Barter ganha espaço no campo como ferramenta para planejar custos

Juros altos, crédito mais seletivo, oscilações nos preços das commodities e incertezas climáticas têm levado o agricultor a olhar além da produtividade na hora de planejar a safra. O cenário também muda a forma de financiar a atividade no campo. Nos meses de julho e agosto, as Cédulas de Produto Rural (CPRs) responderam por 49,2% dos recursos contratados pelos produtores, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAP), superando o crédito de custeio tradicional.
Mas não basta garantir recursos de financiamento para colocar a safra de pé. Em um mercado volátil, os produtores procuram formas de reduzir a exposição às oscilações de preços e dar mais previsibilidade aos custos com a lavoura. É nesse terreno que o barter avança. A ferramenta permite antecipar gastos e travar a relação de troca entre os insumos e os grãos a serem entregues na colheita.
Na Corteva Agriscience, o volume de produtos negociados por meio da modalidade ultrapassou 1 bilhão de dólares em 2025, alta de 80% em relação ao ano anterior. No mesmo período, o total de clientes que optaram por trocar parte da safra futura pelos insumos cresceu 60%.
“Nos últimos três anos, 65% dos que fizeram operações voltaram a utilizar o barter, um sinal do mercado de que ele tem sido satisfatória, gerando confiança e rentabilidade”, afirma o diretor de Barter da Corteva no Brasil, Fernando Borba.
Durante o GAFFFF – Global Agribusiness Festival, evento do agronegócio realizado em São Paulo, a empresa afirmou que mais de 40% das vendas foram realizadas pela plataforma entre janeiro e setembro deste ano.
Proteção contra oscilações
Na Corteva, além de uma alternativa para financiar a compra de sementes, defensivos e outros insumos, o barter é tratado como ferramenta de planejamento e gestão de risco. A proposta é travar o custo e reduzir os efeitos do descasamento de moeda diante de um cenário instável.
Para Borba, o agricultor tem se mostrado mais aberto a esse tipo de solução. “Às vezes ele tem uma boa produtividade, utiliza ótimas tecnologias, mas se perde em uma comercialização ou compra malfeita”, exemplifica.
A companhia não compra fisicamente a commodity do produtor. A Corteva trabalha em parceria com tradings, que participam da venda dos grãos, enquanto sua mesa de comercialização estrutura fluxos de hedge com derivativos para proteger o preço da produção. O cliente entrega parte da safra como forma de pagamento pelos insumos e a transação busca dar previsibilidade à relação de troca, reduzindo a exposição às oscilações do mercado.
Segundo Borba, a mesa acompanha as posições ao longo do processo – da contratação do derivativo até a liquidação – e informa os agricultores do resultado diário de cada transação. A estrutura considera o perfil de cada agricultor e customiza as operações.
Historicamente associado à soja e ao algodão, o barter vem avançando para outras cadeias do agronegócio. A expansão do milho destinado à indústria de etanol, por exemplo, aumentou a liquidez e abriu espaço para novas demandas. A Corteva também mantém contratos com produtores de amendoim, arroz, feijão, cana-de-açúcar e outras commodities.
O Cerrado, considerado berço do barter no país, continua sendo uma das principais regiões de utilização, com Mato Grosso como um dos setores mais consolidados, seguido por Goiás e Mato Grosso do Sul. A prática também avançou no Matopiba, região formada por áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e da Bahia.
Em outras regiões, a solução começa a entrar na rotina de financiamento da safra. É o caso do Rio Grande do Sul, estado onde cerca de 50% das vendas da Corteva são feitas por meio da modalidade.
O perfil dos usuários também é amplo. Embora grandes agricultores participem das atividades, os médios representam a maior parcela dos clientes da companhia que utilizam o barter, segundo o executivo.
Globo Rural



