Emendas do Republicanos para Cunha foram para 29 cidades de Minas; só três são geridas pelo partido

O ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (Republicanos) destinou emendas parlamentares a 29 municípios de Minas Gerais, segundo investigação da PF (Polícia Federal). As verbas foram em nome da liderança do Republicanos na Câmara, mas apenas três municípios governados pelo partido foram contemplados.
O ex-parlamentar afirmou à Folha que o critério para distribuição não foi o partido que administra a cidade, mas o pedido de políticos locais –como vereadores e pré-candidatos a deputado–, e que precisou substituir algumas cidades por divergências entre o prefeito e o seu aliado que pediu a verba.
“Onde deu problema, por exemplo, a prefeita era de oposição a quem estava fazendo o contato e não queria repassar o dinheiro, aí se tirou de lá. Porque era para um hospital, a prefeitura tinha que repassar o dinheiro. Cada um tem uma situação”, disse. “Não é questão de ser cidade que o Republicanos administra.”
O ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Flávio Dino determinou na segunda-feira (6) o bloqueio de R$ 6,1 milhões em bens de Cunha, mesmo valor que a PF afirma terem sido repassados por ele a prefeituras por meio de emendas parlamentares de comissão, mesmo sem ele ter um mandato eletivo no Congresso Nacional.
“O conjunto de elementos já permite concluir que Eduardo Cunha opera como agente privado com poderes políticos equivalentes ou até superiores aos de parlamentares em exercício, interferindo no direcionamento de recursos federais sem qualquer autorização institucional”, disse Dino na decisão.
O ex-presidente da Câmara respondeu que o dinheiro foi repassado para os municípios e que a Polícia Federal “se tornou uma polícia política e tenta interferir na eleição”. “Estão querendo criminalizar o diálogo político partidário”, disse em entrevistas.
O dinheiro foi intermediado por Cunha com a intenção de angariar apoio político para se eleger novamente deputado federal, após ter o mandato cassado em 2016 por mentir sobre a ocultação de recursos no exterior durante uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito), em meio a denúncias de desvios investigadas pela operação Lava Jato.
Os mandatos eleitorais de Cunha foram obtidos pelo Rio de Janeiro, onde sua filha (Dani Cunha) atualmente é deputada federal.
Para não rivalizar com os votos dela, o ex-presidente da Câmara mudou seu domicílio eleitoral para Minas Gerais nesta eleição, comprou rádios e patrocinou eventos em busca de ser eleito deputado federal pelo estado. Para isso, conta com dobradinhas com outros pré-candidatos a deputado estadual e parcerias com lideranças municipais.
O dinheiro foi repassado pela liderança do Republicanos em 2025, numa modalidade de emenda parlamentar que não permite saber o real autor do pedido de encaminhamento da verba, a chamada emenda de comissão. A assinatura da emenda pelo líder partidário foi autorizada por Dino e pelo STF ano passado em um acordo com o Congresso.
Cunha encaminhou recursos para a área da saúde de 29 municípios de Minas Gerais por meio da liderança do Republicanos, partido ao qual se filiou há dois anos e que, em 2025, era liderado na Câmara por um deputado mineiro, Gilberto Abramo.
Apenas três dessas cidades são administradas pelo Republicanos: Cambuquira, Guarani e Novo Oriente de Minas. A primeira recebeu R$ 100 mil, enquanto as outras duas ficaram com R$ 250 mil cada para a área da saúde.
Os demais municípios têm prefeitos de partidos como Avante, MDB, PP, PSD e União Brasil, mas até um município administrado pelo PT foi contemplado com recursos. Matias Cardoso, com 8,8 mil habitantes, tem como prefeita Maria de Lourdes Rodrigues, a Pretinha de Merson (PT), que faz campanha pela reeleição do presidente Lula (PT).
Os municípios que o ex-presidente da Câmara direcionou recursos são de várias regiões do estado. O maior deles é Três Corações, com 75,5 mil habitantes, que recebeu R$ 150 mil e é administrado pelo PSDB. O que mais recebeu verbas de Cunha, de acordo com a lista da PF, é Varjão de Minas, comandada pelo PL, com R$ 590 mil em emendas em 2025.
Antes mesmo da investigação da PF, Cunha já tinha admitido a intermediação de emendas parlamentares para municípios mineiros e destacado o repasse em suas redes sociais, com vídeos de agradecimento do prefeito. Em janeiro, a Folha publicou reportagem mostrando que ele enviou R$ 1 milhão para João Pinheiro, no noroeste de Minas Gerais.
O recurso foi assinado por Gilberto Abramo –segundo Cunha disse na época, como uma “gentileza”. O solicitante da verba foi um vereador.
Folha de São Paulo



