Folha lança GPS Partidário 2026, análise de dados que mostra posição política na prática

A Folha lança neste domingo (6) o GPS Partidário 2026, análise que situa os partidos brasileiros da esquerda à direita a partir da vida prática da política, não do que cada legenda declara ser.
Ela mostra a proximidade entre 29 siglas a partir de cinco tipos de informações públicas: votação no Congresso, formação de frentes parlamentares, coligações, mudanças partidárias e doações eleitorais.
Ao fim, exibe uma régua com a distância entre os partidos, indo da esquerda à direita. A metodologia foi balizada com outros estudos brasileiros.
Foram analisadas 1.097 votações, 320 frentes, 11,2 mil trocas de sigla, 15,6 mil coligações e 1,1 milhão de doadores, cobrindo 29 das 30 siglas em atividade, considerando as datas mais atualizadas.
O PCO (Partido da Causa Operária) é o único que ficou fora da régua: não elegeu deputado, nunca dividiu chapa com outra sigla e fica abaixo dos cortes mínimos de trocas e de doadores, então não há comportamento público suficiente para medi-lo.
O sistema partidário brasileiro é um dos mais fragmentados do mundo. Não é simples saber a posição de cada sigla no mapa político, ainda mais com as fusões, incorporações e mudanças de alianças que acontecem em poucos anos.
O desafio aumenta quando o posicionamento oficial de uma legenda não condiz com a maneira com que seus representantes votam ou tomam outras decisões. Cada uma das cinco medidas traz um viés próprio: o plenário mede também governismo; as chapas, conveniência. Mas cada um distorce só o seu registro, enquanto a ideologia permeia todos. Combinadas as medidas, os vieses se diluem.
Se em votações como a da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil houve unanimidade, em outros casos, como o de pedido de urgência para votar anistia aos condenados pelo 8 de Janeiro, a divisão foi clara. Enquanto todos os deputados do PL e do Novo foram a favor, todos do PT e do PSOL foram contrários.
Na formação das frentes parlamentares, a Contra o Aborto e a dos CACs (Colecionadores, Atiradores desportivos e Caçadores) atraem a ponta mais conservadora da régua, com presença desproporcional de PL e Novo, enquanto as frentes Ambientalista e de LGBTI+ chamam agremiações como PV e Rede.
Nas alianças eleitorais, partidos ideologicamente próximos, como Mobiliza e Avante, se coligam bem mais do que o tamanho de cada um sozinho explicaria.
Na migração partidária, PSDB e União Brasil não se atraem nem se evitam; o que os aproxima é que seus candidatos vêm dos mesmos partidos e saem para os mesmos partidos.
Nas doações eleitorais, quem contribui para o PCB tende a doar para o PSOL, nunca para o Novo.
O GPS Partidário não mede a doutrina que cada partido professa, mede o que ele faz.
A metodologia, que está em sua terceira edição, fundamenta as cores que a Folha atribui a cada partido político e permite agrupar as siglas nas análises de dados do jornal, dimensionando a proximidade entre eles a cada eleição.
O GPS de 2026 foi adaptado para fotografar melhor o ciclo atual. Uma das mudanças é a forma de decidir onde termina a esquerda e onde começa a direita. Antes, cada campo ficava com um número parecido de partidos; agora, cortes têm como referência levantamento acadêmico em que cientistas políticos deram nota aos partidos.
A métrica de 2022 combinava sete fatores, incluindo pesquisas acadêmicas e o GPS Ideológico das redes, que foi descontinuado diante das restrições à coleta de dados na plataforma X. Já o GPS de 2024, das eleições municipais, usava quatro comportamentos (não tinha o critério de doações).
Apesar das diferenças metodológicas, há alto nível de concordância entre as réguas.
O que o indicador mede: o voto parlamentar que aparece no painel do plenário.
Na atual legislatura, de janeiro de 2023 a julho de 2026, a Câmara registrou 1.097 votações nominais. O critério inclui 565 deputados que tiveram participação acima de 10%.
O sim do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) à urgência da anistia é um desses registros, que equivale a um quadrado verde no gráfico abaixo. Empilhados numa tabela de deputados por votações, os registros somam 620 mil quadrados.
A reordenação da tabela apenas juntando os deputados que votam parecido, sem usar informação sobre partido, evidencia uma estrutura de três blocos.
Da esquerda para a direita: 121 deputados de partidos como PT, PSOL, PCdoB e PSB; 302 de siglas como União, PSD, Republicanos, MDB e PP, o chamado centrão; e 142, dois terços deles, de PL e Novo.
