Mercado de influências bate à porta do Palácio

Uma pessoa que tem a chave da agenda e do acesso ao gabinete do presidente da República não pode ter transações financeiras que requeiram explicação. Em circunstância alguma estaria autorizada a explicar seus atos como de natureza “estritamente privada”.
Tal recurso fica com jeito de tentativa de blindagem a fim de evitar os indispensáveis detalhamentos.
Enquanto esteve na chefia do principal gabinete do Palácio do Planalto, Marco Aurélio Ribeiro (Marcola) era pessoa de responsabilidade pública.
Por definição funcional e exigência específica do cargo, tinha o redobrado dever de se distanciar de quaisquer situações que pudessem gerar questionamentos. Não foi o que fez Marco Aurélio ao receber dinheiro de Roberta Luchsinger.
Tenham sido os ditos R$ 249 mil fruto de empréstimo ou de repasses para outros fins, certamente haveria fontes de recursos às quais recorrer que não alguém cujos negócios evoluem mediante o bom acesso a relevantes escaninhos governamentais.
Só aí já estaria estabelecido o limite da precaução.
Acrescentando-se o fato de a personagem ser amiga e parceira de um dos filhos do presidente (Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha), ter circulação livre no universo petista e atividades profissionais bastante conhecidas nesse ambiente, a passagem do sinal amarelo para o vermelho deveria ser automática.
Mas o então assessor palaciano de alta confiança não achou por bem informar ao chefe o que talvez tenha lhe parecido um detalhe. Ou terá informado e a versão de que o presidente só soube da transação há duas semanas é apenas mais uma justificativa da série “Lula não sabia de nada”?
Seja como for, não se trata, como fez circular o governo, de mero constrangimento nem de um negócio informal entre amigos, como tenta normalizar o próprio Lula.
Trata-se de algo bem mais grave, que requer esclarecimento definitivo: a possibilidade de a traficância de influência ter dado expediente na antecâmara da Presidência da República.
Folha de São Paulo


