Empresário que inspirou novela criou 170 mil cabeças de gado e teve 1 milhão de hectares e imóveis de US$ 30 milhões

Poucos brasileiros conseguiram levar seus negócios tão longe quanto Sebastião Ferreira Maia, o Tião Maia (1916-2005). Nascido em Passos, Minas Gerais, ele começou a trabalhar com compra e venda de gado e, mesmo sem concluir o ensino primário, construiu um patrimônio que chegou a atravessar três países.
Sua primeira grande empreitada foi em Araçatuba, no interior de São Paulo. Em 1952, fundou o Frigorífico T. Maia, que alcançou a impressionante marca de cerca de 200 mil bovinos abatidos por ano e ajudou a consolidar a cidade como um dos grandes centros da pecuária brasileira.
O empresário, porém, enfrentaria um período turbulento durante a ditadura militar. Pressionado por investigações e acusações relacionadas ao mercado de carne, decidiu vender seus negócios no Brasil. Em 1976, tomou uma das decisões mais arriscadas de sua vida: partiu para a Austrália, sem falar inglês, levando consigo os recursos obtidos com a venda de seu patrimônio.
O milionário que apostou contra o mercado
A chegada aconteceu em um momento de dificuldades para a pecuária australiana. Enquanto produtores enfrentavam um cenário desfavorável, Tião Maia enxergou uma oportunidade e começou a comprar grandes propriedades em Queensland.
Entre elas estavam Lawn Hill, adquirida por cerca de US$ 3 milhões, e Julia Creek, com aproximadamente 140 mil hectares. A aposta deu resultado. Com a recuperação do setor, seus negócios cresceram e suas propriedades chegaram a somar aproximadamente 1 milhão de hectares. O rebanho também alcançou mais de 170 mil cabeças de gado, transformando o brasileiro em um dos grandes nomes da pecuária australiana.
O tamanho das fazendas exigia operações pouco convencionais para a época. Tião Maia chegou a utilizar helicópteros para acompanhar os animais e ganhou o apelido de “Barão do Gado”.
Gado, terras e imóveis em Las Vegas
A fortuna não ficou restrita ao campo. Tião Maia também levou seus investimentos para os Estados Unidos, especialmente para Las Vegas, onde entrou no mercado imobiliário. Entre os negócios associados ao empresário estava um conjunto residencial avaliado em cerca de US$ 30 milhões, além do condomínio Copacabana, com dezenas de casas e estruturas comerciais. No auge, seu patrimônio reunia, portanto, fazendas gigantescas, milhares de animais e imóveis milionários em diferentes países.

Da vida real para a televisão
A personalidade de Tião Maia também acabou atravessando a fronteira entre realidade e ficção. Seu jeito caipira, o chapéu de caubói, as perucas e o gosto pela vida cercada de luxo e mulheres chamaram a atenção do dramaturgo Dias Gomes (1922-1999), que revelou ter usado o pecuarista como referência para criar Sinhozinho Malta, personagem da icônica novela Roque Santeiro (1985).
Interpretado por Lima Duarte (96), o personagem ganhou características próprias e se tornou um dos maiores sucessos da novela brasileira. A famosa gargalhada, por exemplo, foi incorporada por Lima durante a construção do papel.
Tião Maia, entretanto, tinha uma história tão cinematográfica quanto a do personagem: saiu do interior de Minas, construiu um frigorífico milionário, deixou o Brasil em meio a um período político conturbado e refez sua fortuna do outro lado do mundo.

Um patrimônio construído em tempos de crise
Tião Maia morreu em São Paulo, em 2005, aos 89 anos. Naquele momento, seu nome ainda estava associado a um patrimônio de dimensões impressionantes, com gado e propriedades na Austrália e investimentos imobiliários nos Estados Unidos.
Mais do que os números — 1 milhão de hectares, 170 mil cabeças de gado e imóveis avaliados em dezenas de milhões de dólares —, sua trajetória ficou marcada pela disposição de apostar quando o cenário parecia desfavorável.
E foi justamente essa figura real, extravagante e milionária, que acabou ajudando a inspirar um dos personagens mais inesquecíveis da televisão brasileira.

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