Saúde

Mundo vive ‘epidemia de estupidez’, afirma Drauzio Varella

O médico e escritor Drauzio Varella sabe bem o que é conviver com a desinformação —há cerca de 10 anos, ele vê sua imagem e voz sendo usadas na disseminação de notícias e propagandas falsas.

Falando no evento BBC World Service: Trust is Earned – O Desafio da Credibilidade, nesta sexta-feira (14), Varella brincou que deve ser o maior vendedor de remédios falsos do Brasil, talvez da América Latina.

Mas a verdade é que, há várias décadas, Varella vem se dedicando profundamente à comunicação de informações cientificamente embasadas.

Ele só não imaginaria que, nos anos 2020, iria se deparar com uma “epidemia de estupidez” que rejeita o uso de máscaras contra a covid-19 e vacinas, afirmou.

“Ignorância é uma coisa, estupidez é outra. Eu sou ignorante em muitas coisas. Cada um de nós”, explicou. “O ignorante aprende quando ele é ensinado; o estúpido não, porque o estúpido acha que ele sabe.”

O médico participou de um evento gratuito promovido pela BBC World Service e pela BBC News Brasil sobre os desafios do combate à desinformação no país.

Ele foi entrevistado pelo jornalista da BBC João Fellet.

Varella contou que desde a epidemia de Aids, na década de 1980, profissionais de saúde como ele lidam com colocações falsas, como a que chamava a então nova doença de “peste gay”.

“Não é possível uma coisa dessas, porque olha as implicações epidemiológicas que você tem com uma afirmação ignorante e preconceituosa como essa. Se é peste gay, as mulheres, teoricamente, estavam protegidas. Os homens heterossexuais também. Mas existe alguma doença sexualmente transmissível que poupe um dos sexos? Toda doença sexualmente transmissível, por definição, é sexualmente transmissível.”

Segundo o médico, foi nessa época que ele passou a se dedicar também à comunicação, fazendo campanhas de rádio com informações sobre a Aids.

Mais de 30 anos depois, a desinformação apareceu com novas facetas na pandemia de coronavírus.

“A covid foi uma grande surpresa, porque nós imaginávamos que já tínhamos passado de certos pontos.”

Ele cita, por exemplo, a disseminação de campanhas contra as vacinas.

“Sempre tivemos movimentos antivacinas no Brasil, mas eram muito restritos a uma camada, em geral a classe média alta”, lembrou Varella.

“Mas isso era um movimento marginal que não tinha nenhuma repercussão na sociedade. E de repente você vê médicos formados, alguns na faculdade que eu me formei, na USP, falando contra as vacinas. Mas como assim? Como aconteceu isso? É um fenômeno mundial.”

Para o médico, que há anos apresenta quadros de saúde no programa da TV Globo Fantástico e tem na internet o Portal Drauzio Varella, poucas pessoas podem ser convencidas racionalmente.

“Convencer com palavras já não é facil. Convencer por mecanismos racionais, você só convence as pessoas que são racionais. E os racionais são minoria na sociedade. As outras pessoas você vai convencer se você conseguir emocioná-las”, explicou, citando exemplos de produções tocantes que conduziu no Fantástico.

Autor de livros como Estação Carandiru e O Sentido das Águas – histórias do Rio Negro, Varella fez duras críticas à empresa Meta, dona do Instagram, Facebook e WhatsApp.

Segundo o médico, ele e sua equipe perceberam ao longo do tempo que a empresa “não tem interesse” algum de tirar conteúdo falso do ar.

Ele contou que, recentemente, uma senhora o parou na rua para falar que um remédio que ela havia comprado, falsamente anunciado com a imagem de Varella, não estava “ajudando nada”.

“Como é que alguém pratica um crime desse? Porque isso é crime, é crime contra a saúde pública. Deveria ser inafiançável. Vai no YouTube, vê se tem essas notícias falsas. Não tem, pelo menos em meu nome”, afirmou o médico, indicando que o YouTube deve ter alguma tecnologia pra barrar esse tipo de “estelionato”.

“A Meta é uma empresa imoral. Eles são sócios des ses bandidos, desses estelionatários, desses criminosos.”

Em julho, Varella fez críticas semelhantes à Meta na 24ª Flip (Festa Literária Internacional de Paraty).

Diante da fala do médico na Flip, a empresa afirmou em nota que não permite atividades fraudulentas e que remove anúncios enganosos “assim que identificados”.

“Estamos sempre intensificando nossos esforços utilizando tecnologia de reconhecimento facial e detecção, aplicando políticas rigorosas e oferecendo ferramentas de segurança e alertas. Além do trabalho de identificação e remoção, iniciamos ações judiciais contra anunciantes fraudulentos que usam imagens de figuras públicas indevidamente. Recomendamos, ainda, que as pessoas denunciem, pelas próprias plataformas, quaisquer atividades suspeitas”, afirmou a Meta.

Este texto foi publicado originalmente aqui

Informação

Folha de São Paulo

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