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O segredo por trás dos relógios milionários de Neymar e Messi vai muito além do luxo

Quando Neymar, Lionel Messi e outros nomes do esporte e do mundo dos negócios aparecem usando relógios avaliados em milhões de reais, é comum que o público associe essas peças apenas ao luxo e à ostentação. No entanto, para especialistas em alta relojoaria, esse tipo de aquisição vai muito além da exibição de riqueza e envolve fatores como tradição, exclusividade, história e preservação de patrimônio.

De acordo com Tamara Lorenzoni, estrategista de marcas com atuação internacional e especialista no mercado de luxo, interpretar esses relógios apenas como símbolos de status é uma visão limitada sobre um segmento extremamente sofisticado.

“Essa leitura do status existe, mas é bastante superficial. No topo do mercado, um relógio dificilmente é comprado apenas para comunicar riqueza. Ele representa acesso a um patrimônio cultural, técnico e histórico construído ao longo de décadas, muitas vezes de séculos. Algumas peças podem funcionar como ativos patrimoniais, mas primeiro existe a construção de valor da manufatura, da marca e da própria relojoaria. O relógio não nasce como investimento. Ele se torna um ativo porque carrega um significado que o mercado reconhece e preserva ao longo do tempo”, explica.

Segundo a especialista, algumas referências produzidas por tradicionais fabricantes suíços conquistaram enorme valorização ao longo dos anos graças à combinação entre produção extremamente limitada, elevado nível técnico e uma demanda constante entre colecionadores de todo o mundo.

Embora existam modelos negociados por cifras superiores ao valor original de lançamento, Tamara ressalta que esse cenário está longe de representar todo o mercado da alta relojoaria.

“Existem referências específicas que passaram a integrar conversas sobre diversificação patrimonial, principalmente entre grandes colecionadores. Mas o relógio ocupa um espaço muito particular. Ele reúne liquidez internacional, escassez e um enorme valor simbólico. Ainda assim, não substitui ativos tradicionais. É uma categoria própria, cuja força está justamente nessa combinação”, afirma.

Outro fator frequentemente citado é a facilidade de transportar objetos de alto valor em comparação com outros bens patrimoniais. Apesar disso, a especialista destaca que esse não é o principal motivo que leva alguém a investir milhões em um relógio.

“É verdade que poucas categorias concentram tanto valor em um objeto tão portátil. Porém, dentro do mercado de luxo, o que realmente sustenta esse patrimônio é a confiança. Procedência, autenticidade, documentação, estado de conservação e relevância para colecionadores são fatores muito mais determinantes do que simplesmente o preço”, pontua.

Além da valorização financeira, relógios de alta relojoaria também costumam aparecer em planejamentos patrimoniais e sucessórios. Ainda assim, Tamara explica que esse aspecto normalmente é tratado por especialistas das áreas financeira e jurídica, enquanto os compradores costumam priorizar critérios completamente diferentes na hora da aquisição.

“Quem investe nesse universo geralmente está interessado na qualidade da manufatura, na raridade, na história da peça e na legitimidade daquele objeto dentro da relojoaria suíça. Existe uma diferença importante entre o que o mercado financeiro analisa e o que desperta o desejo de quem realmente conhece alta relojoaria”, destaca.

Na avaliação da estrategista, o principal atrativo dessas peças continua sendo a combinação entre tradição, inovação e excelência artesanal. Para muitos colecionadores, adquirir um relógio não significa apenas comprar um acessório caro, mas preservar uma obra de engenharia capaz de atravessar gerações.

“A paixão pela relojoaria e o reconhecimento da excelência continuam sendo os motores mais consistentes dessas aquisições. O verdadeiro colecionador compra porque reconhece tempo, conhecimento, inovação técnica e tradição materializados em um objeto. Exclusividade e patrimônio podem fazer parte da decisão, mas dificilmente sustentam sozinhos uma compra dessa magnitude”, afirma.

Ao final, Tamara também rebate a ideia de que um relógio milionário possa ser comparado a uma “conta bancária de pulso”. Para ela, a analogia mais adequada é com uma obra de arte de grande valor histórico.

“Essa metáfora simplifica um mercado muito mais sofisticado. Um relógio de alta relojoaria não substitui patrimônio financeiro. Ele representa outra forma de preservar valor, reunindo cultura, artesanato, escassez e história. Talvez a comparação mais adequada seja com uma grande obra de arte. Existem peças que atravessam gerações mantendo ou ampliando seu valor porque carregam um legado reconhecido pelo mercado. No luxo, patrimônio não é apenas aquilo que vale muito. É aquilo cuja relevância permanece ao longo do tempo. Quando a construção da marca é consistente, o tempo não reduz valor. Ele costuma reforçá-lo”, conclui.

Veja:

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