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Uso da faixa de 6 GHz opõe operadoras e provedores – 13/10/2026 – Infraestrutura


Brasília


As discussões promovidas pela Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) em torno do uso da faixa de radiofrequência de 6 GHz colocam em lados opostos pequenos provedores de internet e gigantes da telefonia.

Neste mês, a agência encerra uma consulta pública sobre o edital de licitação da faixa alta de 6 GHz para redes móveis de telefonia, previsto para 2028. Também estão em curso duas consultas sobre sistemas de coordenação de frequência (AFCs) usados nas redes wi-fi.

De um lado, os provedores regionais de internet querem aproveitar as consultas para discutir a ampliação do espaço na faixa para o sinal de internet emitido por roteadores. De outro, as operadoras de telefonia pedem que a Anatel conserve uma banda maior para as redes de internet móvel, como o 5G e, futuramente, o 6G.

Por trás da briga há uma razão comum: quanto mais espaço dentro da faixa, melhor a qualidade e rapidez do serviço oferecido à clientela.

Antena de telecomunicações com múltiplos painéis retangulares e cabos visíveis, instalada em estrutura metálica contra céu azul claro.

Antena 5G instalada em terraço de edifício no centro de São Paulo

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Rafaela Araújo – 28.dez.25/Folhapress

Em agosto deste ano, a Anatel decidiu destinar a chamada faixa superior dos 6 GHz para a rede móvel, dando quase 60% do espectro para as operadoras de telefonia e o restante para os roteadores de internet a cabo.

A decisão desagradou aos pequenos e médios provedores, que buscam ampliar a parcela da faixa de 6 GHz disponível para os roteadores Wi-Fi, responsáveis por distribuir sem fio, dentro de casas, comércios e escritórios, a conexão de internet recebida por cabo (como fibra óptica).

O segmento vai aproveitar a consulta pública da Anatel sobre o edital de leilão da faixa para questionar o mérito da decisão de agosto, segundo afirmou à reportagem o presidente da Abrint, associação dos provedores de internet, Breno Vale.

A entidade também promete defender, na consulta, uma alternativa de compartilhamento da faixa entre rede móvel e internet fixa.

“Temos associados entregando internet com 10 gigabits por segundo na casa dos assinantes. Se ele não tiver capacidade ali dentro de casa, [usando a faixa mais alta] para entregar mais velocidade, a gente vai morrer na praia”, argumenta.

Entenda a faixa de 6 GHz

  • O que é?

    É um espectro de radiofrequência que vai dos 5.925 MHz aos 7.125 MHz

  • Para que serve?

    Esse espectro pode ser utilizado tanto para a rede móvel de telefonia quanto para as conexões residenciais com roteador

  • O que isso tem a ver com o 6G, próxima geração da internet móvel?

    A faixa do 6 GHz deve ser utilizada pelas antenas de telefonia quando a nova geração de conexão 6G for implementada, com velocidades de conexão e latência sensivelmente menores do que na geração atual, o 5G

  • Como é feita essa divisão?

    Em agosto, a Anatel reverteu decisão anterior e decidiu que os roteadores ficariam com a parte baixa da faixa (5925 MHz a 6425 MHz), desagradando aos provedores regionais, que esperavam abocanhar uma parte maior do espectro

  • Por que isso importa?

    Quanto maior a faixa disponível, mais velocidade e qualidade de conexão as empresas conseguem entregar aos clientes

  • Como ficou a disputa?

    A Abrint, associação que representa os provedores regionais, diz que vai aproveitar a consulta pública do leilão de 6 GHz na rede móvel para defender o compartilhamento da faixa. A Conexis, entidade das operadoras de telefonia, se opõe à proposta

Nessa proposta de compartilhamento, os roteadores poderiam usar a faixa dos 6 GHz com ajuda do AFC (coordenação automatizada de frequência, em inglês), um software embutido no roteador que verifica em tempo real a presença de sinais de radiofrequência e gerencia o uso compartilhado de canais sem causar interferências.

O pleito da Abrint encontra resistência da Conexis, entidade que representa os pesos pesados da telefonia móvel.

“Nós entendemos que [o compartilhamento] não convém, uma vez que a faixa é destinada para o móvel, então não faz sentido mesclar dentro do móvel também [essa] possibilidade”, diz Marcos Ferrari, presidente da entidade.

Ele diz que a divisão estabelecida pela Anatel em agosto tem respaldo de protocolos internacionais e sustenta que a maior parte da demanda futura virá da rede de telefonia móvel, o que justifica mais espaço na faixa para o segmento. “Talvez haja uma falta de compreensão em relação ao que já foi decidido”, afirma.

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Como alternativa, Ferrari cita a possibilidade de conexão dos modens ao sinal emitido por antenas, com o chamado FWA (Acesso Fixo Sem Fio, na sigla em inglês), tecnologia em que um aparelho capta sinal direto da antena de telefonia e roteia aquele sinal para internet dentro da residência, sem necessidade de conexão a cabo.

A tecnologia permitiria atender à demanda da internet em ambientes internos utilizando a frequência da rede móvel, sem disputar com sinal emitido por roteadores ligados a cabos.

A Anatel, de outro lado, também indica possível resistência à ideia do compartilhamento.

“Os testes realizados até agora pela agência e por instituições parceiras indicaram que, nas condições avaliadas, o compartilhamento do mesmo canal entre wi-fi e rede móvel provoca interferência prejudicial nos dois sistemas”, afirmou o conselheiro Alexandre Freire, relator da decisão de agosto sobre divisão da faixa.

Freire pondera, no entanto, que procurou não transformar essa conclusão técnica atual sobre o AFC em uma escolha imutável. Segundo ele, a agência previu um ambiente regulatório experimental para que novas formas de compartilhamento possam continuar sendo estudadas em condições controladas.

“Portanto, o AFC não está fora da discussão sobre o futuro da faixa de 6 GHz […]. Se mecanismos de coordenação automática demonstrarem, em testes e condições reais, que conseguem assegurar a convivência entre diferentes tecnologias sem comprometer a qualidade e a previsibilidade das redes, esses resultados naturalmente passarão a integrar a avaliação regulatória da agência”, disse.

6G

A disputa pela faixa hoje em discussão na Anatel envolve também o futuro das telecomunicações, já que o espectro dos 6 GHz deve ser utilizado para a internet 6G quando ela for implementada no Brasil.

A nova geração da tecnologia ainda não tem protocolos totalmente definidos, mas promete velocidades entre 10 e 20 gigabits por segundo, com latência cinco vezes menor do que no 5G. Também vai permitir maior densidade de aparelhos conectados e gestão da rede por algoritmos de inteligência artificial, além de outras aplicações de IA em hardware.

“Sempre as disputas por banda de frequência acabam impactando nas gerações de tecnologias que estão em operação e nas tecnologias que estão por vir”, explica o professor Carlos Nazareth, que é diretor do Inatel, instituição de ponta na pesquisa de tecnologia das telecomunicações no Brasil.

“Cabe à Anatel analisar qual o maior número de usuários ou qual o maior benefício alcançado pelos usuários, e a partição dessa banda ou dedicação [completa] para um serviço ou outro”, completa.

Folha de São Paulo

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