Política

A era dos sem-vergonha

Dez anos depois de “pós-verdade” ter sido eleita palavra do ano, há um novo conceito político e social a impor-se: a “pós-vergonha”.

Reparem: a vergonha é, desde os primórdios, um sentimento importante para o ser humano. A sociologia explica como esta emoção funciona como fenômeno de regulação social que é prévio até à lei – nós abstemo-nos de dizer ou fazer coisas que ofendem e chocam os outros, porque nos sentimos embaraçados. A vida coletiva assenta nesta preocupação inata com o olhar de aprovação exterior.

Mas, hoje, os sem-vergonha estão por todo o lado. São polêmicos, são ofensivos e não têm qualquer pudor em indignar ou atacar. Todos percebemos que são cada vez mais os que defendem posições abertamente racistas, xenófobas, machistas, homofóbicas ou autoritárias nas redes sociais – e não só.

As últimas semanas têm sido marcadas por declarações chocantes que correram o mundo. Há dias, por causa do mundial de futebol, a senadora paraguaia Celeste Amarilla atirou-se ao capitão da seleção francesa com ataques racistas. Ela disse, por exemplo, que Mbappé era um “camaronês colonizado” que “o mais instruído que ouvia eram os chimpanzés”.

Antes, no Brasil, ouvimos o jornalista Paulo Figueiredo dizer que as mulheres votam mal e a influenciadora bolsonarista Pietra Bertolazzi afirmar, sem vergonha, que as mulheres não deveriam ter direito ao voto.

Nos Estados Unidos, Donald Trump está sempre a fazer declarações ofensivas, discriminatórias ou insultuosas contra minorias, rivais e até aliados. A 4 de Julho assistimos a uma manifestação de 300 supremacistas brancos e neonazis a desfilar por Washington.

O meu ponto é que vivemos tempos bem para lá dos fatos alternativos e das mentiras que se generalizaram – hoje perdeu-se a vergonha de mostrar ou dizer ideias ofensivas, outrora consideradas impronunciáveis e indefensáveis.

O cientista político português Vicente Valentim explicou que as ideias racistas, machistas ou homofóbicas não despareceram verdadeiramente da sociedade: estavam só recalcadas até surgirem políticos que as pronunciassem, como fizeram tantos líderes políticos populistas.

Claro, a internet contribuiu para a redução da vergonha como fenômeno de autocontrole e moderação na relação com os outros, sobretudo por causa do efeito de bolha onde se juntam pessoas que pensam da mesma maneira, muitas protegidas atrás de anonimato.

Mas que me pergunto é isto: E se a sem-vergonhice virar a regra? E se o alvo formos nós? Alguém quer mesmo viver num mundo dominado por sem-vergonha?


LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.

Folha de São Paulo

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo