Um ano após título inédito, Ponte mergulha em crise e ruma de volta à Série C

A Ponte Preta saiu do estado de festa pelo primeiro título nacional de sua história, conquistado em 2025, para viver a maior crise de seus 126 anos. O triunfo na Série C do Campeonato Brasileiro, que era visto como o marco do início de uma retomada, foi seguido de uma temporada de turbulência dentro e fora de campo, com o time na lanterna da Série B, fadado a cair novamente à terceira divisão.
Ainda que o título da Série C sozinho não fosse o suficiente para resolver a crise financeira, havia a esperança de que o acesso pudesse aliviar os cofres do clube. Há sérios problemas de caixa desde 2017, quando o time começou a atrasar salários e direitos de imagem dos atletas.
Na Série B deste ano, são somente 10 pontos somados após 25 rodadas. Neste domingo (6), caso não consiga bater o São Bernardo, no Moisés Lucarelli, às 18h30, a equipe vai completar 20 jogos sem vencer na segunda divisão, estabelecendo um novo recorde negativo, o maior jejum no torneio na era dos pontos corridos, iniciada em 2006.
No período, foram somente três pontos somados, nos empates com Botafogo-SP, Athletic e Náutico. Das 16 derrotas que acumula nessa sequência, a mais recente escancarou a delicada situação financeira do clube. Sob a justificativa de que os salários estão atrasados há mais de seis meses, o elenco entrou em greve.
“O que foi incomodando os atletas não foi somente a questão dos atrasos mas também o abandono da diretoria”, afirma à Folha o advogado Filipe Rino, representante dos jogadores que aderiram ao movimento.
Segundo Rino, atletas que estão no clube desde o início da temporada trabalharam por cerca de oito meses e receberam o equivalente a apenas dois meses de salário, em pagamentos fragmentados. Para ele, o problema deixou de ser apenas financeiro e passou a envolver também a falta de respostas da diretoria, o que motivou a greve.
Sem o elenco principal, o técnico Gilson fez sua estreia na equipe no último domingo (30) com apenas atletas da base à sua disposição. Essa foi a solução encontrada pela diretoria da Ponte para evitar uma derrota por WO no duelo contra o América-MG.
A garotada até conseguiu segurar o time mineiro no primeiro tempo, mas sofreu dois gols depois do intervalo. Foi a 19ª derrota do time de Campinas na Série B.
O resultado fez a Ponte Preta igualar a sequência do ABC, que teve em 2015 a maior sequência sem vitória na competição.
Inicialmente, a ideia dos jogadores era retomar as atividades somente com os salários regularizados. Mas eles mudaram o plano.
“Os jogadores não receberam satisfação nem dinheiro, mas decidiram voltar a treinar simplesmente porque perceberam que a diretoria não deu a mínima bola para a situação. Deu de ombros, ignorou”, diz Rino.
A decisão de voltar, segundo o advogado, ocorreu também para evitar que o protesto provocasse um dano ainda maior à instituição e à torcida.
Nem todos vão voltar a jogar pelo clube, já que a greve foi seguida por uma debandada. Jogadores passaram a deixar o clube e buscar na justiça desportiva a rescisão indireta dos contratos devido aos atrasos. Léo Gomes e Daniel Baianinho são exemplos recentes. Baianinho teve o empréstimo encerrado após decisão judicial.
A diretoria reconhece os atrasos e também o direito dos atletas de protestar. “Aquele que não recebe o salário tem o direito à greve, tem o direito à paralisação, como em qualquer outra profissão”, diz à Folha o vice-presidente de futebol do clube, Marco Antonio Eberlin.
“Quem está errada é a Ponte Preta”, acrescenta o presidente do clube, Luiz Antônio Alves Torrano. “Acho ruim, porque fere a imagem da Ponte Preta. Mas eu não posso dizer para os atletas que eles estão errados”, afirma.
A Ponte Preta também foi rebaixada no Campeonato Paulista deste ano. A equipe fez apenas 1 ponto em 8 jogos na competição.
De acordo com Marco, o clube sofre com os efeitos de uma dívida estimada em R$ 380 milhões. Ele diz que a antiga gestão deixou um passivo de R$ 400 milhões.
“Chegou a hora de a Ponte Preta pagar a conta do passado. E, pagando o passado, não se paga o presente”, afirma o dirigente. Segundo ele, o déficit mensal do clube é de R$ 2,8 milhões.
A versão da diretoria é que a crise atual é consequência de um passivo acumulado por diferentes administrações. Torrano afirma que a dívida começou a ganhar força ainda nos anos 1990 e atingiu seu auge em 2021. Eberlin diz ter herdado uma dívida de cerca de R$ 400 milhões.
Como saída para a crise, a diretoria enxerga a transformação do clube em SAF (Sociedade Anônima do Futebol). O presidente da equipe, porém, nega que isso signifique vender a instituição. “Não estamos vendendo nada. A Ponte Preta por inteiro não vai ser SAF, apenas o departamento de futebol profissional e amador”, afirma.
A proposta em discussão prevê R$ 1 bilhão em investimentos, dos quais R$ 300 milhões seriam destinados ao pagamento de dívidas, R$ 300 milhões ao futebol e às categorias de base ao longo de dez anos e R$ 400 milhões à modernização do Moisés Lucarelli e do centro de treinamento.
O Conselho da Ponte Preta vai se reunir no próximo dia 19 para votar a mudança necessária no estatuto do clube para a transformação em SAF.
A votação, porém, não representa ainda a aprovação definitiva de um investidor ou de um contrato de SAF. Segundo Eberlin, o primeiro passo é autorizar a transformação do departamento de futebol.
“O que nós estamos pedindo neste momento é autorização para o departamento de futebol da Ponte se constituir SAF”, diz Marco.
Esporte / Folha de São Paulo



