Calma espanhola e caos argentino se chocam na decisão da Copa do Mundo

Termina neste domingo (19) a maior Copa do Mundo da história, a primeira com 48 seleções e sedes em três países. Após 103 partidas distribuídas entre Estados Unidos, México e Canadá, a disputa se resume à 104ª, marcada para o território americano, em East Rutherford, nos arredores de Nova York.
Os finalistas chegaram ao confronto derradeiro por caminhos bem distintos. A Espanha, baseada em um jogo metódico, de troca de passes, foi deixando para trás os rivais em um ritmo cadenciado, de enorme segurança defensiva. A Argentina, por sua vez, triunfou no caos, com duas viradas no finalzinho e duas vitórias na prorrogação.
“É mesmo incrível tudo o que este grupo vem fazendo”, afirmou o técnico da formação alviceleste, Lionel Scaloni, após o 2 a 1 sobre a Inglaterra nas semifinais, definido com um gol aos 40 e um aos 47 minutos do segundo tempo. “Foi mais uma amostra de caráter, de força da coletividade e de futebol. Claro, jogamos muito futebol.”
A observação final tem razão de ser. Atual campeã, a equipe argentina não voltou à decisão apenas na raça, embora tenha mostrado bastante. O treinador montou um esquema para tirar o máximo do craque Lionel Messi, de 39 anos, e vem obtendo resultados que jamais haviam sido alcançados com um atleta dessa idade.
Sem a bola, o veterano fica solto, livre de responsabilidades defensivas. Quando seu time tem a posse, ele também tem liberdade de buscar o espaço que lhe convém –com frequência, recuado, quase como um segundo volante. Cabe aos demais jogadores reagir aos movimentos do camisa 10 para que haja equilíbrio em campo e também opções de passe.
É uma espécie de caos organizado, mas a Argentina vai bem também no caos puro. No desespero, Scaloni fez substituições do tipo “sai zagueiro, entra atacante”, e deu certo. Também deu certo, sobretudo contra a Inglaterra, uma estratégia comum no futebol de clubes da América do Sul, de confronto físico e provocações.
“Cada um vai usar suas armas, mas são armas futebolísticas. Isto é uma partida de futebol”, afirmou o comandante da Espanha, Luis de la Fuente, que foi instrutor de Scaloni em um curso de treinadores, em 2017. “Vai vencer quem dominar a situação, minimizando as virtudes do rival e afirmando suas fortalezas. Seremos sempre fiéis ao nosso estilo.”
Esse estilo é de posse de bola, com passes sem pressa que vão minando a resistência do adversário. O jogo passa quase sempre pelos pés do volante Rodri, eleito melhor do mundo na temporada 2023/24, que se recuperou de uma lesão grave no joelho direito e voltou a apresentar um nível alto na América do Norte.
A formação europeia iniciou a Copa com dificuldade, em um empate por 0 a 0 com Cabo Verde que ofereceu ao mundo o personagem Vozinha, e desde então venceu todas as suas partidas. Os comandados de De la Fuente mostraram grande solidez defensiva, com apenas um gol sofrido em toda a campanha.
O time vem de uma convincente vitória por 2 a 0 sobre a França, que era apontada como favorita por boa parte da crítica. O potente ataque francês terminou o Mundial com 20 gols, com média de 2,85 bolas na rede em sete dos oito jogos. No outro, Mbappé, Dembélé e Olise passaram em branco.
Quem também tem passado em branco é o talentoso atacante espanhol Lamine Yamal, que chegou aos Estados Unidos com problemas físicos e marcou somente uma vez no Mundial —ainda que tenha dado sua contribuição. A diferença entre o título e o vice-campeonato pode estar no jogador de 19 anos, que vai rever um velho conhecido.
Em um dos mais inacreditáveis episódios da história da competição, um atleta duelará pela taça com uma pessoa em que deu banho. Posando para fotografia publicitária em 2007, Messi, então com 20 anos, teve nas mãos o bebê Lamine, seu adversário neste domingo. Até aqui, no Mundial, o veterano tem tido desempenho melhor, com oito gols e quatro assistências.
Contabilizados 103 jogos, a Espanha tem o grande time da Copa; a Argentina, o grande jogador. Tudo poderá mudar no 104º.
Ficha técnica
ESPANHA X ARGENTINA (Copa do Mundo – final)
Data: 19 de julho de 2026 (terça-feira), às 16h
Local: MetLife Stadium, em East Rutherford (EUA)
Transmissão: Globo, SBT, Ge TV (Globoplay), SporTV, CazéTV e NSports
Árbitro: Slavko Vincic (ESL)
Assistentes: Tomaz Klancnik (ESL) e Andraz Kovacic (ESL)
Espanha
Simón; Porro, Cubarsí, Laporte e Cucurella; Rodri, Ruiz e Olmo; Yamal, Oyarzabal e Baena
Técnico: Luis de la Fuente
Argentina
Dibu Martínez; Molina, Romero, Lisandro Martínez e Tagliafico; Paredes, Enzo Fernández e Mac Allister;
Simeone, Messi e Julián Alvarez
Técnico: Lionel Scaloni
Esporte / Folha de São Paulo



