Renan Santos usa cidades isoladas como laboratório de pré-campanha

“Eu achei ótimo, né? Porque aqui na minha casa tinha vindo candidato a prefeito e vereador. Candidato a presidente nunca tinha vindo”, diz Cilene Malheiro, 46, após receber o pré-candidato Renan Santos, do partido Missão, no casebre de palafita onde vive, em Melgaço (PA), no arquipélago do Marajó.
Mora ali com parte dos oito filhos, o marido e o pai. Questionada pela Folha sobre o que pediria a um presidente, Cilene não falou de ideologia. “A água e o hospital, né, para fazer cirurgia, que não tem aqui.”
Cilene contou que a água do rio serve “para o consumo, para tomar banho, para lavar roupa, para tudo”. Relatou episódios frequentes de diarreia entre os filhos. Um menino de seis anos havia recebido diagnóstico de verminose, segundo ela, e outro precisou ser levado a Breves para consulta.
Melgaço entrou no noticiário nacional por aparecer no Atlas do Desenvolvimento Humano como o município de menor IDH-M (Índice de Desenvolvimento Humano Municipal) do país no ranking divulgado em 2013, com dados do Censo de 2010.
Documentos estaduais de saneamento produzidos em 2022 e 2024 registram que Melgaço não dispunha de rede coletiva de esgoto e que parte dos dejetos era destinada a fossas ou lançada nas águas que banham a cidade.
Renan chegou àquela casa depois de uma viagem em um barco de linha que dura entre 12 e 14 horas, da capital Belém a Breves, no Marajó, com alguns camarotes com camas a R$ 330 e espaço para rede por R$ 130 (o passageiro deve levar a sua). O barco deixou Belém no fim da tarde, mas precisou voltar devido a problemas mecânicos. Partiu novamente por volta das 22h e chegou a Breves perto do meio-dia.
De lá, a equipe seguiu de lancha por 40 minutos até Melgaço. Na cidade, Renan e seus auxiliares usaram mototáxis para alcançar a área de palafitas onde vive Cilene. Devido ao atraso na noite anterior, a equipe passou menos de três horas em Melgaço.
A passagem pelo Marajó, porém, não era uma visita isolada. Segundo sua equipe, ele já percorreu 97 municípios em sete estados desde o fim do ano passado, numa tentativa de conhecer e exibir regiões mais afastadas das capitais.
Em meados de junho, a Folha acompanhou Renan, 42, por dois dias no Pará. Ele alternava a fala de candidato com a de produtor do próprio conteúdo: interrompia conversas para repetir uma pergunta, testava frases para a câmera e discutia, com a equipe, como transformar cada encontro em vídeo. O contato direto era apenas a primeira etapa do material que depois circularia em suas redes sociais.
A comitiva que seguiu ao Marajó tinha dez pessoas, entre produção, comunicação e segurança. Antes da viagem, integrantes do grupo pesquisaram a rota, procuraram personagens e articularam a agenda local. Também acionavam perfis de notícia e influenciadores regionais, em lugares onde o noticiário muitas vezes circula mais por influenciadores locais do que por veículos tradicionais.
A equipe estima que uma semana de agenda do grupo completo custe de R$ 25 mil a R$ 30 mil, com deslocamentos, hospedagem, produção e imprevistos. No Pará, onde Renan passou uma semana, o gasto teria ficado perto de R$ 30 mil, segundo auxiliares, considerando locação de carro, pneus furados, voos perdidos e cancelamentos.
No barco, antes de chegar a Melgaço, Renan descreveu a lógica da pré-campanha. “Eu era, no começo, pequeno demais pra me darem cobertura nacional, mas eu era grande demais, como pré-candidato a presidente, para passar em cidades pequenas”, disse. A partir daí, decidiu usar problemas locais como porta de entrada para falar de política nacional.
Ele afirma que procura municípios onde possa contrastar o peso político de grupos regionais com as condições de vida da população. No Maranhão, citou a intenção de mostrar políticos que, segundo ele, têm influência em Brasília, mas administram cidades que permanecem pobres.
“Não só porque era esperto fazer isso, mas porque isso se adapta ao nosso projeto”, disse. A fórmula mistura denúncia local, ataque a adversários e promessa de solução.
