Economia

A nova aposta bilionária da Huawei passa pela energia e pelo Brasil

(Bloomberg) — Cercado pelas águas azul-turquesa do Atlântico e pontilhado por figueiras nativas, o arquipélago de Fernando de Noronha é um dos destinos turísticos mais cobiçados do Brasil. Lar de cerca de 3 mil moradores, recebe aproximadamente 40 vezes esse número de visitantes por ano, o que impõe forte pressão sobre uma rede elétrica isolada, mantida em grande parte por carregamentos de diesel trazidos por barco.

Essa pressão deve começar a aliviar ainda neste ano, com a instalação de um dos maiores projetos de armazenamento de energia da América Latina. Entre os fornecedores de equipamentos está a Huawei Technologies Co.

Mais conhecida por seus smartphones e por sua infraestrutura de telecomunicações 5G, a gigante de Shenzhen vem, nos últimos anos, se posicionando silenciosamente como parte da espinha dorsal da transição energética global.

Seu braço de energia limpa, a Huawei Digital Power Technology Co., oferece de tudo: de sistemas de armazenamento em baterias e inversores solares a serviços de recarga para carros elétricos. Com os EUA e a Europa se tornando mais hostis, mercados emergentes como o Brasil ganham cada vez mais importância para esse negócio.

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Com vendas superiores a US$ 11 bilhões no ano passado, a Huawei Digital Power ainda representa uma fatia relativamente pequena da receita total da controladora, que somou US$ 126 bilhões. Ainda assim, em escala, ela já se aproxima da divisão de energia da Tesla e da Sungrow Power Supply Co., líder chinesa em equipamentos para renováveis, ambas com vendas de cerca de US$ 13 bilhões em 2025.

A unidade também é uma importante fonte de diversificação e crescimento. Desde que os EUA impuseram sanções abrangentes à empresa, em 2019, os roteadores e estações-base mais avançados da Huawei passaram a ser efetivamente barrados em boa parte do Ocidente, enquanto seu negócio de smartphones — que já chegou a superar Samsung e Apple em embarques globais — saiu do top 5 mundial. No ano passado, a receita total da Huawei avançou apenas 2%, o ritmo mais lento em três anos, enquanto a Huawei Digital Power cresceu a uma taxa de dois dígitos.

A Huawei também vem estudando outras formas de monetizar esse negócio. Segundo pessoas familiarizadas com o assunto, houve recentemente uma tentativa de vender a unidade para a Contemporary Amperex Technology Co. Ltd. (CATL), que fracassou por divergências de valuation. A Huawei buscava ao menos 200 bilhões de yuans (US$ 29,5 bilhões), enquanto a CATL, maior fabricante de baterias do mundo, avaliava a operação mais perto de 150 bilhões de yuans, segundo uma das fontes.

Um porta-voz da CATL afirmou que a companhia não tem intenção de adquirir o negócio e que não discutiu uma aquisição. A Huawei não respondeu aos pedidos de comentário.

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A “expansão para energia limpa e setores correlatos é uma guinada cuja escala e urgência foram fortemente aceleradas pelas sanções americanas”, disse William Kirby, professor de Harvard que estuda empresas chinesas e é coautor do estudo de caso de 2024 Huawei: Resilience amid Autarky and Adversity. Com trilhões de dólares fluindo todos os anos para a transição energética global, ele disse, “isso faz muito sentido do ponto de vista estratégico”.

Os países gastaram US$ 2,3 trilhões em tecnologias limpas de todos os tipos no ano passado, mais que o dobro do nível de 2020, segundo a BloombergNEF. E isso representa apenas metade do que será necessário anualmente até o fim da década.

“Há uma enorme oportunidade de negócios”, disse Margaret Jackson, senior associate do Center for Strategic and International Studies.

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As empresas chinesas são, de longe, as principais fornecedoras dos equipamentos necessários para gerar e armazenar energia solar e eólica. E a expansão da Huawei em energia limpa vem sendo construída há anos. A companhia acumula patentes no setor ao menos desde 2010, quando registrou uma para um sistema de controle que otimiza a produção de energia de painéis solares. No ano seguinte, Pequim lançou suas primeiras grandes políticas de apoio à energia solar doméstica, abrindo caminho para uma demanda explosiva por instalações no país.

“2010 foi o momento perfeito para a Huawei entrar no mercado solar chinês”, disse Timothy Shen, analista sênior da consultoria Wood Mackenzie. Desde então, a companhia adicionou mais 2 mil patentes.

O sucesso da Huawei Digital Power está ligado ao seu produto de ruptura, lançado em 2013: o inversor string. O dispositivo, instalado na ponta de uma fileira de painéis solares e responsável por converter a energia do sol em eletricidade utilizável pela rede, ganhou rapidamente espaço no setor. Antes de sua popularização a baixo custo, os desenvolvedores dependiam dos inversores centrais, que conectavam várias fileiras ao mesmo tempo, com menor eficiência e manutenção mais difícil. Em 2015, a Huawei ultrapassou a alemã SMA Solar Technology AG e se tornou a maior fabricante de inversores solares do mundo — posição que mantém desde então.

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A Huawei Digital Power foi separada como subsidiária integral em 2021. Desde então, ajudou a implantar uma microrrede na Arábia Saudita para abastecer uma zona turística centenas de vezes maior que Manhattan; forneceu baterias gigantes a centros médicos no Peru, que sofriam com apagões; e instalou infraestrutura de recarga para veículos elétricos aos pés do Monte Everest.

Embora a Huawei Digital Power seja um ponto forte do grupo, seu ritmo vem sofrendo pressão por causa do persistente excesso de oferta global. Com a concorrência comprimindo margens, a companhia estava disposta a vender a unidade de energia para gerar liquidez e apoiar seu negócio principal, segundo uma pessoa a par da situação.

A unidade também enfrenta alguns dos mesmos ventos políticos contrários que prejudicaram o negócio de 5G da Huawei.

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A Huawei deixou o mercado americano de inversores em 2019, depois que parlamentares dos EUA levantaram preocupações de segurança nacional e pediram seu banimento. Neste ano, a Comissão Europeia introduziu novas restrições de financiamento para projetos de energia renovável apoiados pelo bloco que usem inversores de “fornecedores de alto risco”, incluindo a Huawei. Em uma coletiva em maio, parlamentares europeus citaram riscos cibernéticos como uma preocupação central.

Embora a política ainda esteja em desenvolvimento e provavelmente atinja todos os fornecedores chineses, a Huawei será “fortemente afetada por causa de sua relevância no mercado”, disse Lauri Myllyvirta, analista-chefe do Centre for Research on Energy and Clean Air.

No Brasil, a presença da Huawei ainda é modesta, mas está crescendo, com o mercado latino-americano de armazenamento de energia projetado para avançar 8% ao ano até 2034, segundo a Wood Mackenzie.

A companhia fechou contratos de armazenamento em baterias capazes de abastecer cerca de 90 mil residências por dia e forneceu mais inversores solares no país do que qualquer concorrente, segundo Roberto Valer, diretor de tecnologia da Huawei Digital Power Brasil. Ela também começou a vender hardware para estações de recarga, buscando capturar uma fatia do mercado brasileiro de veículos elétricos.

A Huawei também estuda construir uma fábrica no Brasil, disse Valer em entrevista recente à Bloomberg News, sem dar mais detalhes. Embora o alto custo da manufatura local seja um obstáculo, a companhia vê o país como um anfitrião receptivo.

Segundo Valer, a empresa não está preocupada com riscos geopolíticos no país sul-americano: “Não temos problema algum aqui no Brasil.”

© 2026 Bloomberg L.P.

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