Saúde

A lição de Eric Clapton sobre ajudar outro adicto em recuperação

Outro dia vi Eric Clapton, adicto em recuperação, dizendo que o que mais lhe dá prazer é ajudar outro adicto em recuperação. Quando entrei no AA e vi pessoas que estavam lá após 20, 30 anos, fiquei intrigada. Passado tanto tempo, elas ainda precisavam estar ali, em uma sala de recuperação?

É isso. Além de se ajudarem, lembrando seus próprios tempos de bebedeira, estavam ali para incentivar quem chegava. Eu demorei a entender. Achava que, depois de tantos anos sem beber, a pessoa já poderia cuidar de outras coisas. Como se estar naquela sala fosse perder tempo e não uma maneira de cuidar da própria vida.

No começo, eu queria saber quando estaria pronta. Quando poderia olhar para a bebida sem precisar pensar no estrago que ela tinha feito. Talvez ainda estivesse atrás de uma data para receber um hipotético diploma de conclusão. Pronto, acabou, já aprendi. Mas, ouvindo aquelas pessoas, comecei a perceber que não era bem assim.

Elas tinham trabalho, família, problemas, alegrias. A vida continuava fora dali. E, mesmo assim, as pessoas voltavam. Sentavam, ouviam, contavam alguma coisa. Às vezes, o que diziam era justamente o que eu precisava escutar naquele dia. E elas nem sabiam.

Quem chega nem sempre consegue explicar o que está sentindo. Eu mesma tinha medo, vergonha e uma dificuldade enorme de admitir que precisava de ajuda. Já tinha tentado resolver do meu jeito. E o meu jeito sempre acabava me levando de volta para o mesmo lugar. Ainda assim, custava a aceitar que alguém pudesse me mostrar outro caminho.

Ver uma pessoa sem beber havia tantos anos me dava uma esperança que eu não conseguia ter sozinha. Se ela tinha conseguido, talvez eu também pudesse. Não precisava pensar como eu estaria em 20 anos. Precisava atravessar aquele dia. Parece pouco para quem está de fora, mas, para quem já organizou a vida em torno da bebida, é muita coisa.

Aos poucos, fui entendendo também o prazer de que Clapton falava. Não é preciso ter uma resposta para tudo, nem fazer um grande discurso. Às vezes, basta ouvir sem interromper. Oferecer um café. Dizer para a pessoa voltar. Lembrar como foi difícil entrar naquela sala pela primeira vez e não agir como se agora a gente soubesse de tudo.

Porque com o tempo a memória pode ficar conveniente. A gente lembra do bar, dos amigos, da conversa animada. O resto vai ficando meio apagado. Estar ali, ouvindo alguém que acabou de chegar, também me ajuda a lembrar por que eu precisei parar. Reconheço nas palavras do outro coisas que eu mesma dizia.

Não gosto de pensar que o sofrimento foi necessário. Eu preferia não ter passado por muita coisa. Mas, se a minha experiência puder ajudar alguém a se sentir menos sozinho, já existe alguma utilidade no que consigo contar. Não preciso enfeitar a história, nem esconder as partes das quais tenho vergonha até agora.

Hoje, quando vejo alguém com 20, 30 anos de recuperação, já não fico me fazendo aquela pergunta. Fico contente que a pessoa tenha voltado. Foi alguém assim que encontrou tempo para me ouvir quando eu mais precisava. E quero poder fazer isso também. Sentar ao lado de quem chega, ouvir sua história e dizer, com a simplicidade que um dia fez diferença para mim: pode ficar.


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Informação

Folha de São Paulo

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