Tarifas dos EUA em vigor desde 2025 impactam 20 estados brasileiros

A sobretaxa de 25% sobre as importações brasileiras, anunciada na madrugada de quarta-feira (15/7) pelos Estados Unidos, faz parte de um extenso jogo econômico promovido pelo Governo de Donald Trump desde março de 2025.
A medida se soma a uma série de ações adotadas por Washington, que alteraram as regras do comércio internacional e atingem setores estratégicos da economia brasileira.
A decisão inaugura um novo momento de tensão para a indústria nacional, que já vinha sendo impactada pelo tarifaço. Segundo dados da balança comercial do primeiro semestre de 2026, divulgados pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), os efeitos negativos das tarifas impostas desde o retorno de Trump à Casa Branca já são percebidos em 74% dos estados brasileiros.
No primeiro semestre deste ano, 20 das 27 unidades da Federação registraram queda nas exportações para os Estados Unidos em comparação com o mesmo período de 2025. Desde março do ano passado, as vendas brasileiras ao mercado norte-americano recuaram 13%, o equivalente a US$ 2,6 bilhões.
Entre no canal de WhatsApp
do Metrópoles
A retração foi impulsionada, principalmente, pela redução de 8,7% nas exportações de bens industriais, com destaque para produtos semimanufaturados de ferro e aço, ferro fundido bruto, pasta química de madeira não conífera, óleos de petróleo e produtos semimanufaturados de outras ligas de aço.
Apesar do recuo, os Estados Unidos permanecem como o principal destino das exportações da indústria de transformação brasileira, segmento responsável pela produção de bens manufaturados com maior valor agregado.
Entre os maiores exportadores brasileiros para o mercado norte-americano, São Paulo – responsável por 17,1% das vendas ao país – registrou queda de 4,3% no semestre. Também houve retração em Minas Gerais (-18,9%), Espírito Santo (-19,2%), Rio Grande do Sul (-22,6%), Santa Catarina (-32,9%), Paraná (-32,9%) e Bahia (-14%).
Os dados também mostram que a região Norte foi uma das mais afetadas pelas medidas comerciais adotadas pelos Estados Unidos. Seis dos sete estados da região registraram retração nas vendas ao mercado norte-americano.
As maiores quedas foram registradas no Acre (-62,8%), Tocantins (-52,1%), Rondônia (-49,1%) e Amapá (-41,2%). O Pará, principal exportador da região para os Estados Unidos, teve retração de 31,4%, enquanto o Amazonas registrou queda mais moderada, de 2,6%.
Dependência
Além da redução nas exportações, os números revelam a elevada dependência em relação ao mercado norte-americano.
Em Sergipe, mais da metade (52,3%) de tudo o que o estado exportou no primeiro semestre teve como destino os Estados Unidos. No Ceará, esse percentual chegou a 33,4%; no Espírito Santo, a 27,5%; e, em São Paulo, a 17,1%.
Para essas unidades da Federação, a nova sobretaxa de 25% tende a ampliar os impactos sobre as exportações. Segundo o presidente da CNI, Ricardo Alban, a medida reduz a competitividade da indústria brasileira em um dos seus principais mercados.
“O cenário tende a piorar, corroendo ainda mais a competitividade da indústria brasileira. Não podemos poupar esforços para reverter essa lógica e retomar a relação que Brasil e Estados Unidos construíram”, afirmou Alban.
A nova tarifa, que entra em vigor já nesta quarta-feira (22/7), alcança cerca de 4 mil produtos brasileiros e afeta setores como madeira, produtos químicos, minerais não metálicos, alimentos, papel e celulose, além de máquinas e equipamentos.
Produtos que serão impactados pela sobretaxa:
- Produtos industriais e máquinas: maquinário agrícola, equipamentos de mineração, ferramentas de jardinagem e componentes de borracha para veículos.
- Bens de consumo: calçados, vestuário e papel.
Commodities e alimentos: etanol, açúcar orgânico e molduras de madeira. - Celulose de dissolução: celulose de dissolução de alta pureza, que foi removida da lista de isenções proposta anteriormente.
- Produtos químicos de uso geral: certas substâncias químicas (como celulose e fosfoaminolipídeos) só estão isentas quando destinadas a aplicações farmacêuticas; o uso dessas mesmas substâncias em outras indústrias será taxado.
Apesar da nova cobrança, a medida mantém uma ampla lista de exceções. Ao todo, mais de 2 mil códigos tarifários ficaram de fora da sobretaxa.
Entre os principais produtos isentos estão café, carne bovina, mel orgânico, açaí, laranja, ferro-gusa, hidróxido de alumínio, aeronaves e peças aeronáuticas, terras raras, sucata de aço e determinados produtos energéticos.
Reação brasileira
Após o anúncio da sobretaxa, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que vai acionar os instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade, que o autoriza o Brasil a retaliar ou aplicar sobretaxas equivalentes contra países que imponham barreiras comerciais unilaterais aos produtos brasileiros.
Em nota, o Palácio do Planalto ainda lamentou a decisão do governo norte-americano e afirmou que a medida representa um retrocesso na relação comercial entre os dois países.
O governo Trump, por sua vez, ameaçou o Brasil com mais consequências, caso o país decida reagir com reciprocidade à medida econômica. No mesmo documento que especifica a sobretaxa de 25%, o país afirma que poderá considerar que o atual nível de tarifação não é suficiente a depender da reação do Brasil.
“Ações do Brasil que aumentem o ônus ou a restrição ao comércio dos EUA — como aumentos de tarifas sobre produtos dos Estados Unidos, em vez de abordar as preocupações dos EUA com as práticas desleais constatadas na investigação — podem indicar que a ação dos EUA neste nível não é suficiente para obter a eliminação dos atos, políticas e práticas do Brasil”, afirma o texto.
Durante a coletiva de imprensa nessa quinta-feira (16/7), o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) também garantiu que o governo federal prepara um pacote de apoio aos setores mais afetados pela medida.
Entre as alternativas em estudo estão a ampliação dos instrumentos do Plano Brasil Soberano, linhas de crédito para empresas exportadoras e o reforço das ações de promoção comercial para diversificar mercados e reduzir a dependência das vendas aos Estados Unidos.
Metrópoles