A estratégia tem um precedente conhecido na política brasileira: as Caravanas da Cidadania de Luiz Inácio Lula da Silva. Em abril de 1993, o então candidato iniciou uma série de viagens organizadas pelo Instituto da Cidadania. A primeira percorreu 4.500 quilômetros em 20 dias, por sete estados e 68 cidades.
Até as eleições de 1994 foram sete caravanas, que chegaram a 359 cidades e percorreram cerca de 80 mil quilômetros. Lula priorizava conversas com moradores, produtores, trabalhadores e lideranças locais, fazendo perguntas sobre os problemas de cada lugar.
Falando do atual presidente, em um vídeo publicado depois da visita, Renan apresentou a casa de Cilene como “o mundo por trás da propaganda do PT”. Em outro, usou a água do rio, a diarreia e a verminose relatadas pela mãe para falar de saneamento. Num terceiro, transformou a gravidez de uma filha adolescente em discurso sobre planejamento familiar, educação sexual e ausência paterna.
A filha, de 16 anos, está grávida e deixou a escola. A adolescente disse que o pai da criança era um homem de 28 anos e ciumento. Cilene afirmou que dois dos filhos têm emprego formal e moram fora de casa. Outro está preso por esfaquear um tio.
Horas depois de filmar a casa de Cilene, Renan foi à Eco-Fazenda Escola Patú Anú, iniciativa privada ligada aos produtos Awi Superfoods. O lugar reúne sistemas agroflorestais, viveiros, criação de animais, biodigestor e atividades de formação de produtores.
No vídeo, o pré-candidato mostrou cacau, café, compostagem e geração de gás. Disse que a fazenda demonstrava que o Marajó poderia ser “muito mais do que pobreza” e defendeu investimento, tecnologia e qualificação profissional como caminho para a região.
Renan descreve esse contraste como uma tentativa de mostrar tanto os problemas quanto as experiências positivas. Mas os dois lados funcionam como capítulos de uma mesma história. A casa de palafita serve à crítica ao PT, à assistência social e ao poder local. A fazenda em Breves serve à defesa de investimento privado, tecnologia e qualificação.
No Instagram, onde o perfil de Renan reúne cerca de 1,8 milhão de seguidores, a estratégia aparece organizada por estados brasileiros ou temas, como educação. O pré-candidato publica vídeos de viagens, cidades pequenas, ruas degradadas, obras, rios, lavouras e conversas com moradores. Os posts convivem com ataques políticos, temas de segurança pública e vídeos de confronto com adversários.
Entre exemplos, um vídeo sobre uma cidade do Maranhão que Renan chamou de “a mais rica” do estado tinha 112 mil curtidas. Outro, filmado em uma rua maranhense, tinha 91 mil. Um reel sobre uma proposta para cidades do Rio Grande do Norte apareceu com 65 mil. Os números não medem toda a operação, mas ajudam a mostrar que as viagens são desenhadas para ter alcance fora do município visitado.
Renan disse que vê nesse formato uma maneira de falar com eleitores que não o conheciam. Relatou que, depois de circular pelo interior, cresceu em pesquisas locais e nas redes. As afirmações ainda precisam ser lidas com cautela: são parte do discurso de uma campanha que tenta provar, ao mesmo tempo, que está crescendo e que encontrou um caminho próprio.
Ele surgiu como um dos fundadores do MBL (Movimento Brasil Livre), grupo de direita que ganhou projeção nas manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff. Hoje preside o partido Missão, legenda criada para dar ao movimento uma estrutura eleitoral própria.
Em pesquisa Datafolha divulgada em 20 de junho, Renan aparecia com 3% das intenções de voto em cenário de primeiro turno. Nos últimos dias, anunciou o tenente-coronel da reserva Aroldo Medina como vice. A formalização da chapa ainda depende das convenções partidárias.
A candidatura tenta ocupar um espaço à direita sem se confundir com o bolsonarismo. No Marajó, essa tentativa ganhou forma concreta. Renan chegou como um raro presidenciável para os moradores de uma casa de palafita, mas também como alguém que já sabia o que procurava: uma história capaz de funcionar diante da câmera.
Folha de São Paulo



