Hormuz, estreito da humilhação

Robert McNamara, secretário da Defesa entre 1961 e 1968, foi o arquiteto da escalada da Guerra do Vietnã. A literatura de relações internacionais investiga até hoje as engrenagens do processo decisório que conduziu ao maior fracasso de política externa dos EUA desde a Segunda Guerra Mundial. O desastre iraniano, no segundo governo Trump, merecerá atenção similar, mas por motivos diferentes.
McNamara operava sob um dogmatismo estratégico rígido, quase escolástico, imune à prova da realidade. Mas o mistério persiste: por que ele insistiu, ano após ano, na perseguição de uma vitória que sabia impossível?
Trump, pelo contrário, enxerga a geopolítica como transação comercial mafiosa. Na guerra contra o Irã, todas as decisões cruciais concentram-se no presidente, que opera no compasso de um oportunismo impulsivo, ritmado por ímpetos de fúria. Como resultado, move-se como biruta ao sabor da ventania.
McNamara persistiu numa guerra sem fim para evitar a humilhação do recuo. Iludido por Netanyahu, Trump engajou-se na sua guerra em busca da glória rápida mas, diante do abismo da humilhação, tenta dobrar a realidade por meio de truques amadores.
Armistício, um acordo situado acima do cessar-fogo e abaixo da paz, exige diplomacia profissional. O armistício de Panmunjom, na Coreia, em julho de 1953, que nunca gerou um tratado de paz, segue em pé mais de sete décadas depois. Já o Memorando de Entendimento (MoU), negociado às pressas com o Irã por Witkoff e Kushner, neófitos estafetas de Trump, ardeu em chamas em menos de um mês. O reinício das hostilidades não ocorre apesar do MoU, mas por causa dele.
Escrito para oferecer um alçapão de saída à Casa Branca, o acordo ancora-se na ambiguidade. Determina trânsito livre por Hormuz, mas apenas por 60 dias, e também entrega ao Irã a prerrogativa de garantir a navegação segura pelo estreito. Os iranianos leram o MoU como prelúdio do estabelecimento de soberania sobre a passagem vital, orientando as embarcações a seguirem pela rota norte e preparando um futuro pedágio. Navios que desobedecem sofrem bombardeio.
Diante de uma derrota com desonra, Trump declarou-se “guardião de Hormuz” e anunciou a cobrança de pedágio pelos EUA. Naquele momento, renegou a liberdade de navegação, mais antigo princípio da política externa americana, motivo das guerras contra os corsários bérberes (1801-15) e da ameaça à Dinamarca que provocou o fim do pedágio no estreito de Oresund, em 1857. Além disso, ofereceu um selo de legitimidade ao objetivo do Irã e colocou em risco as economias dos aliados do Golfo Pérsico. A previsível reversão confirmou um padrão: a palavra de Trump nada vale.
De volta ao passado recente. Sem alternativas, exceto uma impensável invasão terrestre, os EUA retomam os bombardeios e o bloqueio aos portos iranianos. Desesperado, Trump desistiu das maximalistas metas originais da guerra. Tudo o que quer, às vésperas das eleições, é minimizar o fracasso desonroso, obtendo ao menos a reabertura do estreito –ou seja, o status quo anterior ao conflito. Seu melhor recurso seria apelar, uma vez mais, como nas negociações do MoU, pelos bons ofícios da China.
As cenas da retirada caótica de Saigon, em 1975, sintetizam a herança de McNamara. Deixará Trump, como legado da infâmia, um pedágio iraniano em Hormuz?
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Folha de São Paulo



