Saúde

Lela Brandão lança livro sobre vertigem e o vazio dos próprios pensamentos

“Há perguntas que só encontram espaço para existir na vertigem”, escreve Lela Brandão. “Vertigem” é a sensação que ela descreve ter tido em alguns momentos de sua vida, especialmente quando se viu impelida a encarar o vazio de seus próprios pensamentos. É esse sentimento também que dá nome ao seu novo livro, lançado pela editora Sextante.

À Folha, ela diz que a escrita do livro é uma grande homenagem aos dez anos de psicanálise que a fizeram voltar para si. Por anos, ela não conseguia dormir sem a televisão estar ligada, até que foi desafiada a desligá-la por sua terapeuta.

Apresentadora do podcast Gostosas Também Choram e fundadora da marca de roupa feminina Lela Brandão Co., ela descreve o vazio como algo que a sociedade aprendeu a evitar. E com as redes sociais, lidar com essa ausência se torna cada vez mais difícil.

“Você vai nos eventos e está todo mundo competindo para ver quem está correndo mais, quem está com a agenda mais cheia, quem está mais cansado”, diz. Por trás dessa exaustão exibida como conquista, ela identifica algo mais profundo: “a culpa de existir, que é um subtema bem existencial, que vem atrás dessa exaustão honorária.”

Após um burnout em 2024 —marcado por exaustão, vontade de desistir e a pressão de continuar performando—, ela conta que seu corpo a forçou a desacelerar.

A comunicadora diz que “foi um processo até conseguir genuinamente achar cafona ficar orgulhosa de uma agenda muito lotada.” Essa experiência fez com que prometesse a si mesma que não voltaria a esse lugar, e contar sua história é uma forma de que outras pessoas não precisem “cair” para reconhecer os sinais de exaustão.

Ela cita Byung-Chul Han, autor de “Sociedade do Cansaço”, para dizer que estamos em uma era em que a performance é internalizada e reforçada no ambiente digital. Para ela, vivemos hoje em um mundo “phygital” (físico + digital), onde a desconexão total é quase impossível.

Essa sobreposição, segundo Lela, mantém a atenção permanentemente fragmentada. O corpo físico é deixado de lado enquanto a mente escapa para o mundo online, gerando desconexão com os próprios sinais de cansaço.

Lela trabalha na internet, tanto nas redes sociais quanto em seu podcast. Isso faz com que se veja em um paradoxo de entender e criticar a internet como um espaço nocivo, ao mesmo tempo que continua atuando nesse meio.

“Em alguns momentos eu queria desistir, era muito difícil permanecer sabendo de tudo isso e com a dinâmica parasocial”, conta. O que a faz ficar é entender os motivos que a levam a fazer isso, que ela diz ser a necessidade intrínseca em se comunicar e se conectar com sua comunidade, seja em qual plataforma for.

Nesse contexto, que mede o valor humano pela sua produtividade e utilidade, ela aponta que descansar pode ser visto como um prêmio ou até mesmo como uma ferramenta necessária para produzir ainda mais.

Lela defende, então, o descanso como ato de resistência, especialmente para as mulheres, geralmente sobrecarregadas por múltiplas jornadas.

Fazer um recorte de gênero sobre essa questão é importante porque, para ela, essa perspectiva é relevante em todas as discussões. “As mulheres sempre são colocadas como o outro. E por ser o outro, acaba que as especificidades da experiência muitas vezes não aparecem, talvez por serem ignoradas, talvez por não serem tão importantes para quem tá lendo ou assistindo”, diz.

Ao narrar sua experiência individual — da sobrecarga ao contato com o vazio e à forma como esse processo mudou sua relação com o corpo —, Lela pretende mostrar que essas não são vivências puramente individuais, mas coletivas, com necessidades e desafios compartilhados.

“Precisamos pensar juntas em soluções para que a gente não tenha que enfrentar individualmente o mundo que nem sabe que a gente está tendo esses problemas, porque não está interessado em ouvir”, diz.

Informação

Folha de São Paulo

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