El Niño e seus impactos na Amazônia: a conta dos extremos climáticos chega à mesa


O risco de a Amazônia enfrentar uma de suas maiores provações climáticas com a consolidação de um super El Niño de intensidade histórica vem se confirmando.
A nota técnica conjunta emitida pelo INPE, INMET, Funceme e Censipam aponta alta probabilidade (superior a 80%) de formação e de persistência do fenômeno no segundo semestre de 2026, com reflexos no regime de chuvas e nas temperaturas de todo o país.
Para a Amazônia, projeta-se um cenário de seca extrema e calor recorde, alterando profundamente o ciclo de chuvas na maior floresta tropical do planeta. É uma ameaça direta para a população local, sobretudo agricultores familiares, ribeirinhos, quilombolas e indígenas.
A agricultura familiar amazônica carrega uma vulnerabilidade intrínseca que potencializa os efeitos de qualquer extremo climático. Diferentemente do que acontece em grandes propriedades, o pequeno produtor ribeirinho ou assentado depende diretamente da regularidade das chuvas e da saúde dos solos locais, dispondo de pouca infraestrutura de irrigação ou reservas financeiras para lidar com perdas de safra.
Ao interferir no regime hídrico, o El Niño pode atingir esse sistema produtivo vulnerável, desencadeando insegurança alimentar e nutricional, inflação local no custo dos alimentos e até desestruturação de comunidades tradicionais.
Os impactos nos cultivos de terra firme são imediatos e devastadores para a economia doméstica local. A mandioca, base da farinha que alimenta e gera renda essencial para as famílias da região, entra em estresse hídrico sob o calor extremo, reduzindo drasticamente o tamanho e o peso das raízes.
Culturas permanentes, como cacau, guaraná, cupuaçu, açaí, sofrem com a perda de produtividade devido à falta de umidade no solo. Cultivos anuais, como feijão, milho, verduras, podem morrer ou simplesmente não se desenvolver. Pode faltar água até mesmo para saciar a sede dos animais.
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Sem essa produção básica para o autoconsumo, o agricultor familiar perde sua principal fonte de alimentos e de venda nas feiras locais. Os efeitos nocivos chegam também às grandes cidades, cujo abastecimento depende dos cultivos do entorno.
No Amazonas, o Super El Niño ameaça os campos de guaraná em polos históricos como Maués, Urucará e Parintins. Cultivado em terra firme por famílias que manejam pequenas lavouras de até dois hectares espalhadas por cerca de vinte municípios, o fruto-símbolo da bioeconomia do estado depende de umidade para floração e enchimento dos grãos, o que acontece em meados de setembro.
O calor extremo provoca abortamento de flores e desidratação dos frutos, afetando a produtividade. Sem irrigação viável, estima-se uma quebra de safra severa, que porá em risco o sustento de milhares de pequenos produtores.
Adicionalmente, a seca pode atingir a vazão dos rios e igarapés essenciais para navegação, dificultando o transporte e o escoamento da produção, mesmo por pequenas embarcações e canoas, agravando a perda dos alimentos destinados à venda.
O ambiente seco favorece ainda o alastramento de incêndios, gerando concentrações de fumaça nocivas à saúde no ar.
Diante do cenário complexo que se anuncia, as políticas públicas e institucionais precisam abandonar o caráter puramente reativo para abraçar a preparação estrutural e antecipada. A prevenção exige, em primeiro lugar, o fortalecimento de redes de proteção financeira imediata.
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A liberação de microcréditos emergenciais desburocratizados e a ampliação do programa Garantia-Safra para as regiões afetadas são urgentes. Paralelamente, a União deve ampliar as compras públicas antecipadas via Conab, garantindo receita mínima ao produtor antes que o isolamento logístico inviabilize o comércio.
No campo da infraestrutura comunitária, o foco deve migrar para a segurança hídrica e logística descentralizada. É fundamental a instalação de microssistemas de irrigação solar de baixo custo, a distribuição de kits de captação de água da chuva para as áreas de terra firme e a melhoria das estruturas de estoque de água.
Para mitigar o isolamento pela inviabilidade de navegação, o planejamento público precisa mapear rotas alternativas terrestres provisórias e criar entrepostos comunitários de refrigeração e estocagem rápida nas sedes municipais mais vulneráveis, evitando o desperdício em larga escala de alimentos perecíveis.
No longo prazo, a sobrevivência da agricultura familiar amazônica depende de uma transição tecnológica voltada a aumentar a resiliência às mudanças do clima.
O fomento aos Sistemas Agroflorestais (SAFs) e às técnicas de aprofundamento de raízes e proteção do solo precisa deixar de ser uma política marginal para se tornar a diretriz principal de assistência técnica na região.
Ao consorciar árvores nativas com cultivos alimentares e de valor comercial (como o próprio guaraná), cria-se um microclima sombreado que protege o solo do sol escaldante e retém umidade.
Outros cuidados a serem tomados de imediato são a formação de bancos de sementes comunitários, visando a seleção de plantas de alta produtividade e maior resistência aos extremos climáticos, e o incentivo a técnicas agrícolas simples e eficazes, como o reaproveitamento de resíduos das plantas para adubação orgânica e o uso de espécies de árvores que favoreçam a adubação verde.
Romper com a monocultura e com o uso do fogo como ferramenta de manejo — inclusive com a construção de aceiros para conter o fogo de queimadas — são estratégias indispensáveis para proteção das áreas agrícolas.
Proteger a agricultura familiar na Amazônia é salvaguardar a soberania alimentar desse importante território e garantir a permanência das populações do campo na floresta de forma sustentável.
Sem medidas profundas de mitigação, adaptação e apoio financeiro direto, o preço pago pelo clima extremo será cobrado na forma de fome, êxodo rural e aumento da pobreza. O futuro da floresta viva depende diretamente da sobrevivência de quem nela vive.
*Eduardo Trevisan, diretor de ESG e Certificações, Raimundo B. Souza, analista técnico, e Victor Neves, técnico de campo, todos do Imaflora
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