Investir só no Brasil? Estratégia reduz retorno e eleva risco, apontam especialistas

Investidores brasileiros ainda mantêm um elevado grau de concentração doméstica em suas carteiras e acabam deixando passar algumas das maiores oportunidades globais de geração de riqueza, destacaram especialistas de investimentos internacionais em painel da Expert XP nesta quinta-feira (23).
Marina Valentini, estrategista de mercados globais no J.P. Morgan Asset Management, aponta, por exemplo, que o mercado de renda fixa americano é cerca de 20 vezes maior e 46 vezes mais líquido do que o brasileiro. No universo das ações, a diferença é ainda maior: 130 vezes maior e 40 vezes mais líquido.
Na avaliação da especialista, ao restringir seus investimentos ao mercado local, o investidor deixa de capturar movimentos importantes de criação de valor que acontecem em outras regiões do mundo.
Ela lembrou ainda que a composição do mercado global mudou profundamente nas últimas décadas. Enquanto as maiores empresas do mundo antes eram representadas por grupos mais tradicionais, como a Procter & Gamble, hoje o protagonismo está concentrado em companhias ligadas à tecnologia e inovação, como Apple, Nvidia e Amazon. No índice MSCI ACWI, que reúne ações globais, as empresas brasileiras representam apenas cerca de 0,4% da composição total, evidenciando a perda relativa de relevância do mercado local diante das transformações da economia mundial.
Artur Wichmann, CIO na XP Inc, reforçou o argumento afirmando que a diversificação internacional não apenas amplia o universo de oportunidades como também melhora a relação entre risco e retorno das carteiras. Segundo ele, a inclusão de ativos globais reduz correlações, diminui riscos específicos do Brasil e aumenta a eficiência dos portfólios. O mercado americano continua sendo a maior máquina de criação de riqueza do mundo, impulsionado por um processo contínuo de inovação e renovação empresarial.
Ao explicar esse fenômeno, Wichmann recorreu ao conceito de “destruição criativa”, formulado pelo economista Joseph Schumpeter.
Segundo Wichmann, nos Estados Unidos o capital é constantemente realocado de empresas menos eficientes para companhias que lideram novas ondas de crescimento econômico, como ocorreu recentemente com gigantes da inteligência artificial. Isso ajuda a explicar por que o mercado americano consegue manter níveis elevados de retorno ao longo do tempo.
Em contraponto, “no Brasil a gente congela tudo, o capital não é reciclado”, aponta o CIO da XP.
A inteligência artificial, aliás, apareceu entre as principais razões para olhar além das fronteiras brasileiras. Marina afirmou que a adoção da tecnologia ocorre em ritmo mais acelerado do que outras grandes revoluções tecnológicas do passado, como a internet e os smartphones.
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Citando Jensen Huang, presidente e CEO da Nvidia, Marina ressalta que a IA é um “bolo de 5 camadas” de investimentos, que envolve energia, chips, nuvem, modelos e aplicativos.
Na avaliação da especialista, a maior parte dessas oportunidades está localizada fora do Brasil, que está posicionado apenas em energia. Enquanto os mercados internacionais capturam valor em praticamente toda a cadeia da inteligência artificial, a participação brasileira estaria restrita sobretudo ao fornecimento de energia para suportar a expansão dos centros de dados e da infraestrutura tecnológica.
Planejamento financeiro: 15% é o número mágico?
Os debatedores também defenderam que a internacionalização das carteiras deve fazer parte do planejamento financeiro dos investidores. Embora tenham ressaltado que a alocação ideal depende dos objetivos de cada cliente, os especialistas citaram o percentual de 15% em ativos internacionais como um ponto de partida razoável para boa parte dos investidores. Em alguns casos, entretanto, essa exposição pode ser significativamente maior, especialmente para quem possui gastos futuros em dólar, como educação no exterior ou planos de residência fora do país.
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“Não é um número mágico. Se há muitos gastos, os filhos estão estudando em Harvard, a dolarização ideal pode ser de 50%”, apontou Wichmann.
De acordo com o especialista, quem olha de fora pode achar que quem coloca “100% do seu patrimônio num país que não é grau de investimento”, caso do Brasil, pode achar que o brasileiro adora o risco. Enquanto isso, os próprios brasileiros se consideram conservadores.
Marcelo Coscarelli, Head de International Private Wealth Management na XP, argumentou ainda que um dos erros mais comuns do investidor é enxergar investimentos no Brasil e no exterior como carteiras separadas. Para ele, o correto é pensar em um único patrimônio global. O especialista também afirmou que hoje praticamente não existem mais barreiras estruturais para investir internacionalmente, sendo os principais desafios a disciplina e a capacidade de manter a estratégia ao longo do tempo.
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Outro tema abordado foi o papel do dólar dentro do portfólio. Marina observou que a moeda americana historicamente funcionou não apenas como instrumento de proteção patrimonial, mas também como fonte adicional de retorno para investidores brasileiros, diante da tendência de depreciação do real no longo prazo. Além disso, destacou que a exposição cambial contribui para reduzir o risco agregado das carteiras, já que o real figura entre as moedas mais voláteis do mundo emergente.
Leon Goldberg, sócio de alocação, produtos e soluções de investimentos da XP, reforçou que muitos investidores ainda tentam encontrar o momento perfeito para remessas internacionais, mas os especialistas defenderam uma estratégia mais disciplinada, baseada em aportes recorrentes. Neste sentido, a consistência tende a produzir resultados melhores do que tentativas de acertar movimentos de curto prazo do câmbio.
Para Wichmann, investir globalmente não é uma aposta tática, mas uma decisão estrutural para quem busca mais retorno, menos risco e acesso às principais tendências da economia mundial. Remetendo ao slogan da Nike, o especialista destaca a importância do investimento internacional: “Just do it”.
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