Meu Imóvel Rural ganha ferramentas para facilitar acesso ao crédito e planejamento da produção


A pasta plástica com documentos da propriedade, presença constante na rotina de muitos produtores rurais, agora divide espaço com o celular. Lançado no ano passado para reunir, em um único ambiente digital, informações antes espalhadas por diferentes sistemas do governo, o aplicativo Meu Imóvel Rural ganhou novas ferramentas para facilitar o acesso ao crédito rural e o planejamento da produção.
A plataforma nasceu a partir de um problema identificado durante o acompanhamento do Cadastro Ambiental Rural (CAR), registro eletrônico obrigatório para todos os imóveis rurais. Segundo Carlos Guedes de Guedes, coordenador-geral de articulação da Diretoria do Cadastro Ambiental Rural do Ministério da Gestão e da Inovação (MGI), a equipe percebeu que a dificuldade dos produtores ia além do cadastro ambiental.
“No diagnóstico que fizemos, identificamos que o agricultor precisava recorrer a 17 serviços diferentes, distribuídos em oito canais do governo federal, para tratar de questões como ITR, CAR, CCIR e documentos do Incra, todos exigidos em operações como compra e venda de imóveis rurais e acesso ao crédito rural”
“Por isso, sempre usamos a imagem da pastinha de plástico para representar esse problema. A pergunta era: como substituir essa pasta cheia de documentos por uma ferramenta que reunisse tudo em um único lugar?”, questionou.
A resposta foi o Meu Imóvel Rural. Agora, além de concentrar documentos e cadastros oficiais, a plataforma passa a oferecer as ferramentas “Tô em Dia?”, que ajuda o produtor a verificar se existem pendências que podem impedir a contratação de crédito rural, e “Produção Certa”, voltada ao planejamento da atividade agrícola.
Do conceito, à prática
Segundo Guedes, os novos recursos reduzem etapas na contratação do financiamento, principalmente para agricultores familiares, ao permitir que o produtor identifique possíveis entraves antes mesmo de procurar uma instituição financeira. Na prática, o sistema reúne informações de bases como o Cadastro Ambiental Rural (CAR), o Sistema Nacional de Cadastro Rural (SNCR), o Sistema de Gestão Fundiária (SIGEF) e o Cadastro Nacional da Agricultura Familiar (CAF). O acesso é feito pela conta Gov.br.
“Quando o usuário acessa a plataforma com a conta Gov.br, o sistema busca automaticamente as informações nos cadastros oficiais e apresenta tudo em um único painel. Hoje, reunimos dados do CAR, do SNCR, do SIGEF e também do Cadastro Nacional da Agricultura Familiar (CAF)”, explica Claudio Ferreira Filho, assessor da Superintendência de Produtos do Trabalho, Fazenda e Assistência da Dataprev.
Tela inicial do Meu Imóvel Rural. Dados fictícios
Divulgação
Além de visualizar os cadastros, o produtor pode baixar documentos normalmente exigidos para solicitar crédito rural, como o recibo do CAR e o CCIR, identificar divergências entre os registros oficiais e consultar todos os imóveis vinculados ao seu CPF.
A plataforma também digitalizou a carteira do Cadastro Nacional da Agricultura Familiar (CAF). Antes, o agricultor familiar recebia apenas uma versão impressa do documento. Agora, ela pode ser acessada diretamente pelo celular.
Tela com cadastro CAF. Dados fictícios
Divulgação
“Percebemos que essa carteira poderia estar no celular. Hoje, o agricultor familiar acessa o aplicativo e apresenta a versão digital do documento sempre que precisar. É uma forma de dar mais praticidade e também de valorizar esse cidadão”, afirma Filho.
As novidades
Entre as novidades, a ferramenta “Tô em Dia?” faz uma pré-análise das exigências previstas no Manual de Crédito Rural e informa se existem pendências sociais, ambientais ou climáticas que possam impedir a contratação do financiamento. Caso identifique algum problema, o sistema orienta o produtor sobre como regularizar a situação, comprovar exceções previstas nas normas ou contestar informações dos cadastros oficiais.
“Ao longo dos últimos anos, novas regras passaram a restringir a destinação de recursos públicos para áreas com desmatamento, sobreposição a terras indígenas e outras irregularidades. Grande parte dessas verificações é feita com base no Cadastro Ambiental Rural (CAR). O que fizemos foi devolver essa análise ao produtor para que ele consiga consultar a própria situação antes de procurar o banco”, explica.
