Política

‘Faltou ênfase nas pautas sociais’, avalia cientista social sobre debate entre candidatos de MG

O primeiro debate entre candidatos ao governo de Minas Gerais nas eleições deste ano foi marcado por discussões sobre a dívida do estado, o Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag), privatizações, segurança pública, mineração e investimentos em infraestrutura. Promovido pela Band dia 16, o encontro reuniu Mateus Simões (PSD), Alexandre Kalil (PDT), Flávio Roscoe (PL), Gabriel Azevedo (MDB) e Cleitinho Azevedo (Republicanos). Patrus Ananias (PT) não participou por estar em São Paulo, onde cumpria agenda

Segundo a cientista social e jornalista Ana Carolina Vasconcelos, a ausência de Patrus diminuiu a qualidade do debate, uma vez que o candidato possui uma trajetória robusta na política.

“Pelo perfil de Patrus, se ele estivesse no debate, é bem provável que as pautas sociais tivessem aparecido com mais ênfase, como a saúde, educação, moradia, trabalho e assistência social”, avalia. 

“A defesa da democracia e da soberania brasileira certamente também seriam destacadas por Patrus, em resposta aos ataques da extrema direita às instituições democráticas e à associação da extrema direita e do bolsonarismo aos interesses norte-americanos”, continua. 

Dívida de MG

Logo no primeiro bloco, os candidatos foram questionados sobre quais seriam as prioridades de uma eventual gestão diante da situação fiscal de Minas Gerais. A dívida do estado e os efeitos do Propag concentraram parte importante dos embates.

Para Vasconcelos, a centralidade dada ao assunto deve-se ao fato de que esse tem sido um dos temas mais importantes no atual cenário do estado. 

“O que vimos, infelizmente, das leituras dos candidatos que estavam no debate, em especial de Mateus Simões, Roscoe e Cleitinho, foi falta de responsabilidade com o tema. Simões afirmou que o seu governo pagou R$ 13 bilhões da dívida, mas esqueceu de mencionar que, durante as gestões de Romeu Zema, da qual ele foi vice-governador, a dívida cresceu mais de 50%, chegando a mais de R$ 170 bilhões”, afirma. 

Alexandre Kalil classificou o acordo como uma “agressão a Minas Gerais” e afirmou que o programa pode representar um rombo de R$ 165 bilhões para o estado, considerando as prestações e as isenções previstas. Para o ex-prefeito de Belo Horizonte, Minas Gerais ficaria “ingovernável” com o modelo e seria necessário negociar diretamente em Brasília.

Cleitinho Azevedo defendeu o diálogo com o governo federal para buscar formas de reduzir a dívida. O candidato também criticou as isenções fiscais concedidas pelo estado e defendeu maior fiscalização sobre empresas e contribuintes. Segundo ele, seria necessário rever benefícios e combater a sonegação, além de reduzir despesas públicas.

Flávio Roscoe também afirmou que pretende pressionar o governo federal por uma renegociação. Para ele, a entrada em vigor do Propag pode inicialmente tornar a situação mais administrável, mas posteriormente comprometeria a capacidade de investimento do estado. 

O candidato prometeu apresentar, nos primeiros 90 dias de governo, um pacote voltado ao aumento da produtividade da administração pública, inclusive com uso de tecnologias como inteligência artificial.

“Roscoe disse que irá a Brasília pressionar pelos interesses de Minas, mas faz parte de um partido que defendia a aplicação do Regime de Recuperação Fiscal (RRF), que aumentava a dívida do estado, retirava direitos dos servidores públicos, privatizava as empresas e serviços públicos, entre outros retrocessos. Além disso, o governo de Jair Bolsonaro (PL), do partido de Roscoe, nada fez para ajudar a resolver a situação da dívida de Minas Gerais”, recorda Vasconcelos.

Gabriel Azevedo adotou uma posição diferente e afirmou que Minas precisa cumprir sua parte no equilíbrio das contas públicas. Defendeu uma agência independente para acompanhar a destinação dos recursos estaduais e afirmou que o Estado não pode gastar mais do que arrecada. Já Mateus Simões afirmou que o débito estaria dentro da capacidade de pagamento do caixa estadual.

Segurança pública e feminicídio

A segurança pública também esteve entre os principais temas do debate. Em um dos primeiros confrontos diretos, Mateus Simões questionou Alexandre Kalil sobre feminicídio e pediu que o candidato explicasse sua posição de que o problema não seria exclusivamente uma questão de governo.

Kalil criticou o que chamou de sucateamento da polícia em Minas Gerais e acusou a atual gestão de não apresentar respostas suficientes para o enfrentamento da violência contra as mulheres. O candidato afirmou ainda que 126 delegacias da mulher teriam sido fechadas e criticou a estratégia de destacar mulheres no comando das forças de segurança sem, segundo ele, ampliar políticas específicas de proteção.

No tema do combate às organizações criminosas, Gabriel Azevedo defendeu a valorização dos policiais civis e militares, inclusive por meio de melhorias salariais. Segundo ele, a segurança pública precisa de uma estratégia que vá além de ações ostensivas. Cleitinho, por sua vez, prometeu fortalecer a Polícia Civil e ampliar o uso de inteligência artificial para combater as facções criminosas.

Segundo Vasconcelos, diversas pesquisas de opinião apontam que a segurança pública, junto da saúde, são as principais preocupações da população mineira. 

Durante os governos da extrema direita, a criminalidade, as organizações criminosas e a violência contra a mulher cresceram exponencialmente em Minas Gerais, pondera a cientista social.

