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El Niño preocupa produtores no PR, e cooperativa prepara estratégia



O produtor Thomas Salomons, de Arapoti (PR), está apreensivo com a previsão de um El Niño de intensidade forte para os próximos meses, e os efeitos que o fenômeno climático pode ter em suas lavouras de trigo e cevada na propriedade. “Vamos aguardar para saber, no momento da colheita, o que irá acontecer”, diz.
A preocupação com o El Niño está relacionada ao fato de que chuvas na etapa da colheita dessas duas culturas – prevista para ocorrer entre os meses de outubro e dezembro, justamente quando a previsão aponta intensidade do fenômeno – podem prejudicar a qualidade dos grãos, o que significa perda de rentabilidade. Isso porque o pagamento da produção pelas indústrias (moinho e maltaria) é baseado em parâmetros de classificação.
Salomons conta que, na safra passada, a produtividade da cevada chegou a 5 mil quilos por hectare em algumas áreas da propriedade, frente à média estadual de 4,4 mil quilos por hectare. E, no trigo, o rendimento atingiu 4,5 mil quilos por hectare, com uma média estadual de 3,3 mil quilos por hectare. “Tivemos muita sorte com as chuvas no momento certo”, considera.
Thomas Salomons, de Arapoti (PR), está apreensivo com o El Niño
Carolina Mainardes/Globo Rural
O produtor Marinus Hagen Neto cultiva grãos em 300 hectares distribuídos em fazendas em Arapoti e no município vizinho de Jaguariaíva (PR), e também está preocupado com as previsões do El Niño. Atualmente, estão no campo trigo, cevada e aveia para pré-secado destinado ao gado de leite. No verão, ele entrará com as culturas de soja em 60% da área e milho no restante.
“Em relação ao trigo e à cevada, o que mais preocupa é a perda da qualidade dos grãos pelo clima favorável para doenças. Já quanto à soja, a expectativa é de que o ciclo seja mais estável”, comenta.
Na safra passada, a produtividade da soja bateu recorde na propriedade, alcançando mais de 6 mil quilos por hectare em alguns talhões. Com as previsões de um El Niño de maior intensidade, ele prevê produtividades menores neste ano, mas sem perdas expressivas. “É uma caixa de surpresas, mas se as chuvas previstas forem bem distribuídas, podem favorecer as culturas de verão.”
Estratégias
Enquanto os produtores avaliam as culturas no campo, cooperativas analisam dados e preparam estratégias para que os associados possam minimizar as possíveis consequências do El Niño.
Roberto Martins, coordenador de assistência técnica da Capal Cooperativa Agroindustrial, reforça que as previsões indicam “impactos climáticos significativos para a produção agrícola”. A Capal conta com uma área assistida de mais de 200 mil hectares com cultivo, principalmente, de soja, milho, trigo e cevada, nos Estados do Paraná e de São Paulo.
Martins salienta que, frente às previsões, tem sido feito um acompanhamento constante das lavouras e das informações enviadas pela Fundação ABC, instituição de pesquisa mantida pelas cooperativas Frísia, Castrolanda e Capal. Os dados fornecidos pela fundação são compartilhados com os produtores e utilizados pelas equipes técnicas que prestam assistência nas propriedades.
“O impacto do clima não é preocupante somente sobre a produção, mas também sobre o manejo no campo, ou seja, as janelas para aplicação de defensivos podem ficar menores e é preciso estar atento para o timing. Além da logística operacional para a colheita, que também pode ser afetada”, comenta Martins.
Roberto Martins, coordenador de assistência técnica da Capal Cooperativa Agroindustrial
Divulgação
Ele lembra que o produtor deve fazer o possível para ficar dentro dos parâmetros já comprovados, que colaboram diretamente para o resultado. “Tendo essas informações, é essencial que ele invista nos melhores momentos de plantio, nas sementes mais adaptadas para cada região e faça os manejos para controle das ocorrências – que também roubam produtividade – nos momentos recomendados e com melhor custo-benefício.”
Com base nos dados da Fundação ABC, que incluem informações de agrometeorologia, vem sendo feito um planejamento com foco em estratégias e ferramentas voltadas a contribuir para a produtividade e a rentabilidade das lavouras. “Estamos prevendo, ainda, ações que possam levar versatilidade à gestão operacional das propriedades neste momento”, salienta.
Com ápice previsto para a primavera e verão 2026/27, as intempéries do El Niño podem atingir a colheita das culturas de inverno e o plantio das safras de verão. Martins projeta que, somente na classificação, o trigo e a cevada já podem ter redução em torno de 20% a 40% na precificação, com a perda da qualidade dos grãos.
“A produtividade também deve cair devido ao clima. Isso pode se somar e trazer um efeito dominó, no qual o produtor terá um impacto significativo e bastante preocupante na rentabilidade dos cereais de inverno”, adverte.
Em relação à soja e milho, os esforços são para que o plantio possa ocorrer na melhor janela. Para os cooperados do Sudoeste de São Paulo, região de atuação da cooperativa, a janela de plantio considerada ideal para a soja começa no fim de setembro. Já para o Paraná, onde os cooperados se concentram na região dos Campos Gerais, a janela de plantio ideal ocorre em meados de outubro. O milho, por sua vez, nessa região, tem a melhor janela do fim de setembro até meados de outubro, conforme dados da Capal.
Martins pontua ainda que, em anos de El Niño, a probabilidade é de safras dentro ou até abaixo da média. “É um ano desafiador, tenso, em que o produtor precisa ter uma orientação e assistência técnica muito próximas”, enfatiza.
Em 2025, a Capal recebeu 965 mil toneladas de grãos, com predominância de soja, milho, trigo e cevada.
*A jornalista viajou a convite da Capal Cooperativa Agroindustrial


Globo Rural

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