Saúde

Sexo com pegada não é sexo violento; saiba como diferenciar

Durante uma transa, o parceiro de Bianca (nome fictício) começou a enforcá-la, sem perguntar antes se poderia. Isso provocou nela um princípio de síndrome do pânico, ao que ele reagiu dizendo para ela “abrir mais a cabeça para essas coisas”.

Relatos de mulheres sobre comportamentos violentos de homens no sexo, que incluem asfixias, tapas, cuspes e xingamentos sem consentimento, têm sido frequentes. As coisas até podem esquentar na cama, mas uma transa com pegada e prazerosa não funciona assim.

Sexo com pegada é aquele em que ambos estão curtindo, resume Laura Muller, especialista em educação sexual e colunista da Folha. “Mesmo que tenha movimentos mais bruscos, é uma transa que respeita até aonde pode ir.”

Em contraste, um sexo violento ultrapassa os limites e fere a pessoa física ou emocionalmente, diz.

Uma postura agressiva na cama não deve ser confundida com BDSM —sigla para bondage, disciplina, sadismo e masoquismo. Muller explica que a prática envolve sentir prazer com dor, amarrações e dominação, sempre com consentimento.

Nela, também há limites, como estabelecer palavras de segurança, que indicam a hora de parar.

Se o parceiro quer tentar alguma fantasia sexual ou BDSM, o desejo precisa ser conversado com a parceira ou o parceiro, diz a especialista.

O outro tem o direito de escolher “se está a fim de entrar nessa” ou não, diz Muller. A opção deve ser respeitada. “Se a outra pessoa não quiser, aí não dá para fazer, porque sexo é para ser um prazer, não uma obrigação.”

Bianca afirma sentir que os homens não estão abertos para dialogar. Para ela, as atitudes agressivas “vêm de um lugar de dominação, no qual a mulher está ali apenas para servir ao objetivo deles”.

A professora Giselle (nome fictício), 40, também tem notado uma postura performática e falocêntrica dos homens nas transas. Ela conta que numa experiência o parceiro deu tapas, mordidas e puxou seu cabelo. A sensação que teve na hora era a de que estava numa briga, diz.

Quando mais nova, Giselle tinha dificuldade em dizer que não estava confortável. Hoje, consegue pedir para parar. Mesmo assim, muitos a ignoram.

A professora diz perceber que alguns pretendentes eram viciados em pornô, pois propunham posições incomuns, penetravam com força e não buscavam oferecer prazer mútuo.

O consumo de pornografia leva muitos homens a tentarem reproduzir um desempenho e uma agressividade performática. Isso não é novidade: nos anos 2000, a publicitária inglesa Cindy Gallop criou o Make Love Not Porn, site com vídeos de casais transando sem encenação. O objetivo era combater esse ideal irreal, e foi ampliado para uma plataforma sobre educação sexual.

Além do pornô, a forma como o sexo é retratado influencia na forma como ele é entendido, afirma Julyelle Conceição, psicóloga e sexóloga do Não Era Amor, empresa de saúde mental feminina e especializada em ajuda a mulheres em relacionamentos abusivos.

“A gente é influenciado por essas mídias que dizem tudo bem jogar a mulher na cama, pegar pelos cabelos, que isso vai ser um sexo selvagem”, diz Conceição. Esses estereótipos são prejudiciais, pois podem não trazer emoções confortáveis ou de prazer, afirma.

Muller diz que é normal se inspirar em filmes, séries e até na pornografia para estimular a fantasia. Essas produções, no entanto, são ficção, ela reforça. “Quando a gente vem para a vida real, é muito diferente. Então precisamos colocar cada coisa no seu lugar.”

Se o homem não tem contato com outros conteúdos que ensinem sobre relação sexual e consentimento e tampouco conversa sobre o assunto, esses comportamentos violentos são naturalizados, aponta Conceição. Para ela, isso está relacionado à aprendizagem do que um “homem de verdade” faz na cama. Por outro lado, as mulheres são ensinadas que os homens sabem transar, e elas, não.

Essa dinâmica não acontece só em relações heterossexuais. O coreógrafo e escritor jamaicano David J. Amado, 38, afirma que abordagens agressivas são comuns na comunidade gay, sobretudo em encontros casuais. Ele relembra experiências negativas em que o asfixiaram, bateram e cuspiram nele sem autorização. Uma dessas relações culminou em um abuso sexual, em 2021, ele conta.

O coreógrafo reforça que topar uma prática não significa dizer sim para tudo, e topar uma vez não significa consentir todas as vezes. Para ele, a agressividade tem a ver com poder. “É aí que o mundo gay e o hétero se cruzam, porque muito do sexo não é sobre tesão. Em muitos casos, os homens só veem seu parceiro como um objeto de prazer.”

A violência viola os direitos sexuais —relacionados à integridade física e mental—, que devem ser respeitados independentemente do tipo de relacionamento, afirma Conceição. Todos têm direito a negar, bem como a mudar de ideia após dizer “sim”.

O consentimento pode ser verbal ou não verbal. Quando a pessoa está excitada e feliz, o corpo manifesta sensações coerentes, diz a psicóloga. “A gente consegue identificar se está sendo uma experiência forçada e que só uma das partes está se divertindo.”

Tudo o que vem depois do “não” é um abuso sexual, afirma Conceição. Nem sempre ele deixa marcas físicas.

Para identificar se vivenciou uma violência, a psicóloga recomenda observar como o corpo reagiu e quais emoções sentiu durante e depois da relação sexual. Sensações como angústia, ansiedade ou medo indicam que algo está errado.

Informação

Folha de São Paulo

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