Projeto em São Paulo une atividade física e convivência para envelhecimento saudável

Nem mesmo uma inflamação na região dos ombros impede as atividades da dona de casa Maria Ângela Dias, 85. Sem ajuda, ela limpa o apartamento onde mora sozinha, na região central de São Paulo, faz a própria comida e caminha duas vezes ao dia.
“Nunca fui parada, não gosto de me entregar. Tive câncer no pulmão direito e operei há 15 anos. Procuro viver o melhor possível. Não penso em coisa triste para não me aborrecer. Escuto música e danço sozinha”, conta.
Maria Ângela conversou com a reportagem durante um dos encontros do Mova-se, projeto do Hospital Sírio-Libanês voltado à promoção do envelhecimento saudável e bem-estar. Gratuito, é destinado a pessoas que tenham a partir de 60 anos e morem nos bairros Bela Vista, Consolação ou República, todos na região central da paulista.
Atualmente são atendidas cerca de 140 pessoas, que três vezes por semana participam de grupos de atividade física, dança, rodas de conversa e palestras no espaço do programa Abrace seu Bairro, outra iniciativa do Sírio-Libanês na Bela Vista.
Após a inscrição no Mova-se, o interessado passa por uma triagem socioeconômica focada na identificação de vulnerabilidades. Na sequência é feita uma análise clínica com equipe de geriatria —não se trata de uma consulta médica individual com finalidade diagnóstica; o objetivo é traçar uma “fotografia” do grupo para embasar ações coletivas.
A triagem se baseia na metodologia Icope (Integrated Care for Older People), da OMS (Organização Mundial da Saúde), e investiga mobilidade, cognição, humor, capacidade sensorial, vitalidade e contexto social.
O método combina questionários detalhados com testes práticos de funcionalidade de rápida execução. Os profissionais medem parâmetros como peso, altura e medicamentos utilizados e aplicam testes de memória. Também são feitos exames de preensão palmar, que mede a força muscular da mão e do antebraço, e testes de mobilidade, como velocidade da marcha e do ato de sentar-se e levantar-se.
A partir dos resultados, os especialistas identificam as necessidades de cada um, e os participantes são direcionados a grupos de atividades.
Segundo Fabiane Gomes Correa, geriatra do Sírio-Libanês, o projeto foi criado em 2023 para os participantes do Abrace Seu Bairro, que desde 2001 promove iniciativas para qualificação profissional e geração de renda de moradores da região. Com o Mova-se, a ideia é buscar um olhar mais voltado à saúde, ela diz.
O aposentado João Augusto Varela da Silva, 68, conta que participa das atividades há dois anos. Frequenta grupos de ginástica e de dança e diz que, além de lhe dar novos amigos, o projeto o ajuda a perder peso.
Inicialmente, uma pesquisa com 140 idosos vinculados ao projeto Abrace seu Bairro buscou traçar um perfil do potencial público-alvo do Mova-se. O resultado mostrou pessoas com desempenho cognitivo e mobilidade bons, mas com risco de quedas. O isolamento social também chamou a atenção.
“Quase 50% deles moram sozinhos. Outros são cuidadores de filhos com dependência, de netos ou bisnetos pequenos ou dos próprios pais”, afirma Correa. Também foram identificados sintomas de ansiedade e depressão, ela diz.
Indivíduos com histórico de quedas realizaram treinos baseados em equilíbrio e fortalecimento muscular, aliados a atividades de dança e educação física.
Outro problema identificado foi a incontinência urinária, relatada por 50% dos participantes da pesquisa. Por meio de palestras e treinamento prático com a equipe de fisioterapia pélvica do hospital, os participantes aprenderam exercícios de reabilitação para fazer em casa.
“O letramento em saúde é a ferramenta mais eficaz de prevenção. Quanto mais letrada for a população, melhor será o autocuidado e, consequentemente, a qualidade de vida“, afirma a geriatra.
Com o projeto em andamento, foi feita uma nova pequisa para medir o impacto individual das atividades e mapear novas demandas.
A expectativa agora, diz o hospital, é levar o Mova-se para outras regiões da cidade e ampliar o atendimento para 250 pessoas.
Informação
Folha de São Paulo



