Política

‘Odisseia’ funciona como tratado sobre natureza humana, liderança e poder

O novo filme de Christopher Nolan está a gerar uma enorme “Odisseiomania”.

Mas será que esse livro com quase 3000 anos pode também conter lições úteis sobre poder, política e liderança? Sem dúvida que sim.

A “Odisseia” de Homero é, depois da Bíblia, a obra clássica que mais influenciou a cultura ocidental. Nolan reinterpreta a poesia épica que conta as aventuras do herói Ulisses, destacando algumas cenas e subalternizando outras, para construir uma narrativa mais cinematográfica.

Nada contra. Eu acho que é mesmo essa a beleza dos clássicos: permitirem olhares diferentes ao longo dos tempos e conseguem, assim, manter a sua relevância e até a atualidade.

Quanto a mim, esta Odisseia é um magnífico tratado sobre a natureza humana. Aliás, a primeira palavra do poema original, em grego, é “homem”.

Mas, no livro de Homero, Ulisses é um herói com muitas camadas, menos linear ou virtuoso do que aquele que se penaliza pela culpa que encontramos nesse filme. Ulisses faz tudo para chegar ao seu destino, incluindo matar com crueldade, mentir, trair. Assim mostra que os homens, mesmo os maiores líderes, são imperfeitos e contraditórios.

A Odisseia pode ser também um guia de liderança. Mais do que a força bruta, Ulisses combina a coragem com a estratégia, a astúcia, o autocontrolo, a capacidade de antecipação.

Por outro lado, Ítaca, a terra natal de Ulisses, é, de certa forma, um laboratório de teoria política.

Ali percebemos o que era a Lei de Zeus, uma regra milenar que definiu o código moral do berço da democracia e que impunha a hospitalidade em relação a estranhos, porque qualquer um deles podia ser um deus.

Este é mesmo um pilar civilizacional – os povos que rejeitam ou exploram estrangeiros são descritos como bárbaros e desumanos. E se, quando olhamos hoje para o modo como os imigrantes são tratados pelo mundo, esta ideia tem enorme atualidade, também é verdade que na “Odisseia” se percebe que esta hospitalidade pressupõe expectativas recíprocas: do forasteiro também se exige moralidade e o cumprimento de deveres.

O livro da “Odisseia”, mais do que o filme, é ainda um alerta contra a húbris, a arrogância ou orgulho excessivos que podem vir com o poder, e que, na Grécia Antiga, eram vistos como um desafio aos deuses.

Quando Ulisses provoca o ciclope Polifemo, acaba por ter de enfrentar a fúria do deus dos mares. Toda a viagem é também um caminho de descoberta da humildade e da aceitação dos limites. Quando o protagonista resiste ao convite da imortalidade oferecida por Calipso ou quando se amarra ao mastro do barco para não cair no canto das sereias está a reforçar a importância dos princípios e das instituições.

Leiam a “Odisseia”, sobretudo a versão traduzida e anotada por Frederico Lourenço. É que se aprende mesmo muito!


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Folha de São Paulo

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