Política

Tarifas, atritos familiares e intrigas: as turbulências que ameaçam a pré-campanha de Flávio

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A escolha de Flávio Bolsonaro como candidato da direita à Presidência da República foi, desde o primeiro dia, marcada pela desconfiança. Pesquisas internas do PL apontavam que havia nomes mais competitivos, como o da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e do governador Tarcísio de Freitas. Havia dúvidas sobre a capacidade do senador de consolidar alianças e muito se especulava sobre esqueletos do passado que poderiam emergir e comprometer o projeto da oposição. As preocupações procediam. Nos últimos meses, o filho mais velho do ex-­presidente Jair Bolsonaro foi atingido por uma avalanche de notícias ruins. O revés mais recente foi imposto pelo governo de Donald Trump. Na quarta-feira 15, o republicano decidiu aumentar as tarifas de importação de uma lista de produtos fabricados no Brasil. A medida vai atingir setores importantes da economia e será tratada com barulho na esfera política. O governo Lula apontou a família Bolsonaro como um dos artífices de uma chantagem para livrar o pai da cadeia que, malsucedida, acabou por penalizar a indústria nacional. Esse não foi o único contratempo da semana.

Na segunda-feira 13, o ministro Alexandre de Moraes proibiu o senador de visitar ou manter qualquer tipo de contato com Jair Bolsonaro. Dois dias antes, Flávio havia se reunido com o pai e, na sequência, postou um vídeo em que leu uma carta com algumas instruções escritas pelo ex-presidente. No documento, intitulado Carta aos Brasileiros e descrito pelo pré-candidato como “um recado muito importante que ele (Bolsonaro) quer dar a toda a nossa nação”, o capitão pediu o fim das cizânias entre aliados e afirmou que o filho, além de seu “porta-voz”, é “a melhor opção para livrarmos o Brasil da corrupção, da violência e do empobrecimento”. O que era para ser a solução para alguns dos problemas da campanha do senador, porém, acabou se transformando rapidamente em uma nova crise. No início mês, Michelle Bolsonaro havia criticado duramente o enteado, o que pôs em xeque a solidez da candidatura do senador e gerou especulações em relação às reais intenções da ex-primeira-dama, que continuava sendo lembrada por aliados como uma opção para a disputa presidencial. A carta de Jair Bolsonaro era uma tentativa de colocar um ponto-final nos rumores.

CONFUSÃO - O ex-presidente: ele foi proibido de falar com o filho depois que sua carta foi divulgada nas redes
CONFUSÃO - O ex-presidente: ele foi proibido de falar com o filho depois que sua carta foi divulgada nas redes (Luis Nova/AP/Imageplus)

Cumprindo pena em regime domiciliar, o ex-presidente não pode usar redes sociais nem se comunicar com o mundo exterior, mesmo que através de outra pessoa. Para Alexandre de Moraes, ao anunciar que o pai tinha um “recado muito importante”, Flávio sugeriu que a divulgação da carta tinha o aval do ex-­presidente, o que violaria as regras e justificava a proibição das visitas ao pai. O ex-presidente garantiu que não sabia que o texto seria divulgado. O magistrado ainda considera a possibilidade de revogar a prisão domiciliar, o que seria a fagulha para reacender os embates em família. Pessoas próximas à Michelle disseram a VEJA que ela chegou a aventar a hipótese de o enteado ter planejado martirizar o pai em prol de sua campanha. “Alexandre de Moraes quer interferir nas eleições. Quer, obviamente, que eu não seja candidato. Ele sabe da força que meu pai ainda tem, sabe da importância de uma manifestação dele a meu favor e quer impedir que isso aconteça”, disse o Zero Um.

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A desavença no clã é um tópico do rol de obstáculos que o candidato do PL terá que superar a partir de agosto, quando começa oficialmente a campanha eleitoral (veja o quadro). Flávio aguarda os desdobramentos das investigações sobre o destino do dinheiro repassado pelo Banco Master para, a seu pedido, financiar uma cinebiografia do pai.

DESCONFIANÇA - Caiado: fissuras no campo da direita podem comprometer futuras alianças
DESCONFIANÇA - Caiado: fissuras no campo da direita podem comprometer futuras alianças (Luiz Rodrigues/AtoPress/Folhapress/.)

