Quatro obstáculos à tentativa de quarto mandato de Lula

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Prestes a disputar pela sétima vez a Presidência em dez eleições realizadas após a redemocratização, Lula entra na campanha, iniciada oficialmente no domingo 16, com um ligeiro favoritismo. Segundo as pesquisas, ele lidera nos cenários de primeiro e segundo turnos, mas, em alguns levantamentos, aparece empatado tecnicamente na rodada final com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), até aqui o adversário mais competitivo.
Sondagem da BTG/Nexus divulgada na segunda-feira 10 mostrou o presidente com 47% na simulação de segundo turno, contra 44% do filho mais velho de Jair Bolsonaro. Na Quaest divulgada na sexta-feira 14, a diferença também é de três pontos no confronto direto: 43% a 40% a favor do petista. Em ambos os casos, considerando a margem de erro, a situação é de empate. A tendência, portanto, é de uma disputa tão acirrada quanto a de 2022, quando Lula venceu o capitão por menos de dois pontos percentuais de diferença.
Barreiras
Na tentativa de renovar o mandato, Lula enfrentará obstáculos consideráveis, com os quais lida — e não consegue superar — desde a sua volta ao poder. Um deles é o antipetismo, que mobiliza pelo menos um terço dos eleitores. A rejeição ao partido decorre principalmente dos escândalos de corrupção, como o mensalão e o petrolão, e é alimentada também pela memória do desastre econômico do governo de Dilma Rousseff.
A descoberta da roubalheira bilionária contra aposentados e pensionistas do INSS — que também ocorreu na gestão de Jair Bolsonaro, mas ganhou tração sob Lula 3 — fez a oposição redobrar a aposta no antipetismo. Essa estratégia foi facilitada depois de uma testemunha declarar à Polícia Federal e à CPI do INSS que o filho mais velho do presidente, Fábio Luís da Silva, receberia 25 milhões de um operador do esquema criminoso contra os idosos para ajudá-lo a fechar negócios com a administração federal.
A pedido da Polícia Federal, o Supremo Tribunal Federal abriu três inquéritos para apurar a possiblidade de tráfico de influência por parte de Fábio Luís. Ele nega que tenha trabalhado a favor do notório “Careca do INSS”, mas o desgaste na campanha do pai já está ocorrendo. O antipetismo e uma gestão reprovada por metade da população fazem a rejeição a Lula ser hoje de cerca de 50%.
Comida no prato
Outro entrave à campanha do presidente é a insatisfação da população com o custo de vida, especialmente com a alimentação. Para a maioria dos eleitores, a comida está mais cara. E não adianta Lula repetir que o desemprego está baixo e que a renda média do trabalhador cresceu. Os preços dos alimentos até tiveram a maior queda para julho desde 2010, de 1,55%, mas o refresco não foi capaz de reverter o azedume.
A percepção dos eleitores é de que o salário termina antes do mês. Percepção lastreada em níveis recordes de endividamento familiar. Flávio Bolsonaro tem explorado o tema numa série de vídeos. Neles, o senador vai a um supermercado, faz compras e reclama da carestia, com o objetivo de dizer que o presidente não cumpriu a promessa de entregar picanha e cerveja a preços acessíveis.
Receita ultrapassada
Mesmo aliados do presidente admitem que falta a Lula elaborar de forma clara uma promessa de futuro melhor. Falta ao petista mostrar em quais áreas pretende avançar, como e com quais inovações. Falta a ele, para além de programas e planilhas, vender um sonho — da esperança que vence o medo, com pregou certa vez, ou de paz e prosperidade, como sugere agora o ex-ministro José Dirceu.
Até aqui, Lula insiste nos programas de sempre, que, apesar de terem sido bem-sucedidos em algumas áreas no passado, já não atendem as demandas dos dias de hoje. Eis o quarto obstáculo: a chamada fadiga de material. “Todos sabem quais benefícios foram e são obtidos com Lula à cabeça do movimento reformador que vem desde a Constituição de 1988. Mas já se tocou o céu, não se irá adiante”, diz Alberto Aggio, professor da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Estadual Paulista (Unesp).
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