Rally Forrageiras usa tecnologia para reduzir o impacto da estiagem sobre a pecuária

Foi dada a largada no Rally Forrageiras, uma expedição que busca ampliar a adoção de tecnologias capazes de reduzir os impactos das estiagens sobre a pecuária, aumentando a produtividade e a segurança alimentar dos rebanhos. A iniciativa percorrerá os estados do Nordeste e Norte de Minas Gerais, entre agosto e novembro deste ano, com uma etapa em cada estado. O presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), João Martins, comandou o lançamento, que aconteceu no início de agosto, em Baixa Grande (BA).
“O que nos interessa é preparar o produtor para caso uma grande seca aconteça. Eu tive a ideia dentro da CNA e começamos a bolar que nós tínhamos de fazer experimentos com forrageiras e outros tipos de alimentos para que o Semiárido pudesse ter uma pecuária sustentável”, explicou o presidente da CNA.
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Hoje já temos boas forrageiras resistentes para o Semiárido, mas ainda existem muitas outras que podem ser pesquisadas. Precisamos continuar investindo em pesquisa para ampliar as opções disponíveis aos produtores
— João Martins, presidente da CNA e idealizador do projeto
Cerca de mil produtores rurais participaram do encontro e tiveram acesso aos resultados dos últimos dez anos de pesquisas do projeto “Forrageiras para o Semiárido”. Foi apresentado um cardápio forrageiro e algumas recomendações, como a criação de reserva estratégica de alimentos. Assim, o rebanho se mantém saudável mesmo em condições extremas de seca, como a prevista recentemente para o super El Niño.
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Forrageiras são plantas utilizadas na alimentação dos animais, como gramíneas, palmas forrageiras e leguminosas arbóreas. O programa focou nas espécies que melhor se adaptaram às condições climáticas da região.
O projeto “Forrageiras para o Semiárido” foi criado em 2017 e envolveu a CNA, o Instituto CNA, o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), as Federações estaduais de agricultura e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). O rally marca uma nova fase do projeto, voltada à transferência de tecnologia e à adoção das soluções pelos produtores rurais.
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“Hoje alcançamos diversos tipos de procedimentos para dar sustentação ao longo do ano e evitar uma curva de produção em sanfona: a produção aumenta e, quando chega a seca, diminui. Mas a pesquisa é algo constante. Hoje nós temos um cenário e amanhã temos outro. Há dez anos não se falava em super El Niño. Agora temos a previsão de uma super seca. Quer dizer que nós temos que fazer com que a pesquisa continue para ampliar as opções disponíveis aos produtores”, avaliou João Martins.
A escolha de Baixa Grande (BA) para o lançamento do Rally das Forrageiras não foi por acaso. A cidade sediou a primeira Unidade de Referência Tecnológica (URT) do projeto “Forrageiras para o Semiárido”. Nessas URTs as tecnologias são avaliadas em condições reais de produção, permitindo que os pesquisadores acompanhem o desempenho das espécies forrageiras, validem práticas de manejo e gerem recomendações. Na primeira fase, o projeto avaliou 30 espécies forrageiras, composta por gramíneas anuais e perenes, palma forrageira e arbóreas leguminosas. Depois analisou o comportamento das forrageiras durante o pastejo. Agora, o foco é ampliar a adoção, pelos produtores, das metodologias desenvolvidas ao longo desses dez anos.
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Os resultados obtidos nas URTs demonstram que não existe uma única solução para todo o Semiárido. O desempenho das espécies varia conforme o clima, o solo e o manejo adotado. Em Baixa Grande, por exemplo, as pesquisas foram feitas na propriedade do produtor José Américo, e os capins que se destacaram foram o Piatã em primeiro lugar em produtividade, seguido do Massai e depois Paiaguás. Já o Buffel Aridus foi o mais resiliente. Antes mesmo dos resultados oficiais, os achados já estavam sendo aplicados na fazenda de gado de corte do produtor.
“A gente já vem usufruindo antes mesmo de eles difundirem os resultados. O produtor precisa sair do modelo tradicional. Na pecuária a gente precisa de genética boa e de bons animais, mas você também precisa de reserva alimentar estratégica para alimentar o rebanho em períodos difíceis. Acredito que quem investe em tecnologia pode até fazer da crise uma oportunidade”, contou Américo.
Desdobramentos do projeto
O “Forrageiras para o Semiárido” envolveu mais de dez mil pessoas. Produtores rurais, pesquisadores, técnicos e estudantes atuaram na implementação de 27 URTs e na análise de 30 espécies forrageiras ao longo de dez anos. A coordenadora do projeto, Alenilda Carvalho, explicou que já foi possível ver o impacto positivo da alimentação adequada para os rebanhos.
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“Durante o estudo, nós prospectamos que os animais teriam um ganho médio diário de 600 g/dia, mas nós ultrapassamos e chegamos a 800 g/dia. É um grande rendimento para a pecuária de corte, com animais que em onze meses já estão saindo para o abate. Animais que entraram no sistema com 200kg/ peso vivo e chegaram aos 500kg/ peso vivo. A operação pagou o custo de produção, o investimento feito e ainda sobrou um caixa para o produtor”, disse.
