Flávio invoca pai e Lula apela para soberania em atos inaugurais de campanha

Os dois principais candidatos na disputa presidencial deste ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), deram início às suas campanhas neste domingo em eventos com tons diferentes, mas ambos com acenos às suas trajetórias.
Em São Bernardo do Campo, seu berço político, Lula focou na defesa da soberania nacional e das pautas trabalhistas. Enquanto isso, Flávio apostou no resgate da memória de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, ao escolher a praia de Copacabana, local muito utilizado para os atos políticos dele, além de destacar o apoio a pautas conversadoras.
O ato de Lula foi fortemente marcado por um tom de recordações e saudosismo da época em que ele era líder sindical, com exposição de vídeos e imagens antigas, em preto e branco, e efeitos de edição para deixar as imagens da transmissão ao vivo também na mesma tonalidade.
O estádio da Vila Euclides, onde o evento foi realizado, é um palco político histórico para o petista, já que foi lá onde, em 1979, durante o governo ditatorial do general João Figueiredo, o sindicato dos metalúrgicos do ABC Paulista, do qual era diretor, fez uma série de manifestações trabalhistas e mobilizou a Grande Greve do ABC Paulista.
O presidente aproveitou a situação para retomar o discurso em torno da luta de classes, destacando sua própria trajetória. “É preciso gostar de política, porque o país é governado por quem gosta. Não podemos passar o ano inteiro reclamando dos patrões e, nas eleições, eleger um patrão. É como colocar uma raposa para cuidar das galinhas dentro de um galinheiro”, criticou.
Com a bandeira do Brasil sendo exposta em diversos momentos, o evento teve a execução do hino nacional, feita pela cantora Fafá de Belém, e fogos de artifício coloridos em verde e amarelo. Desde o ano passado, o governo federal e o PT tentam resgatar o uso da bandeira nacional, que nos últimos anos ficou vinculada ao bolsonarismo.
Lula também aproveitou para falar de segurança pública, que é tida como uma pauta difícil para a esquerda, e defendeu a aprovação da PEC da Segurança Pública, que está no Senado.
“Quem manda no crime organizado está morando em coberturas, não nas favelas. Temos que acabar com isso. Se for aprovada a PEC da Segurança Pública, vamos libertar o povo prendendo todo mundo que acha que é dono de uma favela ou um bairro pobre. Eu quero mudar o país, mas primeiro tenho que mudar a Constituição”, disse.
Senador aposta em continuidade do pai
Flávio, por outro lado, reeditou o formato das manifestações que eram convocadas por Bolsonaro, seu maior cabo eleitoral, que está impedido de participar da eleição por estar em prisão domiciliar para cumprir a condenação na trama golpista.
Áudios antigos do ex-presidente foram colocados para tocar nas caixas de som mais de uma vez ao longo do evento. Flávio dedicou um desses momentos ao pai, que segundo ele assistiu ao ato pela televisão, e puxou gritos de “Volta, Bolsonaro”. “Eu te amo, pai”, declarou-se.
O filho do ex-presidente procurou se apresentar como a continuidade do projeto político do ex-presidente, o que deve ser o norte de sua campanha. “Não dá para comparar o filho do Pelé com o Pelé, mas eu aceitei essa missão”, disse.
Até os slogans “Deus, pátria, família e liberdade” e “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” foram usados no evento.
“Bolsonaro nunca foi ameaça para a democracia. Pelo contrário. Nós somos o último obstáculo para que este país não virasse uma ditadura”, disse o senador. “O Brasil vai vencer porque eu vou indicar quatro ministros do STF. Homens e mulheres que serão contra o aborto, contra as drogas, que não vão perseguir adversários políticos e vão respeitar a Constituição”, completou.
O senador também sinalizou os pilares que pretende explorar na campanha: segurança, economia e corrupção. “Eu vou tratar PCC, CV e milícia como organizações terroristas”, prometeu Flávio, que em seguida falou do endividamento das famílias e dos escândalos do Petrolão, Mensalão e das fraudes no INSS.
Flávio se comprometeu com uma lista de pautas controversas: redução da maioridade penal, castração química de estupradores, voucher para creches privadas e mudança do currículo escolar.
Sob drones que sobrevoavam a avenida Atlântica, bandeiras do Brasil – e algumas dos Estados Unidos – tremulavam nas mãos de apoiadores vestidos de verde e amarelo. O hino nacional embalou o evento assim como uma miríade de jingles para todos os gostos – do funk e do sertanejo ao rap. A participação dos bolsonaristas, no entanto, foi bem mais modesta do que aquela vista nos atos liderados pelo pai na orla de Copacabana.
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