Esporte

Carlo Ancelotti, brasiliano

Foi famoso na publicidade brasileira o comercial do Fiat Uno às vésperas da Copa de 1990. O técnico da seleção, Sebastião Lazaroni, multado por um policial em Roma, apresentava seus documentos argumentando ser brasileiro, apesar do sobrenome.

“Lazaroni brasiliano? Piacere! Io sono il papa.” Lazaroni brasileiro? Muito prazer! Eu sou o papa.

A gente quase não nota que os técnicos das Copas de 1958, Feola, e do Penta, Scolari, poderiam causar a mesma surpresa pela ascendência italiana.

Ancelotti é diferente, italiano mesmo, da região Reggio Emilia, e cantou o Hino Nacional Brasileiro a plenos pulmões antes da vitória sobre a Escócia. Questionado sobre como isso foi possível, respondeu: “Eu conheço um hino, o da Itália, estou aprendendo outro, o do Brasil, muito bonito e também difícil. Fico lendo as letras e canto, porque gosto de cantar”.

Também pelo respeito pelo país que o acolheu e lhe deu o emprego mais bem remunerado entre todos os treinadores da Copa. Sobretudo, respeito.

São 27 técnicos estrangeiros nas 48 seleções, mais da metade, e, além de Ancelotti, só Roberto Martínez, espanhol treinador de Portugal, cantou o hino do país que dirige.

A cena de Ancelotti é surpreendente num Mundial em que 24% dos jogadores (289) jogam por países que não são os seus de nascimento. Há casos de quem se sente mesmo daquele lugar, como Hakimi, espanhol de Madri, marroquino por opção. Outros, como os qataris, foram contratados para jogarem pelo país árabe.

O caso Ancelotti merece um perfil. No ambiente da CBF, ele pergunta sobre todos os assuntos. Comparou a seleção ao Carnaval do Rio, por causa da alegria organizada. “Se conseguirmos ter esse comportamento, vamos fazer grandes coisas.”

No dia a dia, quer saber sobre política. A dirigentes já perguntou sobre Lula e Bolsonaro, sobre como é a vida no país, quem pensa como e faz o quê. Nunca declarou sua preferência política. Quem o conhece garante ser um social-democrata, um homem de centro-esquerda.

Mas com jogo de cintura. O que lhe permitiu conviver com Silvio Berlusconi por 15 anos, oito deles o tendo como seu chefe direto, nas temporadas em que dirigiu o Milan. Outros cinco com Florentino Pérez, do Real Madrid, a quem não se pode atribuir o pensamento mais social do planeta.

Um camaleão do ponto de vista tático, tachado de defensivo em alguns momentos da carreira mas responsável por ter levado o Chelsea ao recorde de gols em um Campeonato Inglês, 103, antes de ser superado pelo Manchester City de Pep Guardiola.

Adaptável também quanto aos lugares onde vive e trabalha. Sempre se cercou de quem possa lhe indicar atalhos. Conhecia o inglês Ray Wilkins da Itália e o trouxe para perto quando chegou ao Chelsea. O mesmo com Claude Makelele no Paris Saint-Germain e com Zinedine Zidane ao chegar ao Real Madrid, porque havia sido seu treinador na Juventus. Agora, com Casemiro e Danilo.

Não se viu Ancelotti cantando publicamente “¡Hala, Madrid!“, o hino do Real. E ainda que saiba as letras do Milan, “Solo com te“, e da Roma, “Core de ‘sta Città“, é duro até para um brasileiro entender a ordem inversa de “Ouviram do Ipiranga as margens plácidas / De um povo heroico o brado retumbante”.

Seu desejo é fazer as margens não tão serenas do rio Amazonas ouvirem o grito forte “Brasil, Campeão!”.


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Esporte / Folha de São Paulo

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