Na maior parte das votações, o bloco da esquerda e o centrão votam juntos com o governo: 423 deputados contra 142 da oposição.
Da reordenação, a reportagem gerou um número por deputado: quem vota parecido recebe números próximos. A conta é feita por um modelo estatístico de pontos ideais, usado há 40 anos para medir o Congresso dos Estados Unidos.
Numa escala em que 0 é o deputado mais à esquerda e 100 o mais à direita, o deputado do meio da bancada do PT fica em 7, e o do MDB, em 33; o do PL fica em 68, e o do Novo, em 78. O que importa são as distâncias: nas votações desta legislatura, o MDB fica mais perto do PT do que do PL.
O que o indicador não enxerga: o plenário é território do governo, então a régua mede, em boa parte, apenas a relação de cada deputado com o Planalto.
É das negociações com o Executivo que se escolhe boa parte do que vai a voto. É por elas também que se retribui a lealdade com cargos e emendas.
Nas 1.097 votações analisadas, 9 em cada 10 votos (91,5%) saíram como o líder do partido orientou. Antes de separar esquerda e direita, esse mapa separa governo e oposição.
Refeito o cálculo para os anos do governo de Jair Bolsonaro (PL), o centrão estava do outro lado do mapa, colado ao PL e ao PSL, a antiga sigla que elegeu o então presidente. O Novo aparecia no meio, ao lado do MDB, porque se opunha em parte da pauta. Esses partidos não atravessaram o espectro, quem trocou de lado foi o governo.
Em 2026, governo Lula (PT), o centrão aparece mais perto da esquerda nas votações do que nos outros indicadores analisados neste GPS.
De 1.014 votações com quórum, só em três as duas pontas da régua votaram juntas e o meio votou do outro lado. Um exemplo é o requerimento que tentava tirar da pauta o projeto de aumentar as cadeiras da Câmara de 513 para 531. Votaram para tirar da pauta PT (39 a 16), PSOL (12 a 0), PL (60 a 24) e Novo (5 a 0); votaram para manter a pauta MDB, PSD, PP, União e Republicanos. O requerimento caiu por 200 a 254, o aumento passou, e o presidente Lula (PT) vetou o texto.
Frentes parlamentares
O que o indicador mede: A assinatura dos deputados nas 320 frentes parlamentares para representar uma causa ou um setor. A análise não posiciona cada deputado, mas os partidos.
Frentes parlamentares não têm orçamento nem poder formal. Para criar uma, bastam as assinaturas de um terço do Congresso, uma ata e um representante. Como toda frente nasce de 198 assinaturas, criou-se um mercado de gentilezas: o deputado assina a lista do colega esperando a retribuição quando criar a sua.
No papel, um deputado típico soma mais de cem assinaturas. Quando uma pesquisa ouviu 6 em cada 10 congressistas e perguntou de quais frentes cada um participava de verdade, com presença nas reuniões, a média não chegou a duas. Poucas frentes, como a da agropecuária, têm reunião semanal e estrutura própria.
Esquerda e direita aparecem, em boa parte, em conjuntos de temas: renda, minorias e ambiente de um lado; mercado, armas, agro e costumes do outro. No meio, sem lado definido, estão frentes como a da Defesa da Indústria Têxtil, a do Combate à Violência em Ambiente Digital e a da Relação Brasil-China.
A fatia do PT vai de 35% na frente de Direitos LGBTQIA+ a zero na Contra o Aborto; a do PL faz o caminho inverso, de quase nada a 47%. Já PSD, Republicanos e União assinam dos dois lados da régua em proporções parecidas.
As pontas das réguas tanto de votação quanto de frentes coincidem: PT de um lado, PL e Novo do outro. Já o miolo varia o suficiente para atravessar a régua inteira. MDB, PSD, PP, União, Republicanos e Podemos aparecem à esquerda quando o critério é voto no plenário e à direita quando o critério é assinatura de frente parlamentar.
Não é uma contradição. Uma votação registra apoio ou oposição ao governo do momento; uma assinatura registra afinidade de tema. O centrão governa com quem está no Planalto e assina com quem pensa parecido.
Nas dez frentes mais à esquerda da régua, PL e Novo respondem por 5,1% das assinaturas, um quarto da fatia que têm no conjunto das 320 (20,8%). Nas dez mais à direita, PT, PSOL, PCdoB e Rede respondem por 0,3%, contra os 16,5% que têm no conjunto.
No plano individual, sobram contradições: 41 deputados assinaram ao mesmo tempo a Frente pelo Livre Mercado e a Frente pela Reestatização da Eletrobras, as duas sobre a mesma empresa e sem meio-termo possível. Metade dos 41 é do PL, do PP e do Republicanos.
Trocas de partido
O que o indicador mede: a mudança de sigla de quem disputou duas eleições seguidas, comparando cada candidatura com a eleição imediatamente anterior: 2024 com 2022, e 2026 com 2024. Foram 21,4 mil casos de candidatos em pleitos consecutivos, e em pouco mais da metade (11,2 mil) houve mudança de sigla.
Desde 2022, 176 candidatos deixaram o PT. Os principais destinos foram PDT (23) e PSB (22), seguidos de MDB, Rede e Republicanos (12 cada). Duas pessoas foram para o PL e duas para o Novo.
Do União Brasil saíram 763: 106 foram para o PL, seguido de Podemos (76) e Republicanos (75).
O número absoluto reflete que partido grande atrai mais gente: de cada 100 políticos que trocaram de sigla no país, 9 foram para o PL, 8 para o Republicanos e 7 para o MDB, enquanto 1 foi para o PSOL.
Se o destino fosse sorteado, cada partido receberia migrantes na proporção do que recebeu no país inteiro: o PL, que ficou com 9 de cada 100 que trocaram de sigla, ficaria com 9 de cada 100 que saíram do PT. Nesse cenário, a troca de partido refletiria apenas o tamanho das siglas, não a afinidade entre elas.
O maior déficit da tabela está entre Novo e o PT, com 18 trocas ocorridas para cada 100 esperadas pelo tamanho das siglas. PSDB e União Brasil, vizinhos na régua composta, trocam candidatos entre si exatamente na chamada taxa do acaso (72 trocas, contra 72 esperadas).
Integrar a base do governo federal dobra a atração de uma sigla, estar no partido do governador pesa mais, sobretudo para quem depende de redutos mais pobres. Contam também o dinheiro em caixa e a chance de se eleger, como mudar para um partido que supera o quociente eleitoral com folga.
Das 11,2 mil trocas de partido, só 25 atravessaram a régua inteira, 2 em cada mil. Cinco pessoas saíram da Rede para o PL, quatro do PRTB para a Rede, três do PL para a Rede, duas do PT para o Novo, duas do PSOL para o PL, uma do PL para o PT.
O que o indicador não enxerga: o motivo da troca. Uma mudança pode ser motivada pela convicção, pela janela partidária que abre a cada quatro anos, pelo fundo eleitoral de R$ 4,9 bilhões, ou uma briga com o diretório municipal.
Coligações partidárias
O que o indicador mede: o conjunto de siglas que se uniram para registrar o mesmo candidato para um cargo majoritário. Entrar numa coligação é aceitar governar junto.
São consideradas as 15.361 chapas formadas em 5.569 cidades para as eleições de 2024, além de 278 chapas compostas para os cargos majoritários de 2026. Por serem menos vagas em disputa, os dados de 2026 correspondem a menos de 2% do total.
O gráfico interativo abaixo mostra como os partidos coligam entre si.
Duplas grandes, como MDB e PSD, PL e União ou PDT e PT, dividem muitas chapas, mas na taxa do sorteio: nada além do que seus tamanhos preveem. As preferências nítidas estão nos partidos pequenos, que se juntam até cinco vezes mais que o esperado. As recusas também aparecem: PT e PL dividem chapa a um décimo da taxa esperada, PL e PSOL a 0,04, e Novo e PT não dividiram nenhuma.
O PSTU é o caso extremo: o que o joga na ponta não é aliança, é isolamento. Das 53 chapas em que aparece, 52 foram de partido único, e a única partilhada no país inteiro foi com PSOL e Rede.
Do outro lado do espectro, o União não tem parceria preferencial à direita, já que nenhuma dupla chega a uma vez e meia a taxa do acaso. O que o mantém naquele lado é a recusa do outro campo: dividiu chapa com o PSOL só em 43 municípios, quando o acaso previa 179.
A vantagem de dividir uma chapa de prefeito mudou nos últimos anos. Até 2018, dois partidos coligados somavam os votos dos seus candidatos a vereador na conta do quociente eleitoral, e esse era o maior atrativo de se aliar.
Desde 2020, no entanto, cada sigla concorre sozinha à Câmara Municipal. Restaram o tempo de rádio e televisão, que cresce conforme a bancada dos partidos reunidos na chapa, e o fundo eleitoral, que os coligados podem gastar em conjunto. Uma sigla que entra em chapas cheias, em muitas cidades, acumula parcerias sem que isso signifique preferência ideológica.
O que o indicador não enxerga: o motivo de cada chapa. O palanque municipal é o mais pragmático dos cinco registros: uma sigla que entra em chapas cheias, em muitas cidades, acumula parcerias que dizem mais sobre conveniência local do que sobre programa. Há ainda o caso das federações, em que a lei obriga a entrada conjunta nas chapas.
PT, PC do B e PV entram juntos nas 3.187 chapas do PT porque não podem entrar separados; o mesmo vale para PSDB e Cidadania, e para PSOL e Rede. Federar-se é uma escolha, e das mais fortes; mas é uma escolha só, que a lei repete em cada chapa. Por isso uma anotação a parte para esses casos, as linhas cinza nos gráficos.
Doações eleitorais
O que o indicador mede: cada doação de pessoa física para um candidato. Foram 1,4 milhão de doações nas eleições de 2022 e 2024 declaradas à Justiça Eleitoral, feitas por 1,1 milhão de CPFs diferentes, somando R$ 2,1 bilhões.
Não foram consideradas as doações de 2026 porque o prazo para prestação final de contas eleitorais termina em novembro.
A maior parte do dinheiro das campanhas antes vinha de empresas, modalidade proibida pelo STF (Supremo Tribunal Federal) em 2015. Em 2017, o Congresso criou o fundo eleitoral para financiamento e, hoje, 3 de cada 4 reais das campanhas saem dos fundos públicos.
O objetivo da régua não é medir a quantia destinada, e sim os gestos.
As vaquinhas eleitorais, legalizadas em 2017, fizeram com que metade das doações de 2022 fossem de até R$ 10. Doar deixou de ser coisa de empresário e virou o ato político de um milhão de eleitores.
Em 2022, a vaquinha de Jair Bolsonaro levou 386 mil doadores ao PL, a maior lista já registrada; em 2024, a de Pablo Marçal (PRTB), então candidato à Prefeitura de São Paulo, levou 96 mil ao partido. As doações são a única das cinco medições em que a sigla, nanica nas outras réguas, tem amostra grande.
Assim como a maioria dos candidatos nunca troca de sigla, 96 de cada 100 doadores financiam um partido só. Por isso entram na análise apenas os 47 mil que doaram a mais de uma sigla.
Como há maior probabilidade de dois partidos grandes dividirem mais doadores só por causa dos seus tamanhos, cada par é comparado, então, com o que aconteceria se o doador escolhesse suas siglas aleatoriamente. Se a escolha fosse sorteio, PT e PL teriam 2.600 chances de terem doadores em comum nas eleições de 2022 e 2024. Tiveram 440. Entre PSOL e PT, o sorteio previa 560; apareceram 3.500.
Dentro da esquerda, os pares de partidos dividem quase o triplo dos doadores que o acaso previa. Dentro da direita, a fidelidade ideológica é menor, só um quinto a mais que o aleatório.
O que o indicador não enxerga: o motivo de cada Pix. Desde a proibição da doação empresarial, famílias de donos de empresas repõem na pessoa física o que a firma doava. Na base, doa-se por convicção, pouco e para um lado só.
Entre quem fez duas doações somando até R$ 1 mil, só um em cada 100 financiou esquerda e direita ao mesmo tempo; entre quem fez 11 ou mais somando acima de R$ 100 mil, 52 em cada 100.
Como formamos a régua a partir das 5 medições
Para chegar ao resultado, a métrica tira a média não dos números de cada régua, mas de rankings, da posição de cada partido na fila. Isso porque as distâncias têm significados diferentes em cada escala.
A ordem muda pouco de uma régua para a outra. Os lados não variam: PSOL e PT à esquerda nas cinco, PL e Novo à direita. União e PSB aparecem perto deles, cada um de um lado, e MDB e PSD ficam sempre no meio.
As cinco medições não são totalmente independentes: são os mesmos partidos, no mesmo país, em janelas de tempo próximas, e votações e frentes compartilham em grande parte os mesmos deputados. Mas cada registro tem um viés próprio, e nenhum alcança os cinco.
O governismo pesa no plenário e respinga nas alianças, mas não assina frente, gesto feito longe do painel do plentário e do líder. A janela partidária e o fundo movem trocas, não votos. A régua das doações sai das escolhas de um milhão de eleitores, que não votam em plenário, não assinam frente e não montam chapa.
Quando cinco distorções produzem quase a mesma ordem, o que sobra em comum dificilmente é um viés específico. O que a concordância não garante é que esse fator comum se chame ideologia. Por isso a régua é comparada com outros estudos.
Outras pesquisas e onde cortar a régua
No Brasil, dois grandes estudos medem a distância ideológica entre os partidos, e a reportagem os utiliza como balizadores.
Em 2022, os pesquisadores Bruno Bolognesi (UFPR), Ednaldo Ribeiro (UEM) e Adriano Codato (UFPR) pediram a centenas de cientistas políticos que dessem nota de 0 (esquerda) a 10 (direita) a cada partido. Timothy Power (Oxford) e Cesar Zucco (FGV), na Pesquisa Legislativa Brasileira, ouvem os congressistas desde 1990 e pedem que posicionem os partidos dos colegas; a 9ª versão foi feita em 2021. A ordem que sai dos dois estudos é quase a mesma da metodologia do GPS (correlações de 0,90 a 0,93).
Há duas limitações para adotar essas escalas no uso diário. A primeira é a cobertura: na Pesquisa Legislativa, os autores só listam as siglas com bancadas relevantes. A outra é a data: os levantamentos não alcançam o Missão, registrado em 2025, o PRD, fusão de PTB e Patriota em 2023, nem mudanças de posição recentes.
No GPS, a régua composta vai do PSTU, em 1, ao Novo, em 98. O número, porém, não diz onde termina a esquerda e onde começa a direita: o cálculo mostra quem está mais à esquerda ou mais à direita de quem, mas não em que ponto alguém passa da “esquerda” para o “centro” e do “centro” para a “direita”.
Um exemplo ajuda. Imagine um sistema inventado com seis partidos: Stalinista, Leninista e Maoísta de um lado, Fascista, Nazista e KKK do outro. A régua os ordenaria da esquerda para a direita.
Uma divisão em três faixas de tamanho igual, dois partidos cada, entregaria um “centro” formado pelos dois partidos do meio da fila: o Maoísta, de extrema esquerda, e o Fascista, de extrema direita. Na leitura relativa, nada errado: o maoísta está mesmo à esquerda do fascista. Mas nenhum dos dois é de centro, logo, nesse sistema o centro simplesmente não existe.
O sistema partidário brasileiro não é esse, e nenhuma divisão produziria distorção tão gritante. Mas algo parecido, em algum grau, poderia acontecer.
Na edição de 2024, as faixas eram fatias de tamanho quase fixo do ranking, com três ou quatro partidos cada uma, caíssem os cortes onde caíssem. A regra assumia, portanto, que os campos do espectro brasileiro tinham tamanhos parecidos. Ela acertava a ordem, mas podia esticar ou encolher um campo. Por isso, nesta edição, o julgamento das fronteiras foi apoiado em quem estuda os partidos.
Para traçar as fronteiras, a reportagem usou o levantamento dos cientistas políticos: na escala de notas dele (de 0 a 10), o centro começa em 4,5, e a direita, em 7. A régua do GPS usa outra escala, e não existe conversão pronta entre as duas.
Para criar uma, a ponte são os partidos que aparecem nas duas: a nota e a posição de cada um desenham a relação geral entre as escalas, e é essa relação que mostra a que altura da régua equivalem o 4,5 e o 7. Os cortes caem em 37,2, entre PDT e MDB, e em 58,8, entre Mobiliza e PP.
Como a tradução é feita pelo conjunto, nenhum partido fica preso à própria nota. Um partido que era de “centro” no estudo, e que agora está no meio dos partidos de “direita”, caso do PSDB, muda de lado.
Adotar esses cortes muda o mapa: PP e Republicanos, que uma regra puramente estatística deixava no “centro”, ficam na direita, e a régua passa a concordar com os especialistas em 25 dos 28 partidos que eles avaliam.
Dentro de cada campo há três gradações, cortadas nos maiores vãos da régua; três é o padrão da paleta de nove cores da Folha.
Como fizemos
O GPS de 2026 é composto por cinco medições de comportamento público: votações, frentes parlamentares, trocas de partido, coligações e doações, combinadas pela média dos rankings, com dados da Câmara dos Deputados e do TSE.
A análise é feita com linguagem de programação R. O código, aberto e reproduzível de ponta a ponta, está em repositório público.
Colaboraram Marina Pinhoni, Paula Soprana, Nicholas Pretto e Vitor Antonio
Folha de São Paulo