“Ao mesmo tempo, as polícias do estado acumulam déficits salariais que chegam a cerca de 45%. Esse é um tema essencial, que não pode ser tratado pelos candidatos apenas como gancho para busca de votos. O próximo governador de Minas precisa ter propostas concretas sobre como melhorar a inteligência e prevenção a crimes, valorizar os servidores da segurança pública, e enfrentar o feminicídio”, sinaliza. 

Privatizações dividem candidatos

A privatização da Cemig também provocou confronto. Questionado por Cleitinho, Gabriel Azevedo afirmou ser contrário à privatização da companhia. Para ele, a empresa já estaria passando por um processo de privatização e não deveria ser transformada em espaço de indicações políticas.

Gabriel defendeu que a Cemig amplie sua atuação junto a pequenos produtores e apontou a exploração de lítio e os investimentos em universidades e pesquisa como oportunidades para o desenvolvimento econômico de Minas Gerais.

O candidato também criticou a possibilidade de privatização da Copasa. Azevedo afirmou ser contrário à medida e demonstrou preocupação com possíveis impactos sobre as tarifas de água e esgoto. Roscoe, por outro lado, defendeu a privatização da companhia como uma alternativa para melhorar o saneamento e permitir que municípios busquem outras opções de prestação do serviço.

Mesmo não tendo participado do debate, segundo Vasconcelos, o candidato que apresenta contraposição direta a esse projeto é Patrus Ananias, que já se posicionou publicamente contra as privatizações das empresas públicas mineiras, e tem dialogado com as comunidades impactadas pela mineração para construir propostas de soberania popular no setor e defesa do meio ambiente. 

Mineração e Serra do Curral

A atividade mineradora foi outro ponto de divergência. Gabriel Azevedo questionou Flávio Roscoe sobre a mineração na Serra do Curral e criticou a retirada de minério na região.

Roscoe defendeu a importância econômica da mineração para Minas Gerais, mas afirmou que atividades irregulares devem ser punidas. O candidato disse que o estado precisa diferenciar empresas que atuam dentro da legislação daquelas que cometem irregularidades e defendeu uma mineração sustentável, além de defender que a flexibilização dos processos de licenciamento. 

Estradas, saúde e educação

A precariedade das estradas mineiras apareceu em outro momento do debate. Questionado por Roscoe sobre o problema, Mateus Simões reconheceu a existência de um déficit de investimentos e afirmou que seria necessário aplicar pelo menos R$ 4 bilhões para enfrentar a situação. Roscoe afirmou que as estradas seriam uma prioridade de seu eventual governo.

Na saúde, Roscoe defendeu a descentralização dos serviços de alta complexidade, com ampliação de equipamentos e leitos de UTI no interior. Na educação, Cleitinho prometeu nomear uma secretária que seja servidora de carreira do estado, além de ampliar investimentos nas escolas e políticas de saúde mental para professores.

O debate também abordou a situação dos trabalhadores de aplicativos. Questionado por Gabriel, Kalil afirmou que, durante sua gestão na Prefeitura de Belo Horizonte, promoveu reuniões entre taxistas e trabalhadores de aplicativos para buscar soluções para os conflitos provocados pelo avanço dos serviços de transporte por plataformas digitais.

IPVA e incentivos fiscais

A cobrança do IPVA também gerou discussão. Cleitinho reafirmou sua proposta de impedir a apreensão de veículos por falta de pagamento do imposto. Questionado sobre o impacto da medida para os municípios, afirmou que a proposta não significa acabar com o IPVA e que os recursos continuariam sendo repassados.

Os incentivos fiscais concedidos pelo Estado também foram alvo de questionamentos. Kalil reconheceu a existência de benefícios, mas argumentou que alguns deles estão relacionados à geração de empregos, citando uma situação no Sul de Minas que envolveria cerca de 10 mil postos de trabalho.

Roscoe defendeu os incentivos e afirmou que considerá-los simplesmente como um problema seria resultado de desconhecimento sobre seu funcionamento. Segundo ele, os benefícios são utilizados como mecanismo para atrair investimentos para Minas Gerais.

Confrontos diretos

Na reta final do debate, os candidatos intensificaram ataques. Cleitinho também declarou apoio a Flávio Bolsonaro (PL) para a Presidência da República, afirmando que não está neutro na disputa nacional.

Kalil e Mateus Simões trocaram acusações sobre possíveis irregularidades. Questionado sobre a declaração do governador Romeu Zema de que não teria havido corrupção em seu governo, Simões afirmou que sempre existem casos de desvios e que pessoas envolvidas foram demitidas. O candidato também citou processos contra Kalil relacionados ao uso de aviões para fazer jogos. O ex-prefeito negou as acusações e afirmou não responder a processos por corrupção.

Ao final, temas como cirurgias eletivas, juventude, terras raras e infraestrutura ferroviária também foram abordados. Sobre as terras raras, Gabriel Azevedo defendeu investimentos em universidades e pesquisa para que Minas não se limite à extração e exportação de seus recursos minerais.

Saldo do debate

Segundo Vasconcelos, ao que tudo indica, assim como em 2022, as eleições deste ano serão polarizadas entre a extrema direita e o campo democrático. 

“Minas Gerais é um estado central nas estratégias eleitorais de Lula e de Flávio Bolsonaro, por ser o segundo maior colégio eleitoral do país, e possuir uma diversidade cultural, econômica e regional que se assemelha a um retrato do Brasil. Desde 1955, todos os presidentes eleitos também foram os mais votados em Minas”, explica. 

Para ela, o primeiro debate foi um debate atípico, em razão da ausência de Patrus Ananias, candidato do campo da esquerda democrática e apoiado por Lula, que lidera todas as pesquisas eleitorais para a presidência. 

“Como consequência, acredito que o sentimento que ficou para os eleitores foi de incompletude, já que só foram evidenciadas as propostas da extrema direita e da direita”, resume.   




Brasil de Fato

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