Decisiva para o cenário nacional, corrida ao governo de Minas é pontuada por incertezas

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Na segunda-feira 10, a federação Rede-PSOL, que apoia a reeleição de Lula, anunciou que caminharia com o ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil (PDT) na disputa ao governo de Minas Gerais e não com o candidato da esquerda, o deputado Patrus Ananias (PT). Mais surpreendente do que a aliança foi a resposta de Kalil, que aceitou a adesão de apenas uma das siglas. “Quero a Rede em minha campanha. Já o PSOL não é bem-vindo”, disse. A aproximação não durou muito — no dia seguinte, após um recurso do esnobado psolismo mineiro, a coordenação nacional da federação interveio para revogar o ato estadual e ratificar que o candidato do grupo era o petista. A rocambolesca articulação, se não terá maiores consequências na disputa, ilustrou bem a confusão que marcou a pré-campanha no segundo maior colégio eleitoral do país.
A falta de rumo da federação esquerdista, embora constrangedora para o PT, refletiu um cenário de confusão que os próprios petistas se esforçaram para construir. A definição do palanque de Lula se arrastou por meses, com o PT dividido sobre lançar nome próprio ou não, enquanto chegou a flertar com nove possibilidades ao governo — do ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco ao próprio Kalil —, antes de bater o martelo com Patrus, também ex-prefeito de Belo Horizonte e ex-ministro de Lula e Dilma Rousseff. Apesar de sua candidatura parecer não ter mais volta, o fechamento da chapa se arrastava até a última semana. Com o ex-procurador Jarbas Soares (PSB) no posto de vice e a ex-prefeita de Contagem Marília Campos (PT) na primeira vaga ao Senado, sobrava a segunda posição ao Congresso, que o partido gostaria que fosse ocupada por um nome de centro — o ex-presidente da Fiesp Josué Gomes (PSB) chegou a ser cotado, mas ela terminou ocupada pela ex-deputada Áurea Carolina (PSOL). “A candidatura dela favorece a minha campanha, porque consigo direcionar o segundo voto de meus eleitores para ela”, comemora Marília Campos.
Ninguém, no entanto, espalhou mais incertezas no tabuleiro mineiro do que o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos). Favorito ao governo, segundo as pesquisas, ele esgarçou todos os limites em termos de dúvidas na pré-campanha. Primeiro, passou meses evitando confirmar se seria ou não candidato e prometeu que, mais perto do período eleitoral, iria “conversar com Deus para tomar uma decisão”. A situação dificultou as alianças e a formação de um palanque presidencial robusto atrelado a sua candidatura. Quanto mais a eleição se aproximava, mais a confusão aumentava. Primeiro, ele não foi à convenção do Republicanos, em 25 de julho, o que fez o partido soltar uma dura nota dizendo que ele estava fora. Após inicialmente resistir, Cleitinho gravou vídeo, em 3 de agosto, ao lado dos presidentes estadual e nacional da legenda, chorou e disse que não estava bem para se candidatar por conta da recente morte do irmão Matheus. No dia seguinte, outra reviravolta: ele foi à convenção nacional do Republicanos em Brasília e constrangeu a cúpula da legenda ao pegar o microfone e pedir outra chance para concorrer. Ganhou o aval, mas ele próprio admitiu que sua postulação corre risco, porque adversários estudam ir à Justiça para questionar o trâmite legal de sua candidatura dentro da sigla.

Outro elemento que bagunçou o cenário em Minas Gerais foi a candidatura presidencial do ex-governador Romeu Zema (Novo), que inviabilizou a união da direita com os bolsonaristas. A entrada dele na disputa ao Planalto obrigou o governador Mateus Simões (PSD), que foi seu vice e tenta ser seu sucessor, a apoiá-lo, afastando o PL, que desejava ter um palanque forte para Flávio Bolsonaro no estado. Na semana passada, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), o mais votado de Minas Gerais, chegou a tentar convencer Zema a desistir e concorrer ao Senado, de forma a arrumar o palanque que uniria PL, Novo, PSD e, com grande chance, a federação União Brasil-PP, mas não teve sucesso na investida. “Minas está vivendo uma eleição sem dono. Zema saiu de cena sem deixar um herdeiro eleitoral consolidado, e uma enorme janela política foi aberta para ocupar o Palácio da Liberdade”, avalia Murilo Medeiros, cientista político da UnB.
Com a união da direita inviabilizada, sobrou ao PL montar um palanque próprio, improvisado de última hora. Ele será encabeçado pelo ex-presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) Flávio Roscoe, que descarta retirar sua candidatura até o fim do prazo de registro, no sábado 15, para apoiar Cleitinho. “Não tem cabimento aguardar o Republicanos por 120 dias, receber uma não candidatura e, depois que você lança a sua, a não candidatura vira candidatura. Parece até piada”, diz. Para Medeiros, o cenário pulverizado levará os candidatos a tentar se desvincular da disputa presidencial, bem como Lula e Flávio a conversar com os eleitores de outros campos. “É uma lógica de múltiplos palanques, que impõe uma equação delicada”, avalia. O confuso cenário em Minas Gerais, estado decisivo para a disputa presidencial, deve prosseguir nessa toada até o fechamento das urnas.
Publicado em VEJA de 14 de agosto de 2026, edição nº 3008
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