Denúncia aponta que Romeu Zema teria emitido decreto que beneficia o Banco Master

O ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo) teria alterado uma legislação, via decreto, para favorecer o Banco Master, às custas do endividamento de servidores públicos. Essa é a suspeita apresentada pela deputada estadual Bella Gonçalves (PT) à Polícia Federal (PF), por meio de uma notícia-crime.
Segundo a denúncia, o beneficiamento ilícito pode ter gerado como contrapartida volumosas doações de campanha ao Partido Novo. Isso porque, às vésperas da campanha de reeleição de Zema, Henrique Vorcaro, pai do dono do Master, doou R$ 1 milhão ao agrupamento político.
“O pai do Vorcaro doou recursos para o Partido Novo, na prática, financiando a campanha do Zema. É, no mínimo, bastante suspeito que ele tenha feito isso logo após se beneficiar de uma operação feita pelo governo para direcionar servidores para fazerem o consignado pelo Credcesta do Banco Master”, destaca Gonçalves.
Henrique Vorcaro foi preso recentemente no âmbito da Operação Compliance Zero, acusado de comandar o grupo A Turma, apontado pela PF como milícia pessoal de intimidação de desafetos do ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Modus operandi
De acordo com a parlamentar, o caso se assemelha muito a outras ocorrências suspeitas envolvendo políticos de extrema direita, como o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD) e o próprio ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Para Gonçalves, isso indica que essa aliança pode ter sido um modus operandi do banco.
“Uma operação semelhante foi identificada em Goiás, no governo Caiado. Com uma aliança entre Banco Master e governo estadual para abocanhar o salário dos servidores, a partir da ampliação da margem consignável. A família Vorcaro, por meio do Fabiano Zettel, foi o maior doador de campanha para Bolsonaro. Além disso, Bolsonaro beneficiou o Banco Master, a partir do Credcesta”, destaca a deputada.
Um decreto, publicado em 2022, durante o governo Bolsonaro, teria alterado o funcionamento do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), permitindo o financiamento de crédito na folha de consignação para aposentados e pensionistas.
Como aponta a notícia-crime, “a instituição financeira oficiou o INSS, informando a intenção de operar o cartão benefício consignado e, 16 dias depois, a autarquia previdenciária alterou normas para viabilizar a execução do produto Credcesta”.
Entenda o caso
Os servidores de Minas Gerais tinham um limite de endividamento de até 30% da renda. No final do primeiro mandato de Zema, em 16 de setembro de 2021, foi sancionada a Lei 23.923, que autorizou o Poder Executivo a ampliar as margens de consignação em folha de pagamento de servidores públicos e pensionistas em mais 10%.
Porém, a alteração se destinava somente ao cartão de benefício consignado, uma modalidade de crédito exclusiva para aposentados, pensionistas e servidores públicos, que funciona como um cartão de crédito tradicional para compras e saques. A diferença é que o pagamento mínimo da fatura é descontado diretamente na folha de pagamento ou benefício do titular.
“Na época, a mudança veio casada com a oferta do cartão Credcesta do Banco Master. Não foi aberto um leque de possibilidades para os servidores. Praticamente todos os servidores que tiveram a margem de consignável ampliada após o decreto tiveram a proposta do cartão Credcesta enquanto uma opção facilitada pelo Estado”, aponta Gonçalves.
Essa modalidade de crédito é considerada uma das mais seguras e rentáveis do mercado financeiro, já que o pagamento, por ser descontado diretamente do salário ou benefício de trabalhadores com estabilidade, é certo.
Com os escândalos apurados até aqui, Gonçalves reforça a estimativa de que grande parte do crescimento acelerado de capital do Master tenha se dado por meio da facilitação do crédito consignado.
“Por isso, a gente considera que foi uma medida que visou beneficiar o Banco Master. Em tese, a alteração da legislação beneficiaria qualquer banco que oferecesse crédito consignado no cartão. Mas, na época, todo o crédito oferecido era do Banco Master. Não se tem notícia dos servidores terem pegado cartão ou empréstimo com outros bancos”, reforça a parlamentar.
Endividamento e aflição
Segundo os números da Radiografia do Endividamento de 2026, Belo Horizonte é hoje a capital mais inadimplente do Brasil, com seis em cada 10 famílias da cidade com pelo menos uma conta vencida, o que demonstra que os mineiros não estão imunes ao problema do endividamento que aflige todo o Brasil.
“O pagamento de aluguel, a compra de medicamentos e a vida como um todo ficam comprometidos. A gente vê que, hoje, o endividamento das famílias brasileiras é um dos principais problemas no Brasil”, enfatiza Gonçalves.
Segundo a deputada, enquanto o governo federal busca medidas para sanar o endividamento, diante desse possível esquema e da liquidação do Banco Master, esses endividados estão agora em uma “situação de limbo”.
“Sequer contato com o banco para renegociarem as dívidas eles conseguem. Eles vão tendo a cobrança direta emitida na folha de pagamento. Em alguns casos, cobranças irregulares aconteceram e eles sequer têm contato com o banco para questionar essas cobranças indevidas. É uma situação de muita angústia e desespero para os servidores”, reforça a parlamentar.
Outras suspeitas
A denúncia também aponta relações suspeitas envolvendo doações de campanha e beneficiamentos subsequentes a empresas. Seria o caso do recebimento de doação de campanha, por Zema, do empresário Salim Mattar e de outros sócios da Localiza Rent a Car, tendo o doador sido beneficiado com cargo e a empresa com isenções fiscais.
Outros favorecimentos ao Master também são apontados pela deputada estadual. “Nos processos de mineração, isso é muito evidente. Tanto a mineração na Serra do Curral, quanto a mineração Itaminas, com a operação da Mina Jangada e o perdão de dívidas da Itaminas junto ao Estado. Todos que aconteceram durante o governo Zema”, relembra.
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Com a apresentação da notícia-crime no dia 14 de maio, a expectativa agora é de que a Polícia Federal e o Ministério Público Federal instaurem inquéritos para investigar as denúncias.
“Se é que já não existem inquéritos abertos correndo em segredo de justiça. Agora, temos que esperar que as forças policiais façam o seu trabalho e desvendem essa coincidência de um decreto que modificou uma legislação beneficiando o Banco Master às vésperas de o pai do Daniel Vorcaro fazer uma contribuição milionária para a campanha do Zema”, conclui Gonçalves.
Outro lado
Procurado pelo Brasil de Fato MG o governo de Minas não se posicionou até o momento da publicação desta matéria. O espaço segue aberto.