As repercussões políticas e econômicas do tarifaço imposto ao Brasil ainda são imprevisíveis, mas a condenação do ex-deputado Eduardo Bolsonaro a quatro anos de prisão por usar o caso para pressionar o Judiciário brasileiro já fornece, por si só, munição pesada aos adversários. Outro problema para o Zero Um é a falta de união do campo da direita. “Você não pode recorrer, a cada crise, a uma carta de seu pai. Você tem que ter estrutura política, estabilidade emocional e capacidade de superar as crises que amanhã venham a acontecer”, alfinetou o ex-governador Ronaldo Caiado, candidato do PSD à Presidência. Flávio ainda não conquistou o apoio formal dos maiores partidos de centro. Além de tudo isso, ainda vê ruir suas bases políticas em seu estado natal, o Rio de Janeiro, minadas por sucessivas operações da Polícia Federal (leia a reportagem na pág. 40).

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DESAVENÇAS - Michelle: críticas ao enteado também nos bastidores
DESAVENÇAS - Michelle: críticas ao enteado também nos bastidores (Beto Barata/PL/.)

Os coordenadores da pré-campanha do PL invocam as pesquisas para relativizar os danos causados pelos reveses que atingiram o projeto presidencial. No último levantamento da Quaest, divulgado na quarta-feira 15, Flávio se mantinha com 28% das intenções de voto no primeiro turno, 2 pontos percentuais a menos do que tinha em fevereiro, em cenário de estabilidade em relação a junho, e 12 atrás do atual presidente da República. “Esses percalços prejudicam, mas não se refletiram em queda abrupta nas pesquisas nem em ganhos para os adversários”, ressalta Fernando Guarnieri, professor de ciência política da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É uma boa notícia para o oposicionista. Ainda que as chuvas e trovoadas não tenham por ora afetado de forma significativa a intenção de voto em Flávio, as pesquisas também mostram que a necessidade de ficar o tempo todo tendo de se explicar favoreceu Lula, que reduziu de 58% para 45% a desaprovação que tinha entre os independentes, fatia crucial do eleitorado que pode definir a vitória para qualquer um dos lados.

Infográfico com três gráficos de pesquisa eleitoral. O primeiro mostra Lula com 40% e Flávio Bolsonaro com 28% no primeiro turno. O segundo gráfico de linha exibe a intenção de voto de Flávio Bolsonaro, caindo de 30% em fevereiro para 28% em julho. O terceiro gráfico de linha compara a rejeição de Lula (50% em julho) e Flávio Bolsonaro (57% em julho)

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Às vésperas da convenção partidária que vai formalizar a candidatura de Flávio Bolsonaro, a equipe orientou o senador a intensificar as críticas ao governo petista e a se apresentar como vítima de perseguição do Supremo. Não que o discurso necessariamente se materialize em votos para não convertidos, mas serve para inflamar a militância e mantém as redes sociais mobilizadas. “Existe um bolsonarismo mais hardcore, com identificação forte com a família e principalmente com o ex-presidente, que, por razões ideológicas, não vai mudar sua preferência eleitoral em razão desses problemas, porque ele atribui isso tudo à manipulação da imprensa, do STF, da Polícia Federal, de quem for”, diz Fabio Vasconcellos, também cientista político da UERJ. Em fevereiro, quando iniciou a pré-campanha, 52% dos eleitores declararam que jamais votariam no filho mais velho de Jair Bolsonaro. Esse número saltou para 57%, movimento acima da margem de erro. O mesmo aconteceu em relação a Lula, só que em sentido inverso. O petista era rejeitado por 55% dos entrevistados. Agora são 50%.

SOBERANIA - Eduardo e Marco Rubio: críticas pelos encontros e pelas relações com autoridades americanas
SOBERANIA - Eduardo e Marco Rubio: críticas pelos encontros e pelas relações com autoridades americanas (@BolsonaroSP/X)

Em julho de 2022, com três anos e sete meses de mandato, o então presidente Jair Bolsonaro tinha 29% das intenções de voto, praticamente o mesmo patamar que Flávio registra hoje, a três meses da eleição. Nas simulações de segundo turno, o então presidente perdia por uma diferença de 10 pontos. Como se sabe, o capitão abriu os cofres públicos, anunciou repasses a caminhoneiros e taxistas, reduziu tributos, aumentou os valores do Bolsa Família, chegou ao segundo turno em situação de empate técnico, mas acabou perdendo a disputa para Lula por uma diferença de 1,8 ponto percentual dos votos válidos. Flávio também largaria hoje em segundo lugar, com uma desvantagem menor, de 8 pontos. Mas, ao contrário do pai, não poderá contar com a poderosa máquina pública, que agora opera com força total a favor de seu adversário.

Publicado em VEJA de 17 de julho de 2026, edição nº 3004

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