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Em Minas, Lula terá de superar falta de apoio do centro e legado ruim do PT

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Território historicamente estratégico para qualquer candidato ao Palácio do Planalto, Minas Gerais deu a vitória a Lula nas três vezes em que ele foi eleito. Em 2022, no entanto, o triunfo veio com dificuldade. Um dos motivos foi a reeleição de Romeu Zema (Novo) ao governo ainda no primeiro turno, o que fez com que o petista visse sua vantagem para Jair Bolsonaro cair de quase 5 pontos para 0,4 na votação final no segundo maior colégio eleitoral do país. Muito em razão disso, o petista vinha dando atenção especial ao estado neste ano, mas só conseguiu na nona tentativa erguer um palanque no estado. Na segunda-feira 20, o PT anunciou que o deputado federal Patrus Ananias, que foi ministro de Lula e Dilma e prefeito de Belo Horizonte nos anos 1990, aceitou, um tanto a contragosto (queria seguir na Câmara), o desafio de encabeçar a chapa lulista, uma posição importante para o projeto presidencial — a missão, entretanto, não deverá ser executada com facilidade.

O “sim” do experiente deputado, identificado com os melhores anos do lulismo (foi o ministro responsável pela implantação do Bolsa Família), veio após uma sequência de “nãos”. O mais dolorido foi o do senador Rodrigo Pacheco (PSB), em quem Lula investiu por meses. Após sua recusa, o PT tentou de tudo: de um novo acordo com o ex-prefeito Alexandre Kalil (PDT), a quem apoiou em 2022, a uma dupla de opções do PSB, passando por Gabriel Azevedo (MDB), um ex-tucano que foi aliado de Aécio Neves e assinou o pedido de impeachment de Dilma. Também buscou outras opções dentro do PT, como a ex-prefeita de Contagem Marília Campos, que cansou de dizer “não” — ela quer disputar o Senado e defendia que o PT nem deveria ter candidato ao governo.

MUDANÇA DE FOCO - Kalil: ex-prefeito vai apostar agora no eleitor moderado (@AlexandreKaliloficial/Facebook)

A escolha de Patrus, um quadro histórico da sigla, não torna o caminho mais suave. De imediato, ruiu a estratégia inicial de montar uma frente ampla e com capacidade de dialogar com o centro e até com a direita. Com Patrus, caem a zero as chances de composição com Alexandre Kalil e Gabriel Azevedo, que vão tentar construir alianças mais ao centro político, em busca de um eleitor não polarizado — o MDB conversa com PSDB, Cidadania e Avante. Já a chapa lulista terá os velhos aliados de sempre (PSB, PSOL e Rede), que não ajudam a avançar no eleitorado conservador de Minas. Até por isso, a aposta mais forte para vice hoje é o empresário Josué Gomes (PSB), dono da Coteminas e filho de José Alencar, colega de chapa de Lula nos dois primeiros mandatos.

Se Lula e o PT conseguiram arranjar, de última hora, um palanque, mesmo que frágil, o seu principal adversário, Flávio Bolsonaro, não está se saindo melhor. Na reta final do prazo para as convenções (que vai até 5 de agosto), o PL não sabe se terá candidato ou se irá a reboque do senador Cleitinho Azevedo (Republicanos), que lidera as pesquisas, mas arrasta até o último prazo a definição sobre se irá para a disputa. Como alternativa, o PL cogita lançar o ex-prefeito de Betim Vittorio Medioli, que tem dito que trabalha nos bastidores para entrar na disputa. “Espero que o PL possa confirmar a minha candidatura”, diz.

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DIÁLOGO - Aécio e Azevedo: PSDB e MDB querem duelar com direita e esquerda
DIÁLOGO - Aécio e Azevedo: PSDB e MDB querem duelar com direita e esquerda (@psdboficial/Instagram)

A fragmentação da direita, que governa o estado há dois mandatos, também é uma realidade. O governador Mateus Simões (PSD) não só segue patinando nas pesquisas, como está vendo ruir a sua pretensão de unir a direita. Sem PL e Republicanos, ele pode ver surgir outra candidatura dentro da base governista, já que União Brasil e PP acalentam a ideia de lançar um nome ao governo. Simões tem, por ora, apenas a adesão do Novo, seu ex-partido. “A confusão na direita é responsabilidade do Zema e do Novo, que são estreitos para fazer política. Quando o Zema se lança a presidente, ele dificulta as negociações em Minas”, avalia Carlos Ranulfo, doutor em política pela UFMG.

Do lado da esquerda, o maior desafio será fazer balançar em outra direção o pêndulo ideológico mineiro. Esse campo político ficou extremamente mal avaliado pelo eleitor após a gestão de Fernando Pimentel (PT), que não conseguiu nem ir ao segundo turno quando tentou a reeleição em 2018. O cenário de terra arrasada — com colapso nas contas públicas, salários atrasados e greves, calotes em municípios e fornecedores e um canteiro de obras paradas — serviu de combustível para a eleição e reeleição de Zema em 2018 e 2022 e deverá ser novamente trazido à tona no enfrentamento deste ano. “A campanha do Patrus pode ser vitoriosa, mas o receio com o PT ainda é muito forte no eleitorado”, avalia Carlos Roberto Horta, cientista político da UFMG. O desafio de Lula e da esquerda, portanto, não é só vencer a direita, que é muito forte no estado, mas mostrar que pode fazer muito melhor do que fez quando o PT chegou ao poder — não será pouca coisa.

Publicado em VEJA de 24 de julho de 2026, edição nº 3005

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