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review do terror que mistura pixel art e cinema

Meu primeiro contato com a New Blood Interactive e com o Airdorf foi através de Faith: The Unholy Trinity, um game que conseguiu a proeza de me assustar com pixels e efeitos de rotoscopia. Para muitos jogadores, esses efeitos podem parecer toscos, mas, ao meu ver, remetem diretamente às raízes de um medo cru e ancestral, aquele arrepio na nuca de quando você sabe que tem algo errado, mas não consegue identificar exatamente o que é e muito menos de onde vem.

Ainda sobre Faith, na gamescom 2026, tive o prazer de conhecer o Airdorf e sua equipe maravilhosa pessoalmente, o que estreitou ainda mais os meus laços e a memória afetiva com a publisher.

Sonhos na Escuridão

A atriz Clara Kovacic faz o papel da protagonista Julia de maneira brilhante. Imagem:New Blood Interactive/ Divulgação

Tenebris Somnia foi desenvolvido na Argentina pela Saibot Studios, em parceria com o diretor criativo e cineasta Andrés Borghi, e publicado pela New Blood Interactive, com as sequências live-action protagonizadas por atores de primeira categoria como Clara Kovacic, Pedro Merlo e Maria Eugenia Rigon.

O jogo é, em si, um conto cinematográfico que mistura duas técnicas visuais que você raramente vê em jogos modernos: pixel art e FMV. Cresci nos anos 1990 acreditando que o Full Motion Video, aqueles filminhos dentro de jogos como Phantasmagoria, Mad Dog McCree e Night Trap, era o futuro dos games. Um jogo com gráficos no estilo de cinema era o auge absoluto da tecnologia da era do grunge.

A união dessas duas linguagens audiovisuais foi a escolha do estúdio para contar a história de Tenebris Somnia, e não poderia existir um jeito melhor para esse projeto. A transição dos pixels para o FMV em 4K é tão suave e orgânica que, às vezes, você esquece que está olhando para duas linguagens tão distintas, e principalmente espectros completamente opostos.

Terror na Sétima e na Décima arte

Os efeitos práticos usados nas cenas em FMV são assustadoramente reais, Imagem:New Blood Interactive/ Divulgação

A escolha do Full Motion Video se encaixa perfeitamente com a trama, que conta a história de um casal separado: Julia (Clara Kovacic) e Iván (Pedro Merlo), ambos envolvidos em produções de filmes de terror, que, por motivos que descobrimos conforme o jogo se desenrola, seguiram caminhos diferentes. Iván é um promissor diretor de terror e com um certo destaque no nicho, e Julia acompanhou toda a sua trajetória, atuando e apoiando o (agora) ex-namorado como podia. Ela estrelou o projeto mais ambicioso dele: o curta-metragem Devora. Ela deu ideias, trabalhou no roteiro; enfim, fez tudo ao seu alcance para que tudo desse certo. Não deu. Ao menos não como eles esperavam.

Depois de um tempo sem nenhuma notícia de Iván, Julia começa a ter pesadelos com o ex e decide procurá-lo para se certificar de que está tudo bem. Ao chegar ao apartamento que um dia foi do casal, ela percebe anomalias gritantes, além da ausência do ex-namorado. A partir daí, acompanhamos (bem de perto) sua busca por respostas para perguntas que nem mesmo ela sabia que estavam enterradas no fundo da sua alma e coração. Sem se esquecer da pergunta primordial: Onde diabos está Iván?

Tenebris Somnia tem um roteiro bem amarrado que transita por todo tipo de linguagem do terror: do gore ao suspense, do noir ao drama psicológico, passando por seitas, sociedades secretas e um simbolismo belissimamente criado unicamente para o game. Com um lore crível que parecem saltar da tela direto para a mente do jogador, assim como os monstros e as atuações impecáveis de Clara Kovacic e Pedro Merlo.

Na parte de localização em português brasileiro, Tenebris contou com o trabalho impecável da @puppywombo, que já tinha feito a localização de Faith: The Unholy Trinity. Além de tradutora e representante oficial da Puppet Combo, Puppy é Game Dev e fã de horror. Toda essa experiência aplicada na localização faz com que Tenebris Somnia tenha minúcias idiomáticas que poucas obras conseguem ter em uma transição cultural tão complexa.

A trilha sonora segue a liderança dos pixels, arquitetada em MIDI, mas com uma ambientação sonora certeira (passos que mudam entre carpete, azulejos frios e até cacos de vidro) e uma variedade diversa de efeitos, todos cuidadosamente escolhidos e aplicados no timing certo. Nas cenas em FMV, os efeitos práticos são assustadoramente reais, e a maquiagem, digo sem medo, poderia levar um Oscar facilmente se estivéssemos falando de um filme, e não de um jogo.

8-bit do capeta

Sangue e vísceras também fazem parte do cardápio de Tenebris Somnia. Imagem: New Blood Interactive/ Divulgação

Tenebris Somnia é um marco no gênero e abre a porta para uma linguagem nova e ousada, que faz a ponte entre os visuais 8-bit e as câmeras de cinema.

Terminei o jogo em pouco mais de seis horas, ou seja, para os padrões de um jogo indie, é consideravelmente longo, mas nunca se arrasta. O backtracking, marca registrada do survival horror, marca uma forte presença, e é essencial manter o bloco de notas à mão, ou melhor ainda, um caderninho à moda antiga para anotar as coisas (esse cara sou eu!). Puzzles difíceis, chefes memoráveis e, com o perdão de ser redundante, um roteiro bem amarrado que nos entrega quatro finais diferentes (fiz três de quatro), cada um mais impressionante que o outro.

Eu já era fã da New Blood Interactive por Faith, que amei tanto que até fiz uma tatuagem do game. Agora, depois de Tenebris Somnia, vou ter que achar outro pedaço de pele para homenagear esse também, ideias de desenhos são o que não faltam.

Tenebris Somnia (2026)

  • Desenvolvedores: Andrés Borghi, Saibot Studios
  • Distribuidora: New Blood Interactive
  • Gênero: Survival Horror / Adventure / Puzzle / Pixel Graphics
  • Dublagem: Espanhol
  • Idiomas de interface e legendas: Inglês, Espanhol (ES), Espanhol (LatAm), Japonês e Português Brasileiro.
Romulo Mathei

Romulo Mathei

Jornalista de games desde 1996. 30 anos de indústria. Co-apresentador do podcast Eu Ouço Gente Morta.

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