendas, enquadramentos e prioridades.
Esta é a lente sobre a organização política que devemos passar a adotar: o aparente conflito é método; os rompimentos iminentes são constantes e, ao mesmo tempo, combustível de mobilização da atenção.
Do ponto de vista das novas formas de comunicar valores e moralidades em uma era de crises, desenraizamento e falta de perspectiva de futuro, o bolsonarismo compreendeu algo que parte do campo democrático ainda trata com atraso: identidades religiosas, familiares e morais não são apenas marcadores privados ou acessórios de campanha. Elas são formas de pertencimento, reconhecimento e que comunicam opções políticas.
Enquanto muitas candidaturas ainda acionam suas identidades, religiosas ou não, de maneira episódica, defensiva ou instrumental, Michelle fala a partir de um repertório que parece orgânico para milhões de pessoas: a mulher de fé, a mãe, a esposa, a figura que cobra retidão, preserva a família e convoca outras mulheres para uma missão política apresentada como missão moral, conforme indicam pesquisas com evangélicas realizadas pelo Instituto de Estudos da Religião.
Do ponto de vista da mobilização eleitoral, o movimento também é preciso. Ele reposiciona Michelle como uma líder capaz de falar com mulheres que não necessariamente se identificam com a agressividade do bolsonarismo tradicional, mas podem ser mobilizadas por uma gramática de cuidado, proteção, fé e combate ao “mal” representado pela esquerda. A diversidade de mulheres de diferentes alas da direita brasileira que manifestaram apoio à Michelle ao longo dos últimos dias mostra isso.
É uma comunicação que fala especialmente com mulheres em geral e com o eleitorado evangélico feminino em particular, sem precisar se apresentar como uma peça convencional de campanha. Ao contrário: quanto mais parece espontânea, indignada e pessoal, mais funciona como propaganda política.
Para tentar mitigar a “frágil autoridade evangélica de Flávio Bolsonaro“, como bem explicam as pesquisadoras Andréa Laís e Lorena Mochel, Michelle entra em cena com autoridade moral, linguagem religiosa, identificação com mulheres e capacidade de mobilizar afetos para além da disputa partidária tradicional. Não se trata apenas de defender ou atacar Flávio. Busca-se também manter viva a conexão emocional com uma base que se organiza tanto pela política quanto pela fé.
Ainda estamos lendo a política com as lentes de ontem, mas o bolsonarismo bagunçou o nosso campo de visão. Enquanto insistirmos em interpretar os seus movimentos apenas como crise, desunião ou erro de comunicação, continuaremos subestimando a sua capacidade de transformar conflito em método, exposição em mobilização e moralidade em organização política.
A questão central não é saber se o vídeo produziu constrangimento interno. Produziu. A questão é compreender que, no ecossistema bolsonarista, até o constrangimento pode ser convertido em narrativa, pertencimento e força eleitoral.
Folha de São Paulo



