Política

Fake news sobre Nossa Senhora Aparecida é nova amostra de religião como arma eleitoral

Seria Jair Bolsonaro (PL), para desgosto de sua base evangélica, maçom? E Michel Temer (MDB) satanista? Marina Silva (Rede), por ser crente, vai proibir o católico Círio de Nazaré? Os petistas Lula e Dilma Rousseff vão mandar fechar igrejas?

Não para tudo. São exemplos de notícias falsas que circularam em eleições passadas. Esse tipo de desinformação de cunho religioso costuma afetar mais a esquerda, mas também atinge o outro lado e não é de hoje que movimenta as eleições brasileiras.

Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência, foi o alvo mais recente de uma: a de que estaria empenhado em destituir Nossa Senhora Aparecida do posto de padroeira do Brasil. Não há qualquer evidência de que o primogênito de Jair Bolsonaro tenha feito qualquer gesto nesse sentido, e seu pai foi alvejado com a mesma fake news em 2018, ainda que a circulação, na época, tenha sido bem menor.

Em agosto, Flávio disse que, se eleito presidente, um dos seus primeiros atos seria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. A fala foi recebida como uma espécie de “apito de cachorro”, que é a mensagem que carrega dentro de si um recado cifrado e compreensível apenas para um grupo específico. Seria, nessa interpretação, uma piscadela para evangélicos, sinalizando que eles seriam prioridade em seu governo.

Nada disso permite inferir que Flávio iria rebaixar Aparecida como padroeira. É o tipo de distorção que vem sendo sistematicamente usada para criar pânico moral e simular uma guerra espiritual em troca de dividendos eleitorais. Aqui é o bolsonarismo provando do próprio remédio, já que ajudou a disseminar várias inverdades de apelo religioso contra adversários durante eleições.

Lula as enfrenta desde o primeiro pleito que disputou, em 1989. Durante aquela campanha, pulularam rumores de que o petista fecharia igrejas —ora por ser contra a moral cristã tradicional, ora por estar mancomunado com o catolicismo e querer privilegiá-lo em detrimento de outras religiões. A Igreja Católica nunca deu qualquer endosso oficial a ele, mas sua ala progressista era abertamente simpática ao PT.

Em fevereiro de 1990, dois meses após perder para Fernando Collor, o petista fez um balanço da derrota. O cientista político André Singer, seu futuro porta-voz, perguntou se o PT deveria ter agido diferente para desidratar essas acusações. Lula respondeu: “Certas coisas nós discutíamos a partir da nossa cabeça, a partir da cabeça do pessoal politizado. Quando disseram que a gente ia acabar com as religiões não católicas, nós fizemos um único programa especial sobre o tema. Precisávamos ter insistido nestas questões, porque é exatamente na faixa menos politizada que essas coisas pegam”.

Era o começo de uma longa lista de fake news contra Lula, lembra o cientista político Vinicius do Valle, que estuda o segmento evangélico. Sobre ele também foi dito, sem lastro factual, que proibiria igrejas de pregar que a união de homem e mulher é a única permitida por Deus, reformularia a Bíblia para remover trechos considerados homofóbicos e obrigaria igrejas a conduzir casamentos homoafetivos.

Lula também foi alvo de uma enxurrada de acusações lançadas sobretudo pela Igreja Universal do Reino de Deus nos anos 1990, cita o sociólogo Alexandre Landim, doutor pela Universidade Federal do Ceará e autor de “O Deus das Urnas: Evangélicos e Católicos em Eleições Presidenciais no Brasil”. “De que era comunista, perseguidor do povo evangélico, candidato da Igreja Católica, frequentador de umbanda e candomblé, fechador de igrejas. Naquele ano, o PT obteve, por duas vezes, o direito de resposta e conseguiu tirar a Record, canal ligado à Universal, do ar por uma hora.”

Anos depois, numa dessas cambalhotas políticas tão brasileiras, a Universal apoiou o PT por um tempo. Em 2010, a igreja do bispo Edir Macedo usou seu jornal, a Folha Universal, para rechaçar boatarias de que Dilma fecharia igrejas se eleita presidente.

Temas de voltagem moral dominaram aquela campanha. Panfletos apócrifos, distribuídos inclusive na saída de missas e cultos, tentavam colar em Dilma a pecha de abortista “assassina de criancinhas”.

Quatro anos depois, Marina Silva, então rival do PT, acusava a campanha de Dilma de “extrapolar os limites da ética”. Disse que chegou ao Pará, “e as pessoas diziam que, pelo fato de eu ser evangélica, eu ia acabar com o Círio de Nazaré”.

Maledicências com embalagem religiosa corriam por vias analógicas, até mesmo o boca a boca. Pois ganharam escala exponencial com a migração das campanhas para as redes sociais, diz Vinicius do Valle.

A eficácia dessas falsidades, segundo o pesquisador, não se apoia na mensagem literal, mas na sua capacidade de escoltar preconceitos que já impregnam determinados grupos. “O que se chama de fake news faz mais efeito quanto mais comunica uma informação que já está presente numa visão sobre um candidato.”

Dessa forma, episódios absurdos anabolizaram um sentimento de ameaça pré-existente. “Não acredito que, em 2018, uma multidão votou no Bolsonaro com medo de o filho ganhar uma mamadeira em formato de pênis”, diz Valle, resgatando a notícia falsa de que Fernando Haddad (PT) distribuiria o item em creches públicas se vencesse o pleito. “O que aconteceu, naquele episódio que mobilizou setores religiosos, é que um conjunto de mensagens, até de caráter cômico, dando vazão para um discurso. Exagerava, entre aspas, nas ‘políticas de inclusão’, na ideia de que o PT era contra a família tradicional.”

Já nos anos 1950, climatizados pela Guerra Fria, a religião serviu de instrumento contra oponentes à esquerda. O rádio, então o principal meio de comunicação de massas, colaborou para espalhar mentiras que apavoram um Brasil profundamente rural e católico. Se triunfassem grupos ligados ao comunismo ou ao varguismo, propriedades da Igreja seriam confiscadas pelo Estado, seminários seriam fechados, e os padres, enviados para campos de concentração na Sibéria —o que de fato aconteceu na União Soviética.

O campo progressista pode ser um alvo preferencial desse tipo de fake news, mas a direita por vezes sai chamuscada. Em 2022, um vídeo antigo de Bolsonaro num templo maçônico, da época em que era deputado, foi recebido como uma ogiva eleitoral, capaz de detonar algumas pontes com sua base evangélica.

A recente polêmica em torno de Aparecida não é, portanto, um episódio isolado. Valle, por sinal, nem acha que haja “um grande contingente populacional tão preocupado assim com o reconhecimento formal do Estado brasileiro a respeito do título de Nossa Senhora”.

O que o último capítulo dessa guerra religiosa faz, para o cientista político, é evidenciar o terror de parte da sociedade com o avanço de um evangelicalismo conservador e bolsonarizado. A vitória dessa frente fortaleceria o que veem como “setores elitistas e intolerantes que querem trazer a fé deles a todo momento”. Mais uma vez, o medo acaba abastecendo a máquina das fake news.

Folha de São Paulo

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