El Niño deve elevar custos do seguro rural para produtor


O fenômeno climático El Niño, que deve ter efeitos negativos para a agricultura, também pode pesar no bolso do produtor rural. Os riscos atrelados a eventuais impactos do fenômeno sobre as culturas agrícolas tendem a encarecer os custos com seguro rural num momento em que grande parte do setor está desprotegida, com a menor área segurada dos últimos dez anos. Ao mesmo tempo, a demanda por novas apólices é limitada pelas condições financeiras dos agricultores.
“O El Niño não chega sozinho. Ele encontra o produtor com crédito mais seletivo, margens pressionadas, endividamento elevado e cobertura securitária muito reduzida. O principal risco da safra não é apenas climático. É a combinação de maior volatilidade com menor capacidade financeira e institucional para absorver as perdas”, afirma Pedro Loyola, coordenador do Observatório do Crédito e Seguro Rural do Centro de Estudos do Agronegócio da Fundação Getulio Vargas (FGV Agro).
O fenômeno não significa quebra generalizada de safra, observa Loyola, mas as mudanças no volume de chuvas e temperaturas geram riscos para a produção. No Sul, as precipitações podem ficar acima da média, com chances de encharcamento das lavouras, atraso no plantio e colheita de culturas como trigo, soja, milho e feijão.
Leia também
Agricultor ajusta planejamento para encarar El Niño mais forte da história
Produtores apostam em cultivares resistentes para amenizar efeitos do El Niño
No Centro-Oeste, Norte e Nordeste, há possibilidade de redução de chuvas e aumento de calor. Com isso, ele acrescenta, pode haver necessidade de replantio, falha no desenvolvimento das culturas e maior risco de incêndios. Nessas regiões, soja, milho, algodão e pastagens poderiam ser afetados.
Nesse contexto, “as seguradoras e resseguradoras tendem a rever município, cultura, época de plantio, tipo de solo, histórico de produtividade, nível de cobertura, manejo e concentração de exposição”, na hora de precificar os valores do seguro rural.
“Não existe, portanto, um ‘preço nacional do El Niño’. O ajuste poderá ser muito diferente entre regiões e culturas. Em alguns casos, a mudança aparecerá na taxa; em outros, na franquia, no limite de cobertura, na produtividade garantida ou simplesmente na disponibilidade de capacidade”, diz o coordenador do FGV Agro.
Apesar do cenário atual, o presidente da Comissão Rural da Federação Nacional de Seguros Gerais (FenSeg), Daniel Nascimento, não espera aumento nos preços das apólices. A razão é que as contratações estão concentradas entre produtores do Sul. E essa região, segundo o executivo, historicamente, tem perdas mais intensas em anos de La Niña. O El Niño ainda preocupa o mercado segurador, mas as empresas do setor buscam arbitrar o risco com estratégias como a diversificação geográfica e de produtos.
“Se pegarmos os últimos 20 anos, em torno de 50% (das indenizações de seguro rural) foram pagos por conta de La Niña. Os outros 25% em anos neutros e 25% em anos de El Niño”, diz Nascimento. “Então, em volume de indenização para a seguradora, a La Niña causa mais prejuízo que o El Niño”.
Indenizações
Dados da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) mostram que o maior volume de pagamentos de indenizações por seguro rural ocorreu enquanto o La Niña estava ativo. O crescimento mais intenso foi em 2021, com salto de 95,1% nos pagamentos para R$ 7,2 bilhões, e maior valor foi em 2022 com R$ 10,5 bilhões.
Ainda que haja diferença entre os impactos dos dois fenômenos, Guilherme Rios, coordenador de produção agrícola da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), acredita que a precificação das seguradoras vai levar em conta a conjuntura de riscos atrelados ao El Niño. Mas esse custo deve ficar para 2027, já que as previsões indicam que o fenômeno alcançará o ápice entre o fim deste ano e o início do próximo.
“Com certeza, vamos ter aumento de custo do seguro. A sinistralidade pesa muito na formação do preço das apólices”, afirma Guilherme Rios.
Citando dados do governo federal, ele destaca que a área coberta por seguro -— com recursos do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) — está em 741 mil hectares neste ano, 76,8% abaixo de 2025 e muito distante dos 13,67 milhões de hectares de 2021. “Se esse cenário continuar, (2026) seria o pior ano de cobertura desde 2016”, estima Rios.
Para melhorar esse quadro, ele defende a liberação de recursos do PSR bloqueados pelo governo e a aprovação do projeto de lei 2.951/2024, que tramita no Congresso, e traria modernizações ao sistema de seguro rural. “O seguro rural precisa ser contratado pelo produtor antes do plantio, então seria importante liberar agora o recurso do PSR que foi contingenciado”, enfatiza. O início da nova safra de grãos está previsto para setembro.
Globo Rural