Na etapa atual da pesquisa, concomitante à disseminação dos primeiros resultados e aplicabilidade, produtos à base de moléculas de carbono estão sendo testados por meio de nanotecnologia. Trata-se de uma adubação que fornece nutrientes diretamente às folhas, com a ideia de estimular a produtividade e aumentar a capacidade nutricional da planta.
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“Hoje nós somos pioneiros na adubação foliar na palma. A Palma Orelha de Elefante Mexicana chega a produzir 240 toneladas de matéria verde por hectare em um ano. Mas se a gente consegue um acréscimo de 40% dessa matéria verde, a gente aumenta a produtividade sem aumentar a área. Isso é um ganho significativo para o produtor, porque significa que a gente também pode aumentar o número de animais sem precisar onerar no aumento de área”, explicou a coordenadora do projeto.
‘Depois do conhecimento, não morreu uma vaca de fome’
Atendido pelo Senar desde 2009, o produtor rural José Santos Souza chegou ao “Forrageiras para o Semiárido” há dois anos, por meio do Sindicato Rural do Município de Miguel Calmon (BA). O conhecimento acumulado, o auxílio dos técnicos do Senar e o que aprendeu no projeto já lhe rendem frutos — ou melhor, leite.
Seu Souza, como é conhecido, viu sua produção passar de 40 litros/dia, com 14 vacas, para 441 litros/dia, com 21 vacas em lactação. Produtor atendido pelo Senar, hoje ele fornece leite para a cooperativa local de maneira formal.
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“Para chegar a essa quantidade, a gente tem que buscar conhecimento. Não é combater a seca, é conviver com a seca. Eu tenho 100 toneladas de alimentos armazenados para o rebanho e vou produzir mais. Consigo passar bem pelo período de seca por uns oito meses ou até um ano. Depois do conhecimento, não morreu uma vaca de fome aqui”, afirmou Seu Souza.
Hoje ele produz palma forrageira em quatro hectares da Fazenda Várzea de Baraúna. Também trabalha com silagem para utilizar no tempo de estiagem, usa capins adaptados, pastagens rotacionadas e concentrado produzido na própria fazenda. Seu Souza destaca que não cultiva gramíneas sem antes realizar calagem, para corrigir a acidez do solo, porque aprendeu que um solo degradado não produz bom alimento para os animais.
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O vice-presidente da CNA e presidente da Federação de Agricultura e Pecuária do Estado da Bahia, Humberto Miranda, explicou que só no estado da Bahia são 14 milhões de hectares de áreas degradadas, ou seja, de pastos que não estão em perfeitas condições para alimentar os animais. Ele acrescenta que o “Forrageiras para o Semiárido” tem também a finalidade de recuperar essas áreas, ensinando a outros produtores rurais a plantar de maneira adequada e sustentável.
“O projeto vem exatamente da necessidade somada à oportunidade de se produzir cada vez mais na mesma área”, analisou Miranda.
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A rota do Rally das Forrageiras
O “Dia de Campo” de Baixa Grande (BA) será replicado nos outros estados do Nordeste e no Norte de Minas Gerais. No entanto, os conteúdos técnicos serão adaptados às características de cada região e as respectivas cadeias produtivas. Além disso, o Senar vai promover a capacitação de 20 instrutores, dois por estado, para atuar como multiplicadores de conhecimento.
No evento, os produtores encontram diferentes estações onde são apresentados os resultados da pesquisa e demonstrações de inovações tecnológicas. Durante a programação, a Carreta Agro pelo Brasil estará presente fortalecendo a iniciativa com vídeos imersivos sobre a evolução da agropecuária e outros recursos audiovisuais.
Os produtores interessados também terão acesso à “Trilha de Aprendizagem Forrageiras” com seis cursos à distância e seis cartilhas disponíveis no Senar Play. No “Dia de Campo” é distribuído o “Guia de Bolso: Forrageiras para o Semiárido – Pecuária Sustentável”, que também está na plataforma on-line.
“O sol que nós temos, a luminosidade, a estabilidade de clima, é tudo que o mundo quer para produzir. Os países frios não conseguem alcançar os resultados do Brasil. A gente tem que aprender com a experiência da nossa vida, mas associar isso à ciência e tecnologia. Não podemos fechar os olhos para isso”, alertou Humberto Miranda sobre a importância do Rally das Forrageiras para os produtores rurais.
Confira as próximas paradas:
* 11/08 – Nossa Senhora da Glória/SE – Gado de Leite
* 17/08 – Monteirópolis/AL – Gado de Leite
* 25/09 – Venturosa/PE – Gado de Leite
* 20/10 – Angicos/RN – Ovinos
* 28/10 – Montes Claros/MG – Gado de Corte
* 06/11 – Paulistana/PI – Ovinos
* 13/11 – Colinas/MA – Gado de Corte
* 19/11 – Assunção/PB – Ovinos
* 27/11 – Ibaretama/CE – Gado de Leite
Globo Rural