Sistema Tô em Dia, com regularizações em dia. Dados fictícios
Divulgação
Segundo o assessor, muitos agricultores só descobriam que havia algum impedimento quando chegavam à agência bancária.
“Isso também gerava conflitos, porque muitos acreditavam que o banco não queria conceder o financiamento, quando, na verdade, o problema era uma pendência prevista nas regras do crédito rural”
Já a ferramenta “Produção Certa” reúne informações sobre previsão do tempo, Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC) e custos de produção de acordo com o município onde está localizado o imóvel. Com base nos dados do Gov.br, o aplicativo identifica automaticamente a propriedade e apresenta as informações da região.
“A ferramenta mostra, por exemplo, a janela de plantio indicada para cada cultura, os níveis de risco climático e os custos de produção. Assim, o produtor consegue reunir, em um único ambiente, informações que antes precisavam ser consultadas em diferentes plataformas”
O aplicativo também permite compartilhar, por tempo determinado, informações e documentos com extensionistas, cooperativas, técnicos e instituições financeiras, sem que o produtor precise informar a senha da conta Gov.br.
Sistema Produção Certa. Dados fictícios
Divulgação
“Dessa forma, quem presta assistência consegue visualizar documentos como o recibo do CAR, o CCIR, os dados do SNCR e os arquivos georreferenciados necessários para elaborar um projeto de crédito rural ou prestar assistência técnica”, conclui.
A experiência de quem usa o aplicativo
Do outro lado da tela, Naira Kissieli de Lazari, estudante e agricultora, moradora da zona rural de Nova Cantu (PR), conta que, antes do aplicativo, o acesso aos documentos da propriedade era mais burocrático.
“Eu precisava acessar três portais diferentes para consultar os documentos e, em alguns casos, até ir à prefeitura ou a outros órgãos para buscar informações e conseguir emiti-los. Isso tomava bastante tempo e dificultava acompanhar se toda a documentação estava em dia”
A agricultora destaca que a funcionalidade que mais a ajuda é o “Tô em Dia?”. “Quando existe algum problema, o aplicativo emite um alerta, permitindo que eu resolva a situação antes que isso atrapalhe o acesso ao crédito rural ou outros processos”, explica.
Para Naira, a tecnologia precisa avançar cada vez mais no campo, acompanhando as mudanças na gestão das propriedades rurais. “A propriedade rural também precisa ser administrada como uma empresa. A tecnologia deve chegar cada vez mais ao campo, sempre respeitando a diversidade do meio rural brasileiro. Com o envelhecimento da população rural e o desafio da sucessão familiar, acredito que uma ferramenta como essa pode incentivar os jovens a permanecerem no campo e participarem cada vez mais da gestão da propriedade”, diz.
Assim como Naira, a agricultora familiar e presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Cantagalo, Sílvia Joay, moradora da Comunidade Invernadinha, na zona rural de Cantagalo (PR), destaca a possibilidade de compartilhar os dados da propriedade como um dos principais diferenciais da ferramenta. Ela trabalha em regime de comodato e não possui um imóvel rural em seu nome, mas consegue acompanhar a documentação da propriedade dos pais, que autorizaram o compartilhamento das informações.
“Comecei a usar o aplicativo recentemente, depois de participar de uma apresentação sobre a ferramenta, e achei a proposta muito interessante. Hoje trabalho em regime de comodato, então não tenho um imóvel rural em meu nome. Mesmo assim, o aplicativo permite que outra pessoa compartilhe os dados da propriedade para que eu também possa acompanhar a documentação. Meus pais fizeram esse compartilhamento e, assim, consigo ajudá-los na gestão da propriedade onde também trabalho”
Segundo Sílvia, o recurso é especialmente importante para a agricultura familiar, já que muitos produtores ainda estão começando a utilizar novas tecnologias e podem ter dificuldades para acessar informações digitais. “Com o compartilhamento, outra pessoa pode ajudar no acompanhamento da documentação e da situação do imóvel”, explica.
A agricultora também destaca que o aplicativo facilita a identificação e a resolução de pendências. “Isso evita que o produtor precise ir ao banco ou a outros órgãos apenas para descobrir que havia um problema na documentação e como regularizá-lo”, afirma.
Para Sílvia, reunir os documentos da propriedade em um único aplicativo já representa um avanço para o produtor rural. “Acredito que a ferramenta ainda pode evoluir, permitindo que o produtor também faça algumas alterações ou correções diretamente pelo aplicativo quando identificar algum erro em um documento. Mas, da forma como está, já é uma ferramenta que contribui muito para a agricultura familiar”, conclui.
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