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Japão respeitou demais o Brasil na Copa, dizem brasileiros que trabalharam no futebol japonês

O Brasil precisou de uma virada para vencer o Japão por 2 a 1, nesta segunda-feira (29), no estádio de Houston, e avançar às oitavas de final da Copa do Mundo.

Para três brasileiros que acompanharam de perto a evolução do futebol japonês nas últimas décadas, o resultado refletiu menos a diferença técnica entre as seleções do que a maneira como a equipe asiática encarou a partida.

“O Japão respeitou demais o Brasil. E que bom que fez isso. Eles tinham condição de fazer um pouco mais”, afirmou Zé Ricardo, que comandou o Shimizu S-Pulse em 2022 e 2023, à Folha.

Luis Flávio Buongermino conhece um Japão bem diferente daquele encontrado por Zé Ricardo.

Preparador físico da seleção japonesa que conquistou a primeira classificação do país para uma Copa do Mundo, em 1998, ele também trabalhou com Hajime Moriyasu quando o atual treinador japonês ainda era volante.

“A filosofia do Moriyasu é: se não puder ganhar, empata. Eles procuraram jogar por uma bola. Nos outros jogos não foi assim. Tocaram mais a bola, jogaram com mais confiança. Mas eu tinha plena confiança de que o Brasil ia passar”, disse.

Nelsinho Baptista, que passou quase duas décadas no futebol japonês e conquistou títulos da J-League (o Campeonato Japoonês) por Verdy Kawasaki e Kashiwa Reysol, também atribui a evolução da seleção à mudança de perfil dos jogadores.

“A mentalidade do jogador japonês cresceu bastante. Hoje eles são muito mais confiantes. Praticamente todos os jogadores da seleção atuam na Europa, muitos são titulares. Essa foi a principal mudança. E o Moriyasu já vai para a terceira Copa. É um treinador que conhece muito bem o futebol japonês e os atletas”, analisou.

Para os três, a criação da J-League, em 1992, mudou definitivamente o futebol do país. A distância para o Brasil diminuiu, mas não desapareceu.

“Há mais de duas décadas o futebol japonês vem evoluindo bastante. Existe um planejamento muito bacana, feito em 1992, quando foi criada a J-League. É um plano de desenvolvimento que tem muitas etapas e vai até 2050. O Japão não está crescendo à toa. Depois que passou a disputar Copa do Mundo, nunca mais ficou fora. A diferença entre Brasil e Japão nunca foi tão pequena”, analisou Zé Ricardo.

Buongermino acompanhou parte dessa transformação dentro da seleção japonesa. Para ele, a principal mudança aconteceu na formação dos atletas.

“Antigamente, era muito difícil um jogador japonês sair para atuar na Europa. Hoje eles ganharam experiência. Houve também uma mudança muito grande na preparação física. Eles passaram a entender que um melhor preparo físico traz um melhor desempenho técnico”, comentou.

Mesmo assim, Zé Ricardo disse que nunca acreditou em uma eliminação brasileira.

“Vejo o Brasil num crescimento muito legal nesta Copa do Mundo, apesar de todo o ciclo conturbado que nós tivemos. Eles ainda respeitam muito a nossa camisa, a nossa história. A vitória foi muito merecida.”

Buongermino afirmou que a partida teve um roteiro que ele já imaginava.

“O Japão começou com uma linha de cinco e, muitas vezes, fez duas linhas de cinco. Dificultou a entrada do Brasil. O Brasil teve mais posse de bola, mas pouca objetividade porque eles não deixavam criar. Estavam jogando por uma bola, esperando um erro do Brasil.”

Brasil equilibrado

A atuação brasileira agradou especialmente a Zé Ricardo. Para ele, foi a melhor da equipe de Carlo Ancelotti desde o início da Copa.

“Conceitualmente, acho que foi o melhor jogo do Brasil. Entendi e aprovei as poucas trocas que o Ancelotti fez. Casemiro é um cara de equilíbrio, principalmente na distribuição do jogo. O brasileiro tem essa característica de procurar herói ou bandido. Mas o Brasil ficou equilibrado o jogo todo.”

O treinador resume esse tipo de partida em uma expressão que costuma usar com seus jogadores.

“Jogos como esse precisam dos três ‘P’: paciência, posse de bola e bom passe. O Brasil teve isso. Equilibrou muito bem os seus momentos, sofreu muito pouco em contra-ataque. Merecia ter feito o gol antes”, analisa.

Nem a decisão de Carlo Ancelotti de deixar Neymar no banco o incomodou.

“Isso mostra todo o equilíbrio e o planejamento que a comissão técnica teve. Certamente, se fosse para a prorrogação, ele entraria. Naquele momento, era importante manter o equilíbrio e a posse de bola.”

Buongermino, contudo, fez uma ressalva sobre o funcionamento do ataque brasileiro.

“O encaixe entre meio de campo e ataque pode ser mais rápido. Os jogadores da frente precisam se movimentar mais para dar opção. O Vinicius [Junior] tinha sempre um na sobra. O Rayan, no primeiro tempo, jogou muitas bolas para trás. No segundo, melhorou.”

Nelsinho chamou a atenção para os erros cometidos, como o de Danilo, e também falhas em bolas aéreas.

“Nós não podemos cometer erros como os que cometemos. Ainda mais numa seleção brasileira. Sofremos um gol numa saída de bola contra um time que estava preparado para aproveitar exatamente esse tipo de espaço. O Brasil melhorou bastante no segundo tempo, mas precisa entrar nos próximos jogos com mais solidez, mais confiança e mais qualidade.”

A próxima partida da seleção será no domingo (5), às 17h. O rival sai do duelo entre Costa do Marfim e Noruega, nesta terça-feira (30).

Zé Ricardo prefere enfrentar a Costa do Marfim.

“Tem muito a ver com encaixe. A Noruega tem jogadores interessantíssimos, como Odegaard, Sorloth e Haaland. É um time muito forte fisicamente e com uma bola parada muito forte. Acho que seria um confronto mais complicado para o Brasil.”

Buongermino, por outro lado, acredita que a única seleção que pode desafiar o Brasil é a vizinha Argentina, atual campeão mundial e liderada por Lionel Messi.

“O único time que pode fazer frente ao Brasil é a Argentina. O Ancelotti é tranquilo, sabe o que faz. Eu acredito que nós vamos chegar [ao título].”


Esporte / Folha de São Paulo

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