França, no fim, não tinha o grande time nos EUA; mas tem o grande comentarista

Responsável pela transmissão em inglês da Copa do Mundo para os Estados Unidos, a Fox apostou em um trio de ex-jogadores. Ancorados pela experiente apresentadora Rebecca Lowe, o francês Thierry Henry, o sueco Zlatan Ibrahimovic e o americano Alexi Lalas têm sido os responsáveis pelas análises das partidas, no formato mesa-redonda, antes delas, no intervalo e ao apito final.
Nos dias derradeiros do torneio, parece claro que o campeão de público e de crítica é Henry. Se ficou pelo caminho a seleção francesa, que vinha sendo aclamada em sua trajetória até as semifinais, um de seus ex-atletas se consolidou como o grande comentarista do Mundial para o público americano.
A performance ganhou efusivos elogios de veículos como The Athletic, braço esportivo do The New York Times, e The Guardian, tradicional jornal inglês.
O francês une senso de humor, um bom traquejo em frente às câmeras –ele já tinha experiência atuando em jogos da Champions League para outra emissora americana, a CBS– e conhecimento tático. Distante de um enfadonho tom professoral, tem exibido com clareza, com a ajuda de recursos gráficos, aspectos táticos dos jogos.
“Ele é muito bom nessa parte. Você vê direitinho o que ele quer mostrar no campo”, afirmou o publicitário Luciano Soares, 47, que vive em Newark e vem acompanhando a Copa na Fox. “Fora as pauladas que ele e o Ibra dão no Lalas, né? Dá até dó”, gargalhou.
O brasileiro se referia a um ponto que virou uma atração à parte nos debates. Henry, campeão do mundo com a França em 1998 e figura histórica do Arsenal, e Ibrahimovic, atacante de grande sucesso no futebol europeu, deixam claro que têm credenciais futebolísticas bem superiores às de Lalas, que passou a maior parte de sua carreira nos Estados Unidos e é lembrado pela sua participação na Copa de 1994, de barbicha e cabeleira.
“Pô, eu tinha na cabeça aquela imagem meio Raul Seixas, maluco beleza. Mas o cara é um bocó”, disse Soares.
Ele não foi o único com essa impressão. A análise de Aaron Tims no The Guardian teve o título “O aristocrata francês e o típico idiota americano: Henry x Lalas é a batalha mais envolvente da Copa do Mundo”.
“Entre os muitos talentos de Henry como comentarista está a consciência de que nem sempre é necessário falar alto para causar impacto. Lalas nunca diz nada de substância, mas, quando abre a boca, a futilidade que emerge é sempre entregue no volume máximo”, escreveu Tims.
Como foi ficando evidente ao longo do torneio, Henry e Ibrahimovic não se tornaram grandes amigos de Lalas. Houve até momentos em que eles petecaram uma bola no estádio, mostrando sua evidente superioridade técnica. Fez sucesso na internet uma finta executada pelo francês, que deixou o americano desconcertado.
Com o microfone, Zlatan se juntou a Thierry contra Alexis em várias discussões. E foi até mais agressivo. Questionado por Rebecca sobre a pressão dos atletas americanos jogando a Copa em casa, respondeu: “Todo o mundo está ficando um pouco nervoso, exceto eu e Thierry Henry, nós estamos acostumados ao grande palco”.
Bem a seu estilo, o sueco adotou frequentemente uma linha egocêntrica, mencionando seus tempos de jogador. Mas o contraste que chama mesmo a atenção se dá nas falas de Henry e Lalas.
Ajudam o francês, além do histórico em campo, seus trabalhos como treinador. Ele foi auxiliar da Bélgica nos dois últimos Mundiais, esteve à frente do Monaco e conduziu a equipe sub-23 francesa nos Jogos Olímpicos de Paris, em 2024 –seis dos atletas que dirigiu no torneio olímpico estão na Copa.
Após a vitória da França sobre Marrocos nas quartas de final, em Foxborough, o ex-atacante foi recebido no vestiário. Ganhou reverências de jogadores como Mbappé, Dembelé e Koné –este seu comandado em Paris– e um forte abraço do técnico Didier Deschamps, seu companheiro no triunfo de 1998.
“Thierry Henry foi um tremendo jogador. Quando ele fala sobre futebol, a experiência que teve, com tudo o que viveu, é inestimável. Obviamente, mais do que a maioria das pessoas, ele tem a capacidade de entender o que um jogador pode estar sentindo, por que um jogador fez algo naquele momento. E ele está sempre sorrindo, calmo. Saudações, Titi”, disse o treinador à Fox.
Henry é um dos nomes cotados para assumir o lugar de Jürgen Klopp –que tem um acordo para se tornar treinador da seleção alemã– como chefe global de futebol da Red Bull. Nessa função, ele comandaria a rede de clubes da empresa, supervisionando a captação e o desenvolvimento de talentos. Na de comentarista da Copa, poucos discordam, ele tem ido bem.
Esporte / Folha de São Paulo



