Feijão-de-corda Enrica-Homem: já ouviu falar dele?


Feijão-de-corda Enrica-Homem, fava Mini-Galo-de-Campina, mandioca Cambadinha, feijão vagem Jaguatirica. Esses são alguns dos nomes de sementes crioulas existentes no Brasil. Cultivadas em sistemas agroecológicos, são consideradas patrimônio genético de agricultores que preservam e multiplicam essas variedades, chamados de guardiões de sementes crioulas.
A publicação “Sementes da Resistência: catálogo de sementes crioulas dos territórios de atuação do Movimento dos Pequenos Agricultores em Alagoas”, publicado em 2024 pelo Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e Embrapa, reúne 47 variedades crioulas que foram batizadas por seus guardiões.
“Tais denominações estão relacionadas às características morfológicas das plantas, aos locais de origem das sementes e ao conjunto de conhecimentos tradicionais associados à produção, aos usos e às qualidades desses materiais, que resultam do manejo desta agrobiodiversidade ao longo das gerações”, explicam os autores.
O feijão-de-corda Enrica-Homem é uma das variedades apresentadas na publicação. Semente da comunidade Lagoa da Coroa, de Estrela de Alagoas, tem como características “produzir bem e por bastante tempo”, o que justifica o nome. Apreciado na alimentação, é usado no preparo do baião-de-dois e do tropeiro, com excelente aceitação no mercado.
Fernando Curado, pesquisador da Embrapa Alimentos e Territórios e um dos organizadores do catálogo, diz que os guardiões preservam a história de cada semente. “É uma característica de quem protege, de resistência, e isso tem uma relevante dimensão cultural”.
Ele comenta que esses agricultores convivem tradicionalmente com essas sementes e apresentaram a demanda de registro das variedades, o que resultou na publicação. “É uma forma de dar visibilidade a essa riqueza, considerando que as sementes são um patrimônio da humanidade”, destaca.
No catálogo estão registradas variedades com nomes curiosos, como fava Branca-do-Umbuzeiro, fava do Padre, fava Orelha-de-Velho, feijão Fogo-na-Serra, feijão-de-corda Corujinha, feijão-de-corda Sempre-Verde, milho Dente-de-Burro, batata-doce Vitória, batata-doce Coração-de-Negro e abóbora de leite de Eunice.
A elaboração do documento integra o Projeto Segurança Alimentar e Nutricional e de Geração de Renda para agricultores familiares, povos e comunidades tradicionais do Semiárido brasileiro e foi desenvolvido por meio de oficinas nas comunidades.
“Além das visitas in loco para o registro em foto e vídeo, o catálogo valoriza o papel dos guardiões e guardiãs, impulsiona a dinâmica de conservação das sementes e fortalece os processos de intercâmbio como as feiras e festas para troca de materiais”, acredita Curado.
Patrimônio coletivo
No Paraná, a guardiã de sementes crioulas Ana Andréa Jantara cultiva grãos e plantas e coordena a Casa de Sementes Crioulas Urbanas de Palmeira, nos Campos Gerais. Ela divulga periodicamente o catálogo com os materiais disponíveis no local, onde descreve as variedades e apresenta as suas principais características.
Ana Andréa Jantara coordena a Casa de Sementes Crioulas Urbanas de Palmeira, no Paraná
Arquivo pessoal
Entre as histórias preservadas e registradas pela produtora e guardiã está a do milho boliviano preto, que ela obteve em uma feira de sementes em Juti (MS). Andréa conta que mantém a variedade no banco de sementes da Casa há oito anos. “É uma semente que se destaca pela cor preta brilhante. Dos grãos se faz um tipo de bebida chamada Chicha Morada”, conta.
Também estão catalogadas sementes como feijão vagem preto Prudentópolis (município paranaense que é a Capital Nacional do Feijão Preto), fava Conceição, fava branca Raio de Sol, feijão Santo Expedito, feijão Borboleta e muitos outros. São encontradas na casa de sementes, ainda, inúmeras flores e frutos.
Andréa participa de festas e feiras durante o ano todo, a fim de trocar e vender os materiais. “É uma forma incrível de acesso a toda essa diversidade e a essas redes que multiplicam sementes, afetos e autonomia”, ressalta.
Para a professora Lia Maris Antiqueira, líder do grupo de pesquisa, ensino e extensão em Conservação da Natureza e Educação Ambiental (Conea), do campus Ponta Grossa da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), as sementes crioulas não são apenas material genético. “São patrimônio biocultural, carregando saberes, práticas e valores culturais passados de geração em geração pelos guardiões. Eles têm um papel fundamental no trabalho de perpetuar essa cultura”.
João Henrique Silva Vera, diretor do Educandário Humberto de Campos, na área rural de Alto Paraíso (GO), na Chapada dos Veadeiros, mantém um banco pedagógico de sementes crioulas na instituição. Todos os materiais são registrados por meio de uma ficha técnica, a fim de identificar as variedades.
Banco pedagógico de sementes crioulas do Educandário Humberto de Campos, em Alto Paraíso (GO)
Arquivo pessoal
Ele conta que busca transmitir aos estudantes – filhos de agricultores familiares da região – e à comunidade, por meio de feiras e eventos, a importância do trabalho dos guardiões de sementes presentes na região. “Quem preserva a diversidade das sementes crioulas protege o futuro da humanidade”.
Para Vera, essas sementes são tecnologia biológica desenvolvida pela natureza e aperfeiçoada pelos agricultores durante séculos, desenvolvendo resistência à seca, tolerância a solos pobres, adaptação ao calor e outras características fundamentais para a manutenção da produção de alimentos no atual cenário de mudanças climáticas.
Conheça alguns nomes de sementes crioulas
No Semiárido:
Abóbora de Leite de Eunice
Batata-doce Coração-de-Negro
Batata-doce Vitória
Fava Branca-do-Umbuzeiro
Fava Chitadinha
Fava do Padre
Fava Mini-Galo-de-Campina
Fava Orelha-de-Velho
Feijão-de-corda Corujinha
Feijão-de-corda Enrica-Homem
Feijão-de-corda Sempre-Verde
Feijão Fogo-na-Serra
Feijão vagem Jaguatirica
Mandioca Cambadinha
Milho Dente-de-Burro
No Paraná:
Alface Orelha de burro
Bucha Bengala
Fava Branca Raio de Sol
Fava da Moita
Fava Conceição
Fava Flamengo
Feijão Borboleta
Feijão vagem preto Prudentópolis
Feijão vagem de metro Dona Geni
Feijão vagem Jaguatirica
Feijão vagem Pele de Vaca
Feijão Santo Expedito
Milho Boliviano Roxo
Porungo Dinossauro
Tomate Acordeon
Fontes: “Sementes da Resistência: catálogo de sementes crioulas dos territórios de atuação do Movimento dos Pequenos Agricultores em Alagoas” e Catálogo de Sementes Crioulas Urbanas – Palmeira (PR)
Globo Rural


