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Investigações envolvendo Lulinha trazem de volta o tema corrupção para o centro da eleição

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Não será a primeira vez que Lula enfrentará uma campanha sob a sombra de investigações que atingem seu filho mais velho. Em 2006, quando disputava sua primeira reeleição, o presidente foi instado a explicar a ascensão meteórica de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha — de monitor de zoológico antes de o pai chegar ao poder a empresário de sucesso a partir dos primeiros anos de governo. Na época, o primogênito conseguiu que uma operadora de telefonia fizesse um aporte milionário a sua empresa. Vinte anos depois, a mesma suspeita de tráfico de influência volta a rondar o filho do presidente. Nas últimas semanas, a Polícia Federal instaurou três inquéritos para apurar se Lulinha facilitou o acesso de empresários ao governo federal em troca de pagamentos. Os procedimentos são sigilosos, mas já se sabe que entre os órgãos sob averiguação estão a Dataprev e o setor de compras do Ministério da Saúde. As investigações ainda estão em curso, mas a simples suspeita já causa grande constrangimento a um presidente da República que busca novamente a reeleição.

A Polícia Federal apura se Lulinha atuava em parceria com o lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o famoso Careca do INSS, mentor do escândalo do roubo das aposentadorias e que está preso desde setembro do ano passado. Uma testemunha-chave dos processos é Edson Claro, ex-diretor comercial da World Cannabis, criada em 2023 por Camilo Antunes. Claro disse à PF ter ouvido da própria boca do ex-chefe que o filho do presidente ganhava uma mesada de 300 000 reais para ajudar nos negócios junto a órgãos públicos. O dinheiro teria sido repassado a Lulinha por Roberta Luchsinger, empresária e lobista conhecida pelos laços com figurões do PT, particularmente com o filho mais velho do presidente (em depoimento à PF ela negou esses repasses).

NEGÓCIOS - Camilo Antunes, conhecido como o Careca do INSS, a lobista Roberta Luchsinger e o documento para fechar um contrato de 1 bilhão de reais junto ao Ministério da Saúde: escândalo do INSS interrompeu as tratativas (Lula Marques/Agência Braasil; @roberta.luchsinger/Instagram)

Um dos casos sob investigação apura uma possível atuação de Lulinha para favorecer o Careca do INSS em negócios ligados ao mercado de cannabis medicinal junto ao Ministério da Saúde. Em entrevista a VEJA, Edson Claro disse que revelou à PF em depoimento outra empreitada da dupla Lulinha-Careca do INSS junto à mesma pasta. Nesse caso, ela envolveria a venda de testes rápidos para identificar o vírus da dengue, um negócio de 1 bilhão de reais. Segundo Edson Claro, metade desse dinheiro iria parar no bolso do Careca do INSS e uma parte menor, mas não menos vultosa, seria transferida a uma conta criada para receber a comissão prometida ao filho do presidente, que não só teria aberto as portas do Ministério da Saúde aos parceiros como também teria atuado para viabilizar o negócio.

Ainda de acordo com o ex-executivo, o Ministério da Saúde já tinha dado o aval, a documentação que daria suporte à compra já estava toda preparada e os acertos financeiros devidamente combinados. Para provar o que dizia, Claro entregou à polícia mensagens de um grupo de Whats­App criado pelo Careca do INSS para trocar informações sobre o processo. O executivo também apresentou a minuta do “Termo de Referência” (TR) — o documento técnico preparado pelos órgãos públicos para justificar a necessidade de uma compra. Segundo o ex-diretor, o documento foi redigido no escritório da World Cannabis. A trama, se concretizada, nas palavras da testemunha, renderia 25 milhões de reais para o filho do presidente.

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A Hello Medical Japan concordou em fornecer os testes ao preço de 1,08 bilhão de reais, dos quais 577 milhões bancariam os custos e o restante seria dividido entre o lobista e os demais envolvidos na operação — Lulinha entre eles. Na lista da partilha do “lucro” também estariam políticos e servidores do Ministério da Saúde e da Anvisa. Diálogos em poder da polícia confirmaram que Camilo Antunes esteve no ministério pelo menos uma vez para tratar do negócio. O lobista era administrador de um grupo de WhatsApp chamado “Teste Rápido”. No dia 13 de janeiro de 2025, às 15h03, ele postou uma mensagem, acompanhada de sua localização. “Olá pessoal. Já estou aqui”, escreveu. Estava, de acordo com as coordenadas, no gabinete da então ministra Nísia Trindade. Na sequência, o lobista relata detalhes da conversa. Alguém que Camilo Antunes identifica apenas como “ele” teria sugerido, depois da conversa, uma estratégia para levar o negócio à frente. A reunião foi conduzida por Swedenberg Barbosa, o Berger, então secretário-­executivo do Ministério da Saúde e atual assessor do gabinete pessoal do presidente da República.

TESTEMUNHA - Edson Claro: o executivo forneceu detalhes dos negócios e vínculos da quadrilha que atuava no INSS com o senador Weverton Rocha (à dir.)
TESTEMUNHA - Edson Claro: o executivo forneceu detalhes dos negócios e vínculos da quadrilha que atuava no INSS com o senador Weverton Rocha (à dir.) (Reprodução; Carlos Moura/Agência Senado)

Claro disse a VEJA que prestou sete depoimentos à Polícia Federal, nos quais relatou todos esses detalhes. “Entreguei à PF as planilhas, mensagens e termos da licitação preparados na World Cannabis”, afirmou, confirmando ter relatado aos investigadores tudo que viu e ouviu do Careca do INSS sobre os contratos e pagamentos de comissões, inclusive sobre o valor que Lulinha receberia pelo negócio. “Prestei um depoimento inicial de doze horas e depois mais sete depoimentos que somaram umas oitenta horas”, explicou Edson Claro. “Falei sobre a comissão de 25 milhões que o Antônio disse que pagaria ao filho do presidente e também sobre o envolvimento de outras pessoas importantes, incluindo o senador Weverton Rocha”, acrescentou. Na terça-feira 4, a Polícia Federal realizou buscas na residência e em propriedades de familiares do senador, que é vice-líder do governo Lula. A suspeita é de que o parlamentar se locupletava com o esquema liderado pelo lobista que desviou 6 bilhões de reais dos aposentados do INSS.

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Os negócios em andamento com o Ministério da Saúde não se concretizaram por obra do acaso. Em abril de 2025, a Polícia Federal realizou a primeira fase da Operação Sem Desconto. A investigação, que mirava uma quadrilha que roubava as aposentadorias dos idosos, acertou em cheio Camilo Antunes, personagem até então desconhecido. No caso da pasta da Saúde, pelo que se sabe até o momento, Camilo Antunes havia contratado os serviços de Roberta Luchsinger, que apresentou Lulinha a Camilo Antunes. Os dois se tornaram amigos e, suspeita-se, sócios informais, inclusive viajando juntos ao exterior em meio ao processo de tentativa de venda ao Ministério da Saúde de medicamentos derivados da cannabis. Com os holofotes direcionados ao Careca do INSS após a eclosão do escândalo das aposentadorias, as promissoras empreitadas envolvendo medicamentos à base de cannabis e os kits de teste de dengue foram interrompidas.

CONSTRANGIMENTO - Marcola e Lula: ex-chefe de gabinete é investigado
CONSTRANGIMENTO - Marcola e Lula: ex-chefe de gabinete é investigado (Cristiano Mariz/Ag. O Globo/.)

Há ainda muito a ser esclarecido. O Ministério da Saúde disse a VEJA que é “papel dos gestores da pasta receber “representantes de diversos setores”. Procurada, a Hello Medical confirmou as tratativas com essa pasta para a assinatura do contrato de fornecimento dos testes. Giovanni Farago, diretor de vendas da empresa, no entanto, disse não se lembrar de detalhes do negócio. “Sei apenas que a World Cannabis era a responsável pelas tratativas em Brasília”, afirmou o executivo. Lulinha mudou-se para a Espanha um mês depois da revelação das fraudes do INSS. Os advogados garantem que ele nunca recebeu qualquer valor dos lobistas. Instado a comentar as suspeitas, Lula disse que acredita na inocência do filho. “Se ele tiver certo, vai ter ajuda minha. Se fizer coisa errada, sabe o que eu passei. Sabe o que é ver na TV te chamarem de ladrão”, ressaltou o presidente.

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Para ampliar as dores de cabeça do petista, a PF também está investigando um repasse de 249 000 reais feito por Roberta Luchsinger a Marco Aurélio Ribeiro, o Marcola, que chefiou o gabinete de Lula no Palácio do Planalto até o mês passado e saiu de lá para trabalhar no projeto de reeleição do petista. Em nota, ele afirmou que o dinheiro se refere a um empréstimo contraído e pago. Pressionado, afastou-se da coordenação de campanha do presidente na quarta 5. A polícia suspeita que o caso também envolve tráfico de influência.

Publicado em VEJA de 7 de agosto de 2026, edição nº 3007

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