Esporte

Torcer para a Argentina, jamais

Torcer para a Argentina, jamais. Por quê? Porque sou brasileiro. Para você, compatriota, que se veste de alviceleste quando a vizinha fronteiriça joga, eu explico.

A Argentina é o principal rival do Brasil. Dá para o corintiano torcer pelo Palmeiras? Dá para o vascaíno apoiar o Flamengo? Quem é torcedor roxo, raiz, dirá sem hesitar: não. Jamais. Vai contra a natureza.

É impossível torcer pelo maior adversário a não ser em caso extremo, se o seu time depende da vitória do dito cujo para escapar de um rebaixamento. É raro, mas pode acontecer, e aí abre-se uma raríssima, e breve, por 90 minutos mais acréscimos, exceção. Sem empolgação. Sem vestir camisa.

Ah! Mas a Argentina tem Messi, e como não torcer pelo Messi, esse gênio, esse sobrenatural, esse extraterrestre, esse… Messi.

Sou um admirador dos mais profundos do futebol praticado pela Pulga, apelido que vem de pequeno, dado pelos irmãos mais velhos, porque ele era nanico, todavia irrequieto, vivia pulando para lá e para cá. No futebol, seguiu “pulgando”, ágil, driblador, difícil de ser pego. Um incômodo constante.

Ei, ei, como é? Gosta do Messi mas não quer que a Argentina vença? Isso, isso. Uma coisa não é incompatível com a outra.

Quero que Messi nos presenteie com suas maravilhas, com sua engenhosidade, com seus dribles curtos, suas arrancadas calculadas, seus passes e cruzamentos precisos, sua sede de gols interminável. E quero que no fim a Argentina seja eliminada.

Esse é o lado torcedor. Tem o lado analista. Que se curva e se rende a uma seleção cuja vitória começa no hino nacional. Reparou os argentinos cantando o hino antes da semifinal diante da Inglaterra? Pulmões, pulmões, pulmões! Ganham o jogo ali. Revi os brasileiros perfilados, mão no coração (praxe), hino tocando, antes de sucumbir ante a remada norueguesa. Chiados.

Ali, a Alviceleste, supersticiosamente trajada de azul, passava a mensagem que vinha de dentro, a quem quisesse ou não ouvir: “Coroados de glória vivamos / Ou juremos com glória morrer!”.

E, com a morte batendo à porta com força, um lobo faminto soprando, os argentinos, as duas últimas balas no rifle, mantêm a casa em pé e dão tiros certeiros. Atordoam e matam o lobo. Matam a morte.

Carlo Ancelotti, que encerrado o Mundial para o Brasil se mandou para o Canadá, sem ter a hombridade de voltar para passar por sabatina (os 26 soldados de cristal também se esconderam), falou muito em resiliência da seleção brasileira. Lampejos dela, e só em um jogo.

Aprendamos. Na reapresentação do time, lá no longínquo setembro, para amistosos contra a Austrália, que mostre para os comandados vídeos dos jogos da Argentina, nos quais a tropa liderada pelo Marechal Messi ensina o que é resiliência, partida após partida.

Todos os jogadores brasileiros odeiam, no campo futebolístico, a Argentina –se há algum sem repulsa pelos hermanos, não pode estar a serviço da nação.

É uma tortura vê-los se dando bem? Cuidem para não ver mais. Espelhem-se neles e os superem, e na próxima Copa cantem com alma: “Verás que um filho teu não foge à luta / Nem teme quem te adora a própria morte!”.

Encerrando, volta o torcedor: que a fúria esteja com Lamine Yamal e a armada escarlate. Argentina tetra no cangote do Brasil penta, não.


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.


Esporte / Folha de São Paulo

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